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CAPOEIRA EM DISCUSSÃO


Capoeira – escola superior ? esporte ? arte ? dança? luta? terapia?

INTRODUÇÃO

A Internet é um fonte inesgotável de conhecimentos, amizades, companheirismo, parceria.
Nesta seção, fruto do provocante texto do nosso genial  Mestre Squisito, que pessoalmente prefiro grafar como "Skisito", por que nele tudo é esquisito, exceto este artigo… estaremos publicando pareceres, opiniões e sugestões sobre conceito. 
Devo relembrar que a capoeira com o a praticamos hoje, aparece na terceira década deste século e ainda está em contínua transformações que venho acompanhando desde o o surgimento da Regional, uma vez que iniciei a sua prática e aprendizado, com Mestre Bimba em 1938 (oito anos após a sua criação…), convivi com seus primeiros alunos, dos quais obtive informações preciosas que venho apresentando, antes sob forma de depoimentos que de pesquisas.
Uma instituição virtual, um simples < www.capoeira.edu.br > poderia ser  o ponto de encontro onde os interessados possam trocar idéias, informações usando < ftp://…. > , com softwares de fácil manuseio como  Frontpage, WSFTP95, ICQ, etc. estimulando o crescimento de cada um sem  o vinculo obrigatório a uma instituição de universitário arcaica, deficiente, corporativista, feudal, cara e de baixo rendimento prático, na qual predominam  teoria e coletânea de títulos como objetivo e instrumento de ascensão em titularidade.
Bimba e Pastinha dispensavam aquecimento e alongamento,.
Consideravam os próprios movimentos do "jogo" de capoeira como auto-suficientes, aquecendo e flexibilizando o corpo, enquanto aperfeiçoam o espírito, aumentam a auto-estima, sociabilizam o cidadão e  conduzem o SER ao campo do divino. 
Parabéns, portanto, a Mestra Maria Pandeiro e ao querido amigo Skiisito pela abertura deste espaço.
Por ser médico, espiritualista e "feito" em candomblé, disponho de vivência pessoal, convivência com os personagens, atores e autores  principais deste maravilhosa manifestação da fusão das culturas africana, ameríndia e européia,  tenho procurado divulgar pela internet, contatos pessoais, palestras, entrevistas, livros,  sem deixar de reconhecer as limitações dos depoimentos, sujeitos às influências de prejuízos e sobretudo, do saudosismo que turva a apreciação do atual e modifica a antevisão do futuro.
 Sugerimos, para ampliar a discussão, visitar nossos trabalhos: 

Salvador/BA, 03/210/99 – "Decanio"


Cara Mestra Maria Pandeiro.
Moçada ligada da Net… Axé!

Desculpe a demora na resposta…
Estava envolvido com um monte de compromissos e só agora me liberei para continuarmos o assunto, que tanto nos entusiasma: a capoeira como instrumento de educação formal!
Achei muito interessante suas reflexões, particularmente quanto à preocupação com a capoeira restrita dentro de uma educação física exclusivamente corporal, com o que concordo plenamente: a capoeira é muito mais do que uma pratica desportiva, tem alcance muito maior do que um simples esporte…

No entanto, minha prezada Mestra, esse assunto é realmente muito denso, muito complexo, muito amplo e estamos apenas iniciando nosso debate em torno dele…
Por exemplo, se para introduzirmos a capoeira como prática educativa dentro de educação física, e isso vem ocorrendo a muito tempo, já temos diversas dificuldades, particularmente uma atitude defensiva, de um lado dos profissionais de educação física – que se sentem naturalmente ameaçados pelos professores e mestres de capoeira e, do lado da capoeira, os nossos Mestres e Professores que, sabedores que as regras dentro da Escola e da Universidade são ditadas pelos títulos acadêmicos, também se sentem despreparados para competir com os professores de educação física e, como isso, estabelece-se uma atitude mutuamente insegura e de distanciamento… 
Acho que todos conhecem esse tipo de problema.
Bem, superado esse primeiro impasse – na verdade uma barreira da insegurança da perda de espaço e de poder mutuo, logo que a razão assume o devido lugar da análise das coisas, vê-se que ambas as partes tem a ganhar, pois, do lado da educação física, particularmente para o nosso povo brasileiro, encontramos uma pratica extremamente pobre e alienante, onde exercícios calistênicos e extremamente desestimulantes, fazem com que exista um grande vazio na prática desportiva, hoje sendo considerada uma disciplina ligada antes à SAÚDE no plano mais geral do que uma atividade FÍSICA puramente, dentro dos próprios anseios dos profissionais de vanguarda da Educação Física. Assim, a Educação física, se encontra carente de elementos capazes de promove-la ao status de uma disciplina holística o suficiente para ser responsável pela saúde das pessoas, resgatando-a de uma condição histórica de disciplina de segunda categoria, preocupada com a coisa menos importante: o corpo!
Cabe esclarecer, Mestra Maria Pandeiro e camaradas dessa grande roda, que não sou profissional de educação física, e tão somente tive o privilégio de participar do primeiro Curso de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade de Brasília – UnB, com Especialização em Capoeira na Escola.
Um curso que esperamos continue a acontecer a partir do próximo ano aqui em Brasília, sendo minha praia a capoeira a cerca de 25 anos, onde meu contato com essa questão aconteceu justamente durante esse curso de pós-graduação…
Por isso agora me sinto na obrigação de da minha contribuição ao assunto, que já me interessava a muito tempo.
Pois bem, dizia, a Capoeira pode se tornar – pelo menos para a nossa população brasileira, particularmente nossas crianças, adolescentes e jovens, um instrumento capaz de criar uma alternativa absolutamente brasileira para pratica desportiva, para a qual nada impede ?? pelo contrário isso pode melhorar a própria qualidade da pratica desportiva, que ela possa ser incrementada de todas as potencialidades de capoeira, tais como você mencionou, de dança, de aprendizado musical, de aprendizado ritual, de aprendizado de nossa História, de nossas raízes, de nossa cultura popular (nesse caso não folclorizada e estigmatizada como um estudo de cultura morta como tantas outras artes populares que já vimos se tornar restrita a pequenos grupos de resistência), como também aspectos terapêuticos e de franco apoio ao desenvolvimento motor e psíquico de nossas gerações emergentes, fazendo nascer neles um verdadeiro brasileiro, orgulhoso de suas raízes e de suas origens…
Sim, e qual a diferença que isso faria em relação ao que você chamou de uma uma Escola Superior de Cultura Afro-Brasileira e Capoeira?
Talvez nenhuma, a não ser pelo fato de que a questão burocrática da universidade – em qualquer lugar do mundo – é extremamente grande e de difícil superação e, se para sermos parte integrante e interessante a uma instituição existente e estruturada como a educação física, quanto maior ainda seria termos que criar uma nova estrutura capaz de sustentar a existência de uma nova Escola, autônoma e única, como essa?
Estrategicamente falando, você não concorda que seria uma maneira razoável de começarmos se pudermos alçar tornarmo-nos parceiros da Escola de Educação Física e, na medida em que ganharmos suficiente fôlego e espaço possamos pensar e buscar o refinamento de nossas vocação dentro da capoeira, admitindo-se com isso que aqueles que se especializam na capoeira como esporte de rendimento tivessem um aperfeiçoamento técnico disciplinar da capoeira olímpica…
Outros como você ou eu poderíamos ter espaço para nossa afinidade com a capoeira enquanto Arte e cultura popular lato senso, com respaldo para trabalharmos essa vocação com liberdade e com os insumos que as diversas universidades e cabeças envolvidas pudessem estar produzindo?
Da mesma forma, para a capoeira, poderíamos ter trazido da educação física, como da educação em geral, alguns aspectos que permitissem que tivéssemos mais consistência em nossos conhecimentos, mais consciência em nossas praticas, mais ética em nosso meio, mais profissionalismos em nossas lideranças, e outras coisas que possamos extrair da educação física e da Escola formal sem perder nossa identidade ou autonomia?
É isso aí…
Imagine que essa discussão está apenas começando e vamos s’imbora!!

Yêh, volta do mundo!!!!!! Camará!!!!
Squisito 


Camaradas,
Sou iniciante na Capoeira, mas já me sinto preparada para afirmar que não se  pode reduzir a Capoeira a uma "atividade física" ou "Arte". É MUITO MAIS.

Me emociono numa roda, entro em transe mesmo, por isso defendo que a capoeira é muito mais ritual, uma luta que nos remete as nossa origens. Não as africanas, estou falando das sociedades primitivas, de muitos anos A.C.  …  É muito mais complexo.
É um registro que existe ou não na alma.

Aluna Coruja.


Salve Caro Mestre Squisito e todos/as que participaram deste diálogo!

Muito obrigado pela oportunidade de dar meu parecer sobre este assunto de tanta importância para nosso futuro. Estive pensando e refletindo sobre o mesmo e também venho lutando aqui na Alemanha para o reconhecimento da Capoeira como "Arte". Talvez o processo de minha luta possa ser uma sugestão para a discussão do Fórum a ser realizado.
Na minha opinião a Capoeira não se enquadra, nem deveria ser de responsabilidade da disciplina "Educação Física", por limitá-la à atividade corporal, diminuindo os fatores artísticos e culturais da mesma.
Levando-se em conta que a Capoeira possui aspectos esportivos, deveríamos abaliza-la, porém em seu todo como uma manifestação artística popular.
Do ponto de vista etnológico a Capoeira pertence a "Arte e Cultura Popular".
O que é "Arte Popular"?
Arte popular se refere a uma quantidade de fenômenos culturais que originariamente não fazem parte de uma elite cultural clássica. Os fundadores, produtores da Arte popular não são classificados como artistas autônomos da "alta cultura" ou seja, como intelectuais.
Arte popular foi e está ligada, ainda hoje, com a prática da vida.
Gênios artistas, autônomos, os quais têm sua arte como uma criação única e completamente individual, são raramente encontrados na Arte Popular.
O que domina na Arte Popular é a tradição que é passada de geração para geração, de um grupo para outro em coletividade, na vivência e na prática da comunidade.
Na maioria dos casos os autores da Arte Popular fazem parte de uma classe social mais carente com nível educacional baixo e grande índice de analfabetismo…
Arte e cultura popular chegam a ser "culture of poerty" que significa arte marginalizada, como arte de pobres e oprimidos, que atinge naturalmente diversas classes sociais -como por exemplo a cultura do marginalizado Nordeste do Brasil.
No entanto, não podemos deixar de reconhecer estes criadores, autores e divulgadores como "artistas", principalmente quando um membro de uma comunidade destaca-se pelo seu desempenho a divulgando, a apresentando e a representando profissionalmente palcos, eventos culturais e festas públicas fora da comunidade a qual a devida "arte" se origina.
Vendo através deste prisma, teremos uma Capoeira mais rica e completa do que um simples esporte.
Para tanto é necessário muito mais conteúdo em um curso de nível superior, que profissionalize a Capoeira, que o que nos oferece a Escola de Educação Física. São necessárias outras disciplinas que complementem o Estudo além da parte física, esportiva, didática, recreativa e competitiva.
Há de se convir que não existe nenhuma Escola Superior que abrigue a Capoeira no seu todo.
A Escola Superior de Música seria incompleta pela falta dos elementos corporais, na Escola Superior de Dança nos faltariam os elementos musicais, históricos, etnológicos…
A Escola de Pedagogia, Sociologia e História teriam somente a parte teórica. Sendo assim é quase impossível encaixar a Capoeira em alguma Escola Superior de Educação que a abrigue sem que ela perca sua complexidade como Arte e Cultura Popular Brasileira.Minha sugestão é que se crie uma Escola Superior de Cultura Afro-Brasileira e Capoeira, com o objetivo de formar profissionais que sejam aptos a representar a Arte Afro-brasileira em todo seus aspectos, incluindo-se os elementos folclóricos: Maculelê, Samba de Roda, Puxada de Rede, conhecimentos gerais das religiões afro-brasileiras, seus ritmos, suas danças, suas raízes e toda a parte histórica, teórica, Capoeira Angola, Regional e suas inovações, fabricação de instrumentos, estudos sobre a origem dos mesmos, etc…
As atuais leis criadas nos últimos anos, que restringe os profissionais de Capoeira à professores de Educação Física ou supervisão dos mesmos nos limita, não só no campo de trabalho, mas também na representação da mesma, colocando Mestres antigos e sem formação acadêmica em situação desvantajosa e submissa. Tais Mestres e profissionais, com a criação de uma Escola Superior de Capoeira, terão direito à "Causa Honoris". Os praticantes de Capoeira poderão ser selecionados para tais escolas através de audições (como é feito nas escolas de Dança), onde o conhecimento básico, prático e teórico de Capoeira seria avaliado.
Assim todo/a candidato/a teria que ter uma formação prévia de no mínimo cinco anos.
As disciplinas não deveriam somente estar restritas à "Arte da >Capoeira", mas também ao corpo humano e seu funcionamento ? atualização de métodos corporais para Aquecimentos e Alongamentos e Primeiro Socorros (que deveriam ser atualizados à cada ano)-, Didática, Pedagogia moderna e infantil, alfabetização de adultos através das músicas de Capoeira (Paulo Freire), História do Brasil, da África e Geral, Geografia, Administração, música e canto (teórico e prático), Dança afroe afro-brasileira, Percussão afro-brasileira e africana, Sociologia – Formação de Projetos Sociais, Política, Psicologia, enfim tudo o que um bom profissional necessita para lidar com a sociedade e representar a Capoeira como uma Arte e não como um mero Esporte.
Acredito na Capoeira como Arte, pois ela abrange muitos aspectos, englobando o ser humano em um todo, enquanto a Capoeira esporte o restringe ao corpo, o levando ao espírito competitivo que não cabe nos fundamentos da Capoeira.
E mesmo que insistam a pratica-la como um esporte competitivo a elevando à nível olímpico, deveríamos nos preocupar com a parte educativa da mesma.

Abraços.
Mestra Maria Pandeiro


Caro Mestre Squisito,

concordo que estrategicamente colocar a Capoeira em parceria com a Educação Física para ganharmos fôlego e tempo ou seja o que for é no momento é razoável. Porém me preocupo com as conseqüências desta estratégia.
Infelizmente na sociedade brasileira a Capoeira não é aceita por si própria. Sempre tem que vir acompanhada de mãos dadas a algo mais. Quando será que a nossa arte vai poder andar sozinha?
Quando será que a sociedade brasileira vai encarar a Capoeira como cultura afro-brasileira que por si se completa, educa, ensina, conscientiza, forma e profissionaliza?
Sempre teremos de andar apoiados numa Escola de Educação Física?
É a Capoeira somente reconhecida pelo fato de estar indo para as Olimpíadas?
Por quê nossas famílias, amigos, esposas ou maridos, filhos, não podem se orgulhar de nós por sermos capoeiristas, sem precisarmos de estratégias para lecionar e para sermos reconhecidos profissionalmente?
Será que a Capoeira por si própria não é capaz de criar à população brasileira, em especial à juventude, uma consciência cívica e uma cidadania sem ter de passar pelo "exército" ou pela Educação Física.
Não estaríamos elitizando e embranquecendo a Capoeira ao restringi-la à Escola de Educação Física? E os velhos Mestres que não tem acesso à pós-graduações e estão se confrontando com as leis criadas pelas Federações?
Com certeza acrescentaremos muito à Educação física, mas sem dúvida a qualquer outra profissão se somaria muito a junção da Capoeira… 
Mas temos realmente esta necessidade, ou não é apenas o contrário.
Para mim é bem claro que a partir do momento que se entrega a Capoeira á terceiros ela está arriscada a perder sua identidade e autonomia. 
Mestre Sombra um dia me falou:
Se a Capoeira fosse uma fonte de água fresca, muitas pessoas matariam sua sede nela.
Se um dia uma rainha bebesse desta água esta fonte passaria a ser famosa, mesmo que o povo continuasse bebendo dela. Mas será que só porque uma rainha bebeu desta água, a água mudou?
Na verdade a água continua a mesma e sempre será água!
Me pergunto tudo isto e gostaria muito de estar presente no seu Simpósio para esclarecer e debater sobre este tema.

Muito obrigado.
Mestra Maria Pandeiro


Cara Mestra Maria Pandeiro.

Obrigado pela sua atenção e interesse!
Estive viajando uns dias por isso demorei para te responder…
Interessantes suas considerações, com certeza!
Acho que todas essas questões precisam ser pensadas e repensadas….
Mas tem uma série de ponderações que precisamos fazer, com calma, com reflexão sobre os pós e contras de cada opção a adotar…
Tem um aspecto em particular que você tocou na sua mensagem, quando levanta a questão da elitização da capoeira, que tenho visto sempre vir a tona quando falamos em escola, em universidade, em educação… Ora, amiga, será que para nós se a capoeira de ontem foi gerada e criada e sustentada por pessoas simples, analfabetas ou semi-analfabetas, sábios do povo que emergiram à revelia da classe dominante e a mantiveram dentro de seus coração, a capoeira de hoje ainda cultua essas pessoas, e as de amanhã certamente continuarão cultivando – pelo menos aquelas que estejam sendo educadas dentro do espírito de respeito à hierarquia da sabedoria que sempre sustentou as relações entre os capoeiristas de sangue-bom…
Isso é sem dúvida maravilhoso! saber e reconhecer que a capoeira é um produto do Mestre emergente do nosso povo brasileiro!!!!!
Agora vale a pena perguntar: até quando a idéia de ser povo será imediatamente associada ao fato de se ser analfabeto?? Se estamos pensando em uma forma de ganharmos o status de respeito acadêmico isso se dá porque qualquer pessoa tem direito a educação, inclusive, claro, os capoeiristas!!!!!
Qualquer projeto que discuta a capoeira como um horizonte de crescimento que a torne uma disciplina educacional – dentro da escola!!!! – está diretamente associada a um mercado de trabalho, tão digno quanto dar aula em academias, embora essas  – as academias – são, elas sim, elitistas!!!  alguém discorda?
Então, se a capoeira vai – e isso deve acontecer mesmo – se tornar uma disciplina dentro da arte – ja tem sido produzidos diversos estudos nas escolas de artes, seja dança, música, etc., tendo a capoeira como tema; da mesma forma outros tantos estudos tem sido desenvolvidos nas áreas de antropologia e sociologia – vide o trabalho de Júlio César, que se tornou uma referencia dentro do estudo sociológico  com a capoeira, na educação que seja, pois – acreditem, ela sempre esteve convivendo com essa disciplina e da qual hoje é indiscutível uma série de artefatos que tem sido empregados dentro da capoeira – inclusive com alguns equívocos perigosos – como uma massa muscular sem mandinga, ou uma acrobacia olímpica estéril, enfim, qualquer que seja o terreno acadêmico/educacional que a capoeira ocupar isso será um mercado de trabalho novo – pois hoje essa coisa tem sido mantida a sete chaves por grupos que insistem em tornar as escolas – principalmente escolas públicas – espaço de ocupação por grupos, o que é no mínimo questionável, não acha??
Enfim, não podemos continuar pensando em nós capoeiristas como incapazes de estarmos dentro da ciência ou de qualquer outro espaço organizado do mundo…
Só que, infelizmente ou felizmente, a ciência tem exigência que precisamos aprender, pois na capoeira cada mestre pode dizer o que quiser para seus alunos, até mesmo as piores asneiras, que isso é a verdade! na escola isso não será possível. Na escola os alunos tem direito de questionar quanto a agressões e outras formas de opressão que tem abundado nas escolas de capoeira, a titulo dos alunos ficarem durões …!! naturalizando a violência, pois quem não entra no clima é mole, etc…
A capoeira, apesar do discurso bastante vivo na boca de quase todos nós capoeiristas, precisa aprender a democracia, de verdade, e o respeito a Lei, pois a Lei não existe para ser transgredida e se isso acontece em nosso País ainda hoje é porque a impunidade e aceita com naturalidade. A EDUCAÇ&ÃO DE NOSSO POVO PODE MELHORAR ISSO.
A capoeira pode e deve ser tornar uma instrumento de crescimento de nossa população. Ser exportada como uma cultura brasileira capaz de fazer frente a globalização que só tem uma bandeira dominante… todos sabem qual é!
Temos que ter um mecanismo de resistir na mente de nosso povo – esse mesmo povo que inventou a capoeira mas não consegue viver dignamente dela, a nossa consciência nacional – orgulho disso inclusive, a nossa história verdadeira, e a sermos saudáveis e felizes, como qualquer branco, ruivo ou amarelo do primeiro mundo!!!! e a capoeira pode nos ensinar isso tudo…
Mas dentro de uma academia?? Não, Mestre Maria Pandeiro, você sabe que dentro de uma academia podemos ensinar o culto do narcisismo, ou do ego, de movimentos e técnicas, até de alguns rituais – normalmente caricaturados, como normalmente vemos quando a classe média tenta, por exemplo, fazer um jogo de angola…… Mas ensinar cidadania, ensinar nossa História, ensinar nossa memória aos Mestres – aqueles pobres infelizmente que na maioria morreram na miséria e ter nisso uma consciência critica do valor que é dado as nossas raízes e aos nossos heróis comunitários??
Não. É claro que isso precisa ir além de uma academia para se tornar verdade…
E, o que acho mais importante, isso tem que acontecer logo, pois senão nossa memória se perde nas regras das federações e confederações, nossos valores – já sem grande valor real no mercado do mundo, serão estraçalhados pela concorrência do mercado de alunos, substituídos por tipos rambóides que estão sendo produzidos e difundidos como sendo os capoeiristas modernos!
Enfim, minha amiga e meus camaradas dessa grande roda do mundo, seja qual for o caminho, ele tem que começar a ser traçado JÁ!!
Acho preferível errar fazendo algo, do que me omitir por minhas dúvidas: a capoeira é uma conquista do povo brasileiro, extraída do sangue jorrado de nossos ancestrais, que tem direito aos espaços das escolas, das universidades, da política, do diabo a quatro! Temos o direito de ser respeitados!
Somos iguais ou até mesmo melhores do que qualquer burguês nojento que monopoliza nossas universidades publicas, que deveria estar sendo ocupadas pelos nossos cidadãos, os quais não devem mais aceitar como um fato inevitável que não tem acesso a essa universidade.
Se hoje, Mestra, não temos nós mesmos esses espaços, façamos com que nossos alunos amanhã os tenham, incentivemos eles a concorrem com esses postos. Eu concordo que a capoeira é dos capoeiristas, mas os capoeiristas tem que ser competentes para ocuparem os espaços que estão em poder dos poderosos!
Nós somos também poderosos e podemos e devemos tomar esses espaços… ou nós, ou nossos alunos, ou os alunos de nossos alunos…. TEmos que ser estratégicos. Mas devemos começar AGORA!!!!!!
Mas, afinal, estamos apenas começando a questionar essas coisas!!
Ainda espero aprender muito com todos!

Um forte abraço!
Espero vocês no SIMPÓSIO.
Axé!!!!!!
Squisito
P.S. -desculpem a pressa das idéias, mas não tive nem tempo de revisar…!! o mesmo



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A ÉTICA NOS MANUSCRITOS DE PASTINHA

Mestre Pastinha deixou traçado nos seus manuscritos  o roteiro do código de conduta (ética) dos capoeiristas de todas as  categoria (mestres, alunos e graduados).
As grandes preocupações do Venerando Mestre sempre foram o futuro da capoeira e os capoeiristas do futuro.
Talvez antevendo a transformação da capoeira-jogo num desporto pugilístico, em detrimento dos seus aspectos educacionais e lúdicos.
O  abandono do ritmo ijexá, majestoso, solene, gerador de movimentos elegantes e pacíficos, pelos toques rápidos e de caráter belicoso, é a base sobre a qual vem se desenvolvendo uma capoeira, mais preocupada em "soltar os golpes" que em se esquivar do movimentos de potencial agressivo, característica predominante entre os capoeiristas do passado aparentemente invisíveis e intangíveis como o vento (daí a lenda do desaparecimento sob forma de besouro, bananeira ou de simplesmente deixarem de ser vistos nos momentos de perigo) .
A influência da violência cada vez maior da sociedade moderna vem desviando a atenção dos verdadeiros fundamentos da capoeira, tornando-a em mais um fator de violência, sob o falso manto de defesa pessoal e de arte marcial, mero pugilato executado sob um fundo musica de caráter belicoso.
Mister se faz o retorno às origens, diria Frede Abreu, lembrando as  palavras singelas do nosso Mestre, no seu dialeto afro-baiano, um verdadeiro código de ética.
Seus conselho, guardados e obedecidos,  certamente tornariam desnecessária uma regulamentação ou codificação extensa e prolixa.


"Os mestre não pode ensinar com discortez nem de modo àgressivo, não . devemos procurar ficar isolados por que nada podemos fazer sem amôr ao esporte."
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7a, linhas 15-19)

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O egoismo, a agressividade, a deslealdade, o orgulho, a vaidade, os interesses mercenários, levam ao isolamente – reverso da esportividade.


"O bom capoeirista nunca se exalta procura sempre estar calmo para poder reflitir com percisão e acerto; não discute com seus camaradas ou alunos, não touma o jogo sem ser sua vez; para não aborrecer os companheiros e dai surgir uma rixa; ensinar aos seus alunos -sem procurar fazer exibição de modo agresivo nem apresentar-se de modo discortez…"
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7a, linhas 19-23)

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A calma é indispensável à reflexão, à correção dos movimentos, à adaptação do jogo entre os pares,  tornando o espetáculo mais belo e seguro. Todo capoeirista deve ser cortês, evitando aborrecer ou irritar seus companheiros, enquanto mantém sua própria tranqüilidade!
Decanio Filho – A herança de Pastinha, (pág. 24)


"…sem amôr a nossa causa que é a causa da moralisação e aperfeicoamento desta luta tão bela quanto util: à nossa educação fisica; …"
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7b, linhas 4-8)

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A prática da capoeira deve ser regida pelo amor a esta arte,  instrumento de educação e não de discórdia!


"… não devemos procurar ficar isolado, porque nada podemos fazer; é muito certo o trocado popular que diz: a união faz a força:…"
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7b, linhas 8-11)

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Só o respeito mútuo, a observação dos princípios básicos esportivos (lealdade, humildade e obediência as regras) e a conservação da camaradagem permitem a união indispenável ao progresso da capoeira!


"…o nosso ideal de uma capoeira perfeita escoimada de erros, duma raça forte e sadia que num futuro proximo daremos ao nosso amado Brasil."
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7b, linhas 14-17)

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A prevenção dos erros por uma conduta educada, respeitosa, gentil, levará ao aprimoramento do nosso povo.


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CODIGO DE ETICA

ÉTICA DIDÁTICA

Aos professores é dado todo o direito de criarem os seus objetos/formas de ensino da capoeira, de acordo com suas condições, locais de trabalho, características, idades dos alunos, ambiente social e outros fatores que o auxiliem ou limitem no exercício do ensino da capoeira.
Todo professor tem a obrigação de manifestar e fazer compreender aos seus alunos os princípios da capoeira, sua identidade, origem, grandes nomes dos seus precursores, etc; de forma implícita ou explícita, dependendo das faixas etárias e outros fatores típicos de cada turma/escola, bem como ensinar e respeitar os princípios deste Código.
A capoeira pode ser ensinada em qualquer local, desde que ofereça as condições de segurança e higiene aos seus praticantes.
Os professores, sempre que possível, devem exigir de seus alunos o uso de uniforme limpo e completo.
Nenhum professor deverá impor posturas rígidas aos adeptos da capoeira, sendo facultado aplicar-se regras de eficiência no desenvolvimento, na movimentação e no resultado final da aprendizagem da capoeira.
Os professores devem ter sempre em conta as limitações e potenciais de seus alunos, devendo procurar ensiná-los a explorarem seus recursos físicos e faculdades naturais.
A capoeira como arte nacional terá sempre sua vinculação às nossas tradições e história, sendo obrigação dos professores incentivarem nos alunos o hábito do estudo de nossa história e de nossas origens.
Nenhum professor de capoeira poderá fazer uso de técnicas ou recursos típicos de outros esportes dentro da aula a iniciantes de capoeira, ficando facultado o estudo de outras artes somente aos capoeiristas, alunos e professores, que já possuam a maturidade sufuciente para não misturar as características, regras e recursos de outros esportes à capoeira.
São considerados iniciantes, para esse entendimento os capoeiristas graduados até a corda verde-escuro da graduação da ABPC.
É obrigação dos professores, conhecerem, ensinarem e exigirem a relação entre os toques de berimbau e o tipo de jogo de capoeira.
Todo professor deve ensinar e dar exemplo de respeito aos mais antigos, tendo os mais velhos sempre a preferência nos jogos de capoeira, a seu critério.
É obrigação do professor desestimular os seus alunos de levarem ou trazerem comentários de natureza agressiva ou que estimule a rivalidade entre os grupos, sendo falta grave a troca de insultos entre professores particularmente na presença de alunos ou por intermédio desses.
Se ficar comprovado que algum professor estimulou ou estimula alunos seus a levarem ou trazerem insultos ou desagravos de qualquer natureza, a outros grupos ou colegas, o mesmo podera ser advertido ou mesmo punido pela representação da ABPC Regional do seu Estado ou Nacional.
O professor não deve jamais estimular seus alunos à violência de qualquer espécie, sendo passivo de punição e incompatibilização com a ABPC o professor que assim proceda e que fique comprovado.
É vedado aos professores utilizarem para seus interesses ou seus serviços – sem remuneração – os seus alunos de qualquer idade!
É vedado aos professores qualquer forma de agressão moral ou física aos seus alunos.
Será considerada falta grave o ato do professor que mantiver relações amorosas ou sexuais com seus alunos ou alunas menores de idade, particularmente no local de ensino da Capoeira.
A ABPC reconhecerá os professores auto-didatas desde que os mesmos respeitem e declarem aderir ao seus regulamentos e preceitos, e desde que sejam aceitos pelos representantes regionais da ABPC, na forma dos seus Estatutos ou regulamentos.

ETICA DESPORTIVA

A competição desportiva de capoeira se regerá por regulamentos amplamente debatidos pelos envolvidos e serà sempre feita em locais que permitam a assistência do público.
Independente da estrutura das competições de capoeira, as mesmas serão sempre conduzidas de forma a preservar seus valores tradicionais e princípios básicos.
A capoeira, quando em competição desportiva terá sempre como árbitros mestres e professores de reconhecida tradição e notoriedade no meio capoeirístico local, regional e nacional, conforme a competição.
É obrigação dos professores ensinarem seus alunos a, quando em competições desportivas, terem sempre em mente a preservação física e moral dos adversários, devendo ainda criar e estimular todas as condições de fraternidade e de alto espírito comunitário do esporte.
Todos os professores tem a obrigação de prepararem seus alunos tanto para a vitória quanto para a derrota, e a terem sempre em conta a respeitabilidade mútua com os seus adversários.
Nenhuma competição de capoeira deve ser feita retirando-lhe as características fundamentais ou que exponha a regras estranhas os seus praticantes. Fazem parte das características fundamentais da capoeira, particularmente sua música, instrumentos e ou outros princípios, citados no presente, nos Estatutos da ABPC e outros, do conhecimento e consagrados pelos capoeiristas e mestres.

ÉTICA MARCIAL

A capoeira reune todas as possibilidades de uma arte-marcial. É considerada marcial toda a arte de guerra – a palavra vem de Marte – o Deus da guerra, entre os romamos.
Podendo ser armadas ou desarmadas, as artes marciais mais conhecidas não incluem a capoeira, isso porque o seu poder combativo não é de dominio público. No entanto, a ABPC reconhece essa parte da capoeira e recomenda aos seus afiliados que procurem praticar e demonstrar sempre que possível os recursos de luta da capoeira ao público, para ampliar o seu respeito e o nùmero de adeptos, evitando-se, no entanto;

  • expor gratuitamente todo o seu potencial combativo e com isso empobrecer o elemento mais importante que a compõe numa luta, a surpresa! É dever portanto, dos capoeiristas preservarem os recursos combativos da capoeira evitando-se que os mesmos lhes sejam roubados ou assimilados gratuitamente por outras modalidades.
  • não se recomenda também aos associados participarem de combates para fins exclusivamente comerciais ou financeiros;
  • não deve haver participação de menores de idade em confrontos marciais;
  • não se recomenda a participação de combates que não tenham como base regras de preservação moral e física dos contendores;
  • não devem os capoeiristas, em hipòtese alguma, transferir para a capoeira a responsabilidade por sua derrota, uma vez que o derrotado é o lutador e não a arte. Ninguém reúne condições de representar a totalidade dos recursos da capoeira, portanto, se alguém é derrotado, essa derrota não será atribuída à capoeira! É responsabilidade dos capoeiristas assumirem esse princípio antes ou depois dos combates que participarem.

ÉTICA MORAL E SOCIAL

A capoeira tem sua origem na luta pela igualdade entre os homens e porisso ela precisa ter preservada a convivência solidária e democrática dos seus adeptos à sociedade como um todo e aos camaradas de arte em particular.
É obrigação moral dos professores de capoeira se distinguirem como cidadãos de bem. Por isso é esperado que eles se destaquem:

  • por jamais expor um semelhante a qualquer forma de humilhação (a não ser em defesa de  sua própria integridade ou de outrem, em situação de inferioridade);
  • por defender sempre o mais fraco;
  • por respeitar as pessoas de mais idade; as mulheres e as crianças;
  • por estar sempre dentro da lei;
  • por defender a democracia e a liberdade;
  • por jamais perder o auto-controle;
  • por respeitar os adversários;
  • por defender os principios nacionais, a língua e os demais fundamentos da capoeira;
  • por honrar os mestres e professores;
  • por preservar sempre a integridade física e moral de seus adversários;
  • por não discriminar qualquer pessoas por credo, raça, cor, nível social, etc;
  • pela sua auto-disciplina e consciência moral;
  • por jamais cometer qualquer forma de covardia;
  • por defender a capoeira além dos seus próprios interesses pessoais;
  • por não utilizar seus conhecimentos para autopromoção pessoal ou para levar vantagem sobre pessoas indefesas ou inocentes.

A IDENTIDADE CULTURAL DA CAPOEIRA

Ideal seria que nenhum capoeirista perguntasse por que a capoeira precisa de uma identidade. No entanto, é fato que parte deles perguntarão essa razão. Então, para exemplificar o sentido da identidade ao qual estamos nos referindo, lembramos:

  • o judô não permite chutes;
  • o boxe não usa dar tesoura;
  • o karatê não usa luvas;
  • a luta greco-romana veste calção como uniforme;
  • entre muitos outros exemplos que poderiam ser dados, e a capoeira?
    Bem, como exemplo, diríamos que a capoeira é jogada ao som da música do berimbau, que é seu instrumento básico… Mas isso é só um exemplo.

A idéia do presente código de ética é estabelecer outros parâmetros mais amplos para a capoeira.

A seguir são apresentadas algumas propostas para serem adotadas como princípios inseparáveis da identidade da capoeira:

A capoeira é sempre jogada: o jogo da capoeira assume diversas formas de manifestações, segundo o momento em que esteja ocorrendo, e pode ser:

  • Esporte: quando em competições para as quais sejam estabelecidas regras prévias tais como: tempo de duração, forma de pontuação, categorias de participantes, regras de estilo, número de jogos por fase, arbitragem, etc., e quando é estudado e desenvolvido com visão de desempenho físico-motor, tais como capacidade aeróbica, velocidade, explosão, elasticidade, etc.;
  • Vadiagem/Lazer: quando em manifestações espontâneas em locais públicos, ou particulares, sem regras prévias ou restrições, sem tempos determinados, sem responsável prévio, sem uniforme, etc;
  • Folclore/apresentação: quando em exibições de grupos especialmente preparadas para um momento específico, em palco ou outros ambientes próprios para isso, podendo ser usado esquemas combinados, movimentos de efeitos (esquetes), e nesses casos podem ser representados números de outras artes e folclores associados à capoeira. Nesse tipo de expressão da capoeira, são válidas as manifestações tradicionais da capoeira ao mesmo tempo em que, como folclore é de domínio público, por isso numa manifestação com essa conotação é livre a criação própria de cada grupo, ou mesmo comunidade. É obrigação dos professores de capoeira, quando organizarem ou participarem dessa forma de manifestação, informar ao público e autoridades presentes a natureza específica desse momento: a capoeira tem muitos outras facetas, que para serem exibidas são necessárias outras condições e regras;
    Espetáculo Plástico ou Coreográfico: quando seus movimentos forem adotados, combinados entre si, visando um efeito de dança ou coreografia, nesse contexto, a capoeira pode ser entendida como um espetáculo de dança capoeirística, onde a intenção maior é explorar os recursos de sua beleza plástica rítmica, sensualidade, etc.;
  • Jogo Marcial/Luta: quando em confronto marcial entre adeptos da capoeira ou de outras lutas, nesse caso deve haver a definição prévia das regras a serem respeitados, peso, pontuação, etc. bem como os critérios de vitória, quando se tratar de outras lutas. Esse tipo de manifestação não deverá ser de iniciativa das Entidades representativas da capoeira, sendo no entanto livre aos seus associados participarem quando assim o desejarem em eventos que não os da capoeira; respeitadas as regras éticas do presente código;
  • Jogo Psicológico/Mandinga: essa é a forma de manifestação mental da capoeira, que se baseia em confrontar ou examinar o conhecimento e o nível de experiência dos capoeiristas, através de recursos e argumentos de qualquer ordem, que permita a demonstração e a discussão dos aspectos relevantes da arte do jogo da capoeira. Sondar os sentimentos dos adversários; testar os seus reflexos mentais mais elevados e o conhecimento entre os capoeiristas. Essa forma de identidade é particularmente reconhecida pelos capoeiristas mais antigos, não tendo regras prévias, a mandinga também é admitida dentro do jogo físico, e se caracteriza por criar ilusões no adversário tais como: se machucar, estar com medo, ser mais fraco, não conseguir acertar, estar cansado, etc. Esse é o estágio mental da evolução do conhecimento do capoeirista, a fase mais elevada da arte da capoeira…

Além dessas formas de pratica da capoeira é também parte inalienável dessa arte a música, o berimbau, o pandeiro, as palmas e os seus cânticos particulares.

A capoeira deve ser jogada no espaço de um círculo ou semi-círculo, visando manter suas relações com os rituais tradicionais afro-brasileiros e também pelos aspectos de acústicas, de visibilidade e de participação coletiva na sua manifestação mais essencial e tìpica que é a roda de capoeira.
A capoeira é uma manifestação coletiva, devendo os praticantes desde cedo aprenderem que são parte importante da manifestação capoeirista e que são os responsáveis em promover a vibração necessária para que aconteça na sua plenitude.
A capoeira será sempre praticada na lingua brasileira, sendo obrigação dos capoeiristas impedirem qualquer mudança na nomenclatura dos golpes, seguências ou símbolos usados na prática da capoeira em outras línguas que não o Português/Brasileiro. Serão permitidas explicações e descriçào sobre os golpes e movimentos da capoeira em outras línguas desde que os seus nomes sejam sempre mantidos em português.
É permitido na capoeira o uso de cânticos em dialetos afro-brasileiros, devendo ser evitado recorrer-se aos pontos de umbanda, candomblé, e outros rituais religiosos na roda de capoeira.
A música da capoeira é própria, devendo os capoeiristas impedirem a introdução de outros estilos musicais e letras de músicas estranhas à capoeira nas rodas, ou em outras manifestações capoeirísticas.
A cor do uniforme oficial do capoeirista è branca, sendo vedado em competições oficiais a utilização de outras cores no uniforme do capoeirista independente da graduação. Detalhes de identificação serão admitidos desde que não comprometam o conjunto.
Em manifestações folclóricas ou plásticas são admitidos vestuários livres.
Fazem parte da essência capoeirística os costumes nacionais do Brasil, devendo ser sempre procuradas as origens de nossa terra para embasar as teorias e as práticas da capoeira. Nenhum capoeirista deve introduzir idéias ou símbolos na capoeira, alheias ao povo brasileiro, particularmente que alterem suas características primárias, como gestos, movimentos, atitudes, formas de relacionamento, música, cânticos, etc.
Será considerado persona non grata e traidor, o capoeirista que introduzir ou deixar introduzir valores estrangeiros à capoeira, de tal maneira que descaracterize sua identidade e sua nacionalidade.
São reconhecidos como estilos pela ABPC a capoeira Regional e a capoeira Angola.
Qualquer filiado à ABPC deverá respeitar a existência desses dois estilos.
Qualquer outro estilo terá que se fazer justificar e se fundamentar, em todos os aspectos para que possa ser considerado um novo estilo de capoeira.
Somente uma Convenção Nacional do ABPC pode aprovar um novo etilo de capoeira.

A capoeira Regional se caracteriza pela adoção dos princípios criados pelo seu fundador, Mestre Bimba, sendo dever de honra a vinculação da Regional ao seu precursor.
São princípios da capoeira Regional:

  • Os toques de berimbau da capoeira Regional;
  • As seguências didáticas do Mestre bimba (oito seguências do Mestre);
  • A cintura desprezada "Balão cinturado";
  • e outras características próprias da Regional, definidos por seus seguidores.

A capoeira Angola possui suas próprias tradições, devendo ser preservadas as suas características e princípios. A capoeira Angola se diferencia da Regional, basicamente por:

  • Seus toques tradicionais de berimbau;
  • As "chamadas" de Angola;
  • A origem de seus adeptos, o vínculo direto ou indireto com mestres Angoleiros;
  • entre outros aspectos, próprios do estilo, definidos pelos seguidores de Angola.

ESPIRITUALIDADE NA CAPOEIRA

A capoeira visa o crescimento espiritual do seu praticante…
Essa espiritualidade ocorre, em particular, quando o capoeirista atinge a maturidade do seu desenvolvimento. Porém, os professores devem motivar os seus alunos na intenção de buscar a sua realização espiritual.
Quando uma capoeirista consegue reconhecer as suas reais possibilidades e mesmo assim não as utiliza gratuitamente, ou quando ele evita revelar seus conhecimentos gratuitamente ou para se autopromover socialmente, está se desenvolvendo espiritualmente.
A capoeira é um caminho para os seus praticante se aperfeiçoarem como seres humanos, e atingirem a plenitude de sua cidadania e espiritualidade.
A música da capoeira deve ser entendida e manifestada como um transporte para os estágios mais elevados da consciência e através de sua prática e vivência o capoeirista deve buscar estabelecer conexão com as energias superiores da vida, com as mensagens dos capoeiristas nossos antepassados e com os mais elevados sentimentos humanos de solidariedade, de felicidade e de paz.
A capoeira é uma manifestação que deve atingir a alma humana no seu mais profundo entendimento, acima das sensações puramente físicas.
A saúde do corpo e a plenitude do espírito devem ser metas da prática da capoeira.
O capoieirista deve sempre buscar a superação de suas limitações e ansiedades e a capoeira deve ser uma forma de libertação para seus adeptos, seja dos vícios, dos medos, dos limites, ou de outras formas quaisquer de mediocridade humana.
É obrigação dos capoeiristas buscarem o seu crescimento interior. A possibilidade de crescimento interior è infinita!
A grande diversidade de entendimentos sobre a capoeira, associada à grande lacuna na sua organização e coordenação oficial, a tem transformado a cada dia num maior emaranhado de definições, tanto práticas quanto teóricas e sua divulgação, quanto maior, mais influências são acrescentadas, num sem-número de inovações, seja de natureza didática, desportiva, marcial, espiritual e também, perigosamente, de identidade.
Num encontro realizado em Brasília-DF – na Universidade de Brasilia, em 1990 – o Doutor Milton Freire, conhecido na capoeira como Mestre Onça-Tigre, descedente de Mestre Bimba, falou sobre a versatilidade da Capoeira e de como o Mestre Bimba, o criador da Regional foi revolucionário por recriar e redefinir a capoeira.
De certa forma o Mestre Onça-Tigre deu uma rasteira nos capoeiristas fiéis a uma capoeira padronizada e definitiva, ao afirmar que a "capoeira é dialética", quer dizer, a capoeira se ajusta à realidade onde ela é aplicada ou praticada… Ela se funde com o ambiente em sua volta. Daí surgem inúmeras e infinitas formas de treinamento e entendimento, além de símbolos os mais diversos, associados à capoeira. Todos, em princípio, partes da capoeira.
É lógico que não se está defendendo qualquer coisa como sendo capoeira, ou pelo menos não achamos que tudo possa ser entendido como a capoeira regional baiana, ou a capoeira angola…
Nesse ponto é que começamos a falar da nossa questão básica, ou seja, as definições e fundamentos da capoeira: a CAPOEIRA REGIONAL e a CAPOEIRA ANGOLA…
Essa discussão carece de um ponto de partida, um ponto de apoio teórico e uma convenção em que se basear. Nesse sentido é que surge a ABPC e é essa a sua principal tarefa: criar um fundamento comum na prática da capoeira; organizar e divulgar uma abordagem profissional dentro da militância capoeirística e com isso, ocupar um importante espaço de integração dos capoeiristas, seja a nível de seus valores tradicionais, preservando-os, seja a fim de permitir sua evolução dentro de uma espectativa moderna e ao mesmo tempo fiel a seus princípios éticos.
Essa é a principal questão do presente trabalho: fornecer uma abordagem ética à discussão e difusão da capoeira, à sua prática e à sua teoria… E é essa a nossa intenção!

POR QUE É NECESSARIA A ÉTICA?

Numa referência bastante superficial sobre a ética, encontramos as seguintes definições básicas:

ETHOS Palavra grega de onde provém a ética, que significa forma de comportamento social de um indivíduo ou grupo humano (roupas, atitudes, cultura) indicadora de que seu portador faz parte de determinada classe social ou grupo étnico.
ÉTICA – parte da filosofia que aborda os problemas da moral.

Existem muitas outras definições a respeito da ética, mas só nos interessa uma explicação mínima, visando justificar essa discussão. Pois, afinal,se considerarmos válida a questão do comportamento dos capoeiristas ou dos professores de capoeira, então a ética já está presente em nosso pensamento; Ou seja, mesmo sem ter a idéia clara da ética, já discutimos isso o tempo todo, quando julgamos as atitudes ou as idéias sobre a capoeira, sejam as nossas ou de outras pessoas…
Outro aspecto que é preciso ficar claro é que não existe a intenção de sugerir uma postura adocicada ou de "bom-moço" para os capoeiristas ou professores de capoeira. A meta é discutir aspectos viáveis e estabelecer fronteiras, dentro do que a capoeira possa ser reconhecida e compartilhada…
Ou seja, aqueles que tiverem uma versão individual da capoeira, e que entendam ser a verdade definitiva, estará absolutamente livre para adotá-la e defendê-la, restando apenas aos que se preocupam com ela dentro de um contexto cooperativo e profissional mais amplo; sua prática num processo sócio-desportivo e outras formas de sua manifestação coletiva e moralmente aceitas é que precisam se deter nessa questão.
A capoeira é de domínio público, enquanto manifestação folclórica e assim terá sempre o direito de ser livremente manifestada. Esse, aliás, pode ser considerado o código zero da capoeira: ela é a livre manifestaçã cultural do povo brasileiro e porisso é reservado aos cidadãos brasileiros o direito de praticá-la livremente.
Nossa preocupação é quanto aos professores adeptos à Associação Brasileira de Professores de Capoeira – é no sentido de dar-lhes uma base de identificação com sua Entidade, é com uma abordagem que envolva os profissionais da capoeira.
Por outro lado, como nos demais princìpios adotados pela ABPC, o presente regulamento é de livre adoção em quaisquer outras correntes capoeirísticas independentes. Quanto à isso, apenas pedimos que, caso os conceitos e entendimentos aqui formulados venham a ser utilizados, seja mencionado que se trata de bibliografia destinada aos adeptos e filiados à ABPC, bem como o autor. (Essa ética – do direito autoral -, não pertence à capoeira. É bem anterior).

COMO APLICAR A ÉTICA?
PARA QUE SERVE?

Hoje em dia a quantidade de informações que chegam às pessoas é bastante grande. Mesmo sem perceber – e aí está o maior problema – recebemos uma carga de influências as mais diversas, vindas de todas as fontes: televisão, cinema, rádio, shows, conversas com pessoas de diferentes formações, leituras de jornais, livros, etc… Tudo isso nos influencia em menor ou maior grau, sendo que nossa mente trabalho o tempo inteiro fazendo associações, e tudo o que tem a ver com nossa vida em particular, É mais assimilado, e fica mais forte no nosso subconsciente.
Assim, está mais do que claro que a força dos meios de comunicações interfere em nossa formação e posicionamento. Por exemplo, podemos citar a importância das olimpíadas na capoeira, particularmente da ginástica de solo. E a grande maioria que recebe essa influência desconhece a fonte original do estímulo, e é mesmo capaz de jurar confiante que aprendeu ou viu uma seqüência de saltos mortais, seguidos de flip-flap, swapt e outros movimentos acrobàticos numa roda de capoeira!
Absurdos à parte, falta muitas vezes uma base de sustentação ideológica que garanta a identidade do esporte/arte que praticamos. Ou melhor, falta uma definição própria do que seja admitido ou nào na capoeira – embora muitos livros tenham sido escritos, de grande valor, sem dúvida, mas essa questão da identidade por exemplo não temos tido muitos trabalhos a respeito, havendo mais preocupação com a tècnica e a història da capoeira..
Assim, em cima da pergunta formulada, precisamos definir de antemão algumas utilidades práticas de um código de ética:

  1. Para a definição uma política de relacionamento e convívio;
  2. para a orientação de caminhos para os filiados da ABPC, que compartilham dos princípios aqui adotados e com essa ética definida fica fácil se conhecer a priori (antes) quais as exigências para se ser um associado;
  3. para fazer com que a capoeira possa servir de estratégia de vida, já que seu aprendizado, visto na sua plenitude é um modo de viver. Algo bem maior do que uma simples regra de jogo, a capoeira deve permitir ao seu praticante a sua realização pessoal e cidadania plena, uma condição profissional até, se assim o desejar;
  4. impedir a introdução de preconceitos à capoeira e com isso garantir a sua democratização sempre;
  5. impedir a introdução de influências capazes de deturpar a teoria e a prática da capoeira, tirando-lhe sua identidade cultural e substituindo seus fundamentos e princípios básicos;
  6. como guia de ensino aos professores e novos alunos, os quais saberão preservar as tradições e ensinamentos da capoeira, permitindo sua criatividade mas garantindo suas origens, princìpios e suas tradições;
  7. para criar um instrumento capaz de demonstrar, de forma organizada e acessível, a amplitude da arte da capoeira e com isso poder divulgar os seus recursos ao público, aos órgãos públicos e também para os estudiosos, que queiram entender e pesquisar a capoeira.

Reginaldo da Silveira Costa "Squisito"

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ÉTICA NA CAPOEIRA

Nota : (A.A. Decanio Filho) Transcrição do trecho pertinente à elaboração do CE da ABPC
Os interessando poderão encontrar o texto integral no Boletim Virtual.

V – O QUE É ÉTICA ?

A Ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento. Entretanto, ainda nos é obscuro o comportamento de antigas civilizações, assim como seus conceitos de bem, valor, liberdade, Lei e outros.
O processo de desenvolvimento das civilizações trouxeram muitas mudanças nos conceitos éticos aplicados à sociedade; com isso "não são apenas os costumes que variam, mais também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria de um povo a outro.
Os ideais éticos variam muito, podemos ver no transcorrer da história. Para alguns gregos o "ideal  estava na busca teórica e prática da idéia do bem ou   estava na felicidade- entendida como uma vida bem ordenada, uma vida virtuosa, onde as capacidades superiores do homem tivessem a preferência". Para os cristãos o homem viveria para servir a Deus, diretamente, e em seus irmãos; já no período renascentista ou iluminista, ou seja, entre o Século XV e XVIII os burgueses tinham como ideal de uma vida ética "viver de acordo com a própria liberdade pessoal e em termos sociais, o grande lema foi o dos franceses: liberdade, igualdade e fraternidade".
Atualmente, o sistema capitalista é um fator influenciador da ética social, enquanto os pensadores de existência insistem em ter a liberdade como um ideal ético "em termos que privilegiam o aspecto pessoal ou personalista da ética: autenticidade, opção, resoluteza, cuidado etc", e que a maioria dos países ricos buscam a ética do prazer, muitas vezes sem moderação, o mesmo capitalismo reduziu-se à posse material de bens, ou à propriedade do capital".
No entanto este comportamento ético hoje, talvez não vigore como deveria pois há uma forte influência dos meios de comunicação de massa, dos aparatos econômicos, do Estado e das ideologias que nem sempre são de maioria, fazendo com que não haja cidadãos conscientes, e homens livres de pensar e agir. Suas atitudes tornam-se restritas ou impostas por quem detêm o poder; não há um desenvolvimento crítico. O comportamento ético é manipulado na maioria das vezes por termos cidadãos incapazes de julgar e participar conscientemente.
Com isso os maiores problemas éticos de hoje, são em torno da eticidade, ou seja, família, sociedade civil e Estado-a ética não pode ignorar esses fatores.
No contexto da família, podemos verificar que "as transformações histórico-sociais exigem hoje, éticas  sobre o relacionamento dos pais com os filhos" e isso se dá com a forte influência dos meios de comunicação e, também, o desenvolvimento da mulher na sociedade, assim como outros grupos oprimidos e isso exige uma reformulação ética diante da sociedade de hoje.
A questão ética em relação a sociedade civil não engloba somente a consciência e o comportamento de cada indivíduo; ela está relacionada com o julgamento do sistema econômico e social como um todo.
"Em relação ao Estado, os problemas éticos são muito ricos e complexos", diante da desigualdade social onde quem detêm o poder é quem possui o saber e consequentemente "a liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um estado livre e de direito". As Leis, a Constituição, as declarações de direito, a definição dos poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais.

VI – ÉTICA NA CAPOEIRA

"A partir do momento que se corta as raízes como irá se perpetuar a espécie?" (Mestre Nô-ABCP-Ba).
O estudo da Ética na capoeira se faz necessário tendo-se em vista o propósito que a capoeira palmares vem implantando na Paraíba e no Brasil.
Partindo deste conceito de ética que diz "ser o estudo das ações ou dos costumes" e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento, podemos por meio de uma análise histórica e atual, fazer um estudo do contexto ético na capoeira.
O capoeirista, como sabemos, sempre foi alvo da marginalização, já que a capoeira foi crime previsto pelo Código Penal da República e seu simples exercício na rua davam até seis meses de prisão. Mas para fugir deste conceito o baiano Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mstre Bimba, inovou a capoeira e criou, também, um código de ética rígido que exigia até o ato da higiene pessoal.
Não só Bimba, mas os capoeiristas em geral que trabalharam para o crescimento e valorização dessa arte, sempre buscaram métodos eficazes para bem desenvolvê-la.
Um dos princípios fundamentais, em comum à capoeira Angola e Regional começa com quem joga. Este tem de cumprimentar o parceiro "ao pé do berimbau", quer dizer, agachados perto do instrumento que dará o ritmo dos golpes. Ambos devem estarem limpos, "devidamente trajados", e jamais sem camisa. Deve-se procurar a harmonia, na qual um movimento de defesa já é o começo de outro, de ataque, sem ferir o companheiro. Os oponentes não se atracam, mas lutam "por aproximação", respeitando a hora de entrar e sair da roda. E ninguém deve aprender capoeira para sair Batendo nos outros.
Já dizia o mestre Pastinha que "capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta". Com isso a tática do bom capoeirista sempre foi de se fazer de fraco diante do oponente, tornando em luta violenta no momento certo, mas perigosa sempre.
Com o passar dos anos a luta brasileira tornou-se umpouco mais "respeitada", foi reconhecida pelas autoridades e divulgada pelo mundo, em contrapartida, inova em sua expressão. Muitos grupos descaracterizaram a capoeira, desincorporando seu joga ou luta das raízes que até pouco tempo a classificava como uma manifestação folclórica. Mas todo este quadro deixou a capoeira numa situação de conflito sem igual: se mantida e ensinada apenas como manifestação cultural, sem nada acrescentar, provavelmente ela estagnará e não terá sua merecida difusão; se evoluir de maneira desenfreada poderá descaracterizar-se.
Ainda existem alguns mestres que ensinam a seus alunos a luta e impõem à disciplina, o seu ensinamento como uma manifestação de nossa cultura, mesmo assim, muitos adeptos da capoeira a buscam, apenas para cultuar a forma física ou porque é moda.
Eles esquecem, e creiamos nós que alguns mestres também, que "capoeira é um diálogo de corpos, "eu venço quando o meu parceiro não tem mais respostas para as minhas perguntas" (mestre Morais).
O resultado desta nova identidade da capoeira, desvirtuada de suas raízes, são os campeonatos e "vale-tudo". Eles provocam uma enorme evasão nas academias, pois acabam desistimulando o aluno que quer treinar e que busca, na luta brasileira resistência e luta. A capoeira é única, mas nestas competições ela perdeu o estilo da própria luta. A falta de metodologia de ensino e o desinteresse em
aperfeiçoar o conhecimento sobre a arte são os principais motivos apontados por professores e mestres do grupo Palmares. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Capoeira Palmares, mestre Nô, a "questão ética na capoeira está um self-service", onde cada um faz o que quer, deixando para trás toda cultura que a capoeira carrega.
Outro fator de peso no desenvolvimento da capoeira é a sua divulgação na mídia. Com isto ela recebeu novos adeptos, se apresentou aos desconhecidos e conquistou um pouco mais de respeito e confiança. Por outro lado, este crescimento desorganizou toda uma estrutura de trabalho, o que antes era voltado para a conscientização e preservação dos costumes, hoje é dirigido para performance e/ou vale-tudo. Mesmo com toda esta transformação, ainda não foi extinto pela sociedade o preconceito por aqueles que praticam capoeira. De acordo com o professor Henrique (kiluangi de Palmares) "nós podemos ter acesso à mídia, isso não é negativo; mas para conseguirmos tirar essa imagem marginal é preciso mostrar que a capoeira realmente mudou, que é uma arte unificada com as camadas sociais, que ela é uma arte do mundo e não de uma região, cidade ou bairro. E para isso, os professores, os instrutores os mestres, ambos tem que passar informações por meio de uma didática-metodologica-que busque disciplinar e formar seus alunos, sem perder o espaço na sociedade e nem enterrar esta cultura de mais de 300 anos".
O ingresso da capoeira nos jogos olímpicos é outra grande conquista, mas preocupa muito. Na pesquisa realizada com os mestres de capoeira tanto angola como regional, no 5?? batizado e troca de cordéis do Grupo Cultural de Capoeira Badauê de Palmares, em março de 1997, verificamos que todos os entrevistados estão a favor desse novo passo mas, ao mesmo tempo, preocupados com as regras que irão prevalecer e, principalmente, com a formação do capoeira. Muitos professores são contra e alegam que "a partir do momento que ela entra em competição, seus adeptos deixam de fazer a parte histórica e cultural da capoeira" para desenvolver o lado agressivo, o que poderá acarretar em "um companheiro querendo destruir o outro por causa de uma medalha", conforme afirmou o mestre Naldinho.
Após conquistar seu espaço e reconhecimento pela maior parte da sociedade brasileira, a capoeira atingiu uma das áreas fundamentais de necessidade humana e social-a educação. Ela faz parte do currículo em diversas escolas e universidades do país e do mundo. Este ponto é fundamental e gera muitos debates nos grupos, onde, ensinar capoeira é muito mais que fazer um aú ou dar uma chapa de angola. Os experientes professores e mestres acreditam que as escolas e universidades, ao selecionarem seus discentes, devem buscar nestes qualidade, orientação, metodologia, responsabilidade e fundamentos, pois estes são elementos fundamentais para que se ministre uma verdadeira aula de capoeira. Contudo, esperamos que esse novo contexto histórico-social seja analisado e direcionado para o cumprimento legítimo das atividades da capoeira e que seus adeptos saibam destinguir a ética da estética, assim como a responsabilidade de mais um modismo social. A ética se tornará real a partir do momento que os capoeiristas forem conscientes e empenhados na valorização e preservação dessa  arte que encanta o mundo inteiro.


Patricia Morais – João Pessoa/PB – Outubro/97


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A ÉTICA ACADEMIA DE MESTRE BIMBA

O componente ético dos ensinamento do Mestre  Bimba na sua "academia" estava implícito na sua pedagogia, exemplificado pelo seu comportamento e posteriormente, na decada de 50, por mim explicitado à guisa de "regulamento", divulgado em quadro na parede oposta a entrada do salão.
Havia  naquela época uma multiplicidade de conduta consoante os universos freqüentados pelos praticantes da regional: a) conduta dentro da academia e interpares; b) relacionamento com os grupamentos de capoeira não vinculados à "regional"; e finalmente, c) comportamento em contexto social  sem conexão com a capoeira, especialmente com a regional.
Não podemos estudar a ética do Mestre Bimba e dos seus primeiros seguidores, por ser esta um conjunto de regras de conduta num determinado  momento histórico e pertinente a um universo específico.

 
Assim teremos que considerar:

  • a ruptura do mundo da capoeira provocada pela eclosão da luta regional baiana, gerada com a pretensão inicial de ampliar a eficiência do jogo da capoeira em voga na época e portanto, com a necessidade de afirmação desta maior eficiência presumida ante os praticantes do jogo primevo;
  • a introdução da capoeira – u’a manifestação cultural africana, legalmente proscrita e socialmente discriminada ou seja, duma manifestação dum segmento social dominado, procedente duma categoria escravizada – diretamente no seio daqueles que se outorgavam o título de senhores da terra e portanto, num ambiente social hostil (classe dominante de raízes européias);
  • uma relativa discriminação entre os participantes do grupos diferenciados pela presença do trabalho de Bimba, i.e., os mestres da velha ordem (jogo de capoeira) e os representantes da nova ordem proposta pelo Bimba;
  • a natural pergunta – Por que Bimba e não eu?- implícita nas palavras e no comportamento dos  dos mestres excluídos da preferência dos recém-chegados ao universo da capoeira, do acesso à fonte de prestígio social e da nova e promissora fonte de renda. Interrogação que necessariamente conduzia ao ciúme, à inveja e ao despeito, com todas suas conseqüências malignas;
  • a necessidade política de manobras entre os obstáculo legais para alcançar a liberdade de prática e entre as malhas do preconceitos para granjear a simpatia dos mentores da juventude, donde proviam os novos alunos;
  • os temperamentos e níveis culturais de Bimba e dos seus primeiros alunos, componente do amálgama da "regional", fruto da miscigenação de componentes culturais africanos   a indígenas brasileiros e eurobrasilianos, que sem dúvida influenciaram as diretrizes técnicas e comportamentais da nova face da "brincadeira de pretos".

RELAÇÃO ENTRE MESTRE E ALUNOS

A figura carismática de Bimba se apresentava entre nós como a projeção da autoridade patriarcal e magistral, impondo respeito irrestrito e a imitação do seu comportamento viril, sem titubeios, nem dúvidas. Sua palavra era a lei e a verdade. A nossa verdade e paradigma a ser acompanhada durante toda uma vida, gravada na alma e no coração ao fogo e ferro  duma veneração ilimitada, persistindo no meu caso há mais de 60 anos!

RELAÇÃO INTERPARES

A relação entre os componentes da nossa academia seguia o modelo ético e a etiqueta africana.
Cumpre acentuar que,  sem o conhecimento destes padrões comportamentais africanos não se pode compreender  o sentido de suas regras e suas conotações éticas. Impõem-se como fundamentais o estudo e conhecimento do cosmogonia, da cosmogenia, da filosofia e da lógica africanas, bem como do escravismo como fator econômico no ciclo de conquistas e dominação do mundo pela cultura européia.
A capoeira moderna vem afastando de suas raízes africanas pela europeização dos seus cantos, musicas, ritmos, rituais e técnicas.  Impõe-se assim o retornos à fonte original para coletar os fundamentos mais límpidos dos componentes culturais. Única maneira de  obter os conhecimentos indispensáveis à elaboração do código de ética,  contra-balançando  a contaminação pela violência decorrente do colonialismo europeizante e da pretensa superioridade cultura dominante.
O respeito ao "mais velho", fonte de aprendizado pelos "papos" e  demonstrações práticas, detentor de conhecimentos e habilidades desconhecidas pelo "mais novo", era imposto pela tradição e pelo reconhecimento tácito da superioridade.

O respeito pelo companheiro era imposto,
pelo desconhecimento da sua capacidade atual e pela regras…
"Confiar sempre no parceiro…
desconfiando do que ele possa fazer!"
"O parceiro é como o espelho, reflete a sua conduta…
não bata,  para  não apanhar!"
"Quem bate sempre esquece…
quem apanha sempre se lembra e espera…
um dia vai desforrar!"

RELAÇÃO COM CAPOEIRISTAS DOUTROS GRUPOS

A convicção profundamente enraizada da superioridade técnicas da regional sobre o jogo de capoeira tradicional , aliada ao ânimo belicoso dos alunos, a necessidade de auto-afirmação, a pretensa superioridade cultural da classe dominante ( donde provinham os "acadêmicos"), a humildade dos praticantes do jogo tradicional e o receio das conseqüências legais do enfrentamento individual do popular com o dominante, perturbavam sobremodo as relações amistosas entre o "clássico" ( a capoeira tradicional ou popular)  e o "moderno" (a "luta" regional do Mestre Bimba) acarretando o óbvio: um agastamento de ambas as partes.
Acentuavam a divergência e insuflavam o enfrentamento , a diferença de ritual e o andamento dos toques, desde que no estilo de Bimba era permitido e recomendado, o uso dos membros superiores no floreio e no ataque, enquanto o ijexá era acelerado em decorrência das características pessoais do nosso Mestre e dos seus seguidores, belicosos e apressados.
Ressalvando-se o comportamento daqueles  provenientes das classes populares, entre os quais eu me incluía, que se harmonizavam com seus colegas mais humildes, mantendo um relacionamento mais amistosos com os capoeiristas tradicionais.

RELAÇÃO COM OUTROS MESTRES

O endeusamento da figura de  Bimba pelos seus alunos fatalmente conduziu, sem nenhum propósito maldoso, à diminuição do valor dos antigos mestres ante à majestadeatribuída ao nosso Mestre, sendo reservado aos mesmos o papel secundário de figuras  representativas dum estádio primário na evolução de nossa arte, respeitáveis ancestrais de valor histórico, porém ultrapassados.
A maioria dos acadêmicos entretanto guardando o respeito e a consideração recomendada pela etiqueta da classe dominante no trato com as pessoais, independentemente dacategoriasocial. Alguns, entre os me incluía, conservando a admiração pelo beleza dos seus toques e cantos; alegria, disciplina, cavalheirismo e lhaneza das rodas,  e extraordinárias habilidades no jogo de dentro, no jogo baixo, elegância e gentileza dos seus movimentos, paradigmas coreográficos.

RELACIONAMENTO NO CONTEXTO SOCIAL

O preconceito classe dominante contra as manifestações culturais áfrico-brasileiras e a sua proscrição legal, conduziu os primeiros alunos do Mestre a um proselitismo somente  comparável àquele  dos discípulos de Jesus, sempre apregoando a superioridade dos ensinamentos e da conduta do Mestre!
Em casa, na escola, na rua, nas festas, nos cinemas, nos bares e restaurantes, na aglomerações de qualquer natureza os alunos exibiam sua qualificação, a nobreza de ser "ALUNO DO MESTRE"!
Cada palestra  uma oportunidade para cativar um seguidor potencial.
Cada instante um momento para exibir a excelência da prática da capoeira como defesa pessoal, preparo físico e coreografia.
Cada desencontro um chance para demonstrar a eficiência duma rasteira, tão característica da capoeira como a pele negra dos africanos e seus descendentes.


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ÉTICA NA CAPOEIRA?

"A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas."

Ética na ou da capoeira ?

Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a herança Afro que nem os velhos "majors" remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado,com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano. Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar, integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico, tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo : quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes, similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da sociedade industrial. Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma posição à altura da dos pais para todos os rebentos.A família, de que se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores. O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram oficializados uma série de "esportes" com ênfase diferente, onde o aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os folguedos populares que não foram integrados pelo espírito esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo. Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores, o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso — o meu, por sinal. Gosto da capoeira porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÏ É um esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas, isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras EXPLÍCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de normas, de regras escritas é integral da cultura europeia — para ser mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento (violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização, fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas, brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social, que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada. Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los — na vida tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética, nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet. Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se chamar de violência simbólica.
Simbólica, porque exercida sobre os símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem, de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que muitas pessoas, particuliarmente as "educadas", ficaram, devido à educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los, precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o treino na capoeira é verdadeira reeducação.
Mas para aprender, é preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras — um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre, portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes, um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais formados e deformados para e pelo discurso. Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso, para incentivar eles a comecer a aprender.

"Polô"

 

Pol Briand, Paris/FR


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BARBARIE!

Não somente os mais velhos, como eu, Itapoan, Cobrinha Mansa, Jelon, Lua Rasta, Moraes, Jerônimo, Suassuna, Squisito… estão preocupadoso com violência que assolando a prática da capoeira, notadamente na impropriamente denominada "regional". Também juventude vem se aliando ao nosso apelo à razão e retorno às raízes lúdicas do jogo da capoeira da Bahia…
Volta-e-meia recebemos mensagens de protesto e apoio à nossa campanha de recuperação dos valores iniciais da capoeira., dentre as quais destacamos a que vai abaixo transcrita na linguagem simples e sincera dum jovem aprendiz.

"Querido Mestre Decanio

Sou Tiago Graziano, a alguns meses o escrevi, se lembra ?
Não importa, venho por meio desta, informa-lo, você que é um dos grandes responsaveis pela capoeira ser o que é hoje e por um futuro da capoeira sem devida descaracterização; que um grupinho medíocre de capoeira, se não me engano de Porto Seguro, chamado Grupo Topázio, diz ter modernizado a capoeira pondo nela movimentos de jiujitsu, é ridiculo ver dois capoeiristas de repente se atracarem no chão e ficarem rolando até que um desista (bata) e até certo ponto engraçado.
O incrivel foi que passou ontem (6/8) no programa da Bandeirantes chamado H como uma novidade maravilhosa, ninguem teve a noção de tal barbaridade que estava passando ali.
O impressionante é que o mestre que implantou o jiu jitsu na roda e todos os integrantes do grupo afirmam que não houve, descaracterizaçao na capoeira, mas até mesmo um aperfeiçoamento dela, fazendo que agora com o jiu jitsu se possa ver o campeão da luta, ou seja, aquele que finaliza primeiro.
Eu peço a voce que é meu idolo; peço que informe mestre Itapoan; e que acredito que lutam para preservar maravilhosa arte , que tomem providencia , seja quais forem. Estou indignado, por favor.
Obrigado pela atenção,

Tiago Graziano."


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A VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

JUSTIFICATIVA

A violência é o campo onde se desenvolvem as manifestações sociais neste ciclo histórico de globalização, expansionismo e  imperialismo capitalista, militar e tecnológico, repetindo a decadência do Império Romano. As mensagens  que transcrevemos abaixo, recebidas pela Internet, bem traduzem a preocupação e o receio que vem se apossando dos praticantes da capoeira-esporte, sem falar naqueles que, como eu,  provêem dos antigos e saudosos tempos da capoeria-jogo.
A capoeira transplantada de sua origem, alienada da sua cultura materna, vem se transformando num instrumento de retorno ao circo romano, em sua plenitude bárbara, sem código, sem leis, desprovida dos mais rudimentares princípios de civilidade, sem governo e sem piedade.
Trazemos o assunto à baila,  abrindo espaço para o debate democrático, sem preconceitos, sem mágoas, sem procurar atingir um companheiro, guardando ética e etiqueta, para avaliar a gravidade  do momento, estabelecer uma pausa para meditação sobre as suas  verdadeiras causas e decidir o melhor caminho para evitar os fatos que se avolumam em nossa comunidade.

OS TRÊS "ERRES" DA CAPOEIRA!

Capoeira é uma palavra estranha, que se escreve com um "rê" suave se pratica com três "erres" fortes.
O primeiro é o RITMO, o segundo o RITUAL, o terceiro o RESPEITO !
Sem os quais não se joga
… nem se aprende …
a capoeira!

A. A. Decanio Filho



PROTESTO CONTRA A VIOLÊNCIA
Jeronimo Santos da Silva

Axé Capoeira!!

Venho através desta relatar um incidente vergonhoso e covarde ocorrido no dia 19 de abril de 1998.
Após chegar de uma viagem pelo Brasil, fui convidado a participar de uma roda de Capoeira de demonstração ao público em Sydney, Austrália. Esta roda fazia parte do evento de Batizado e graduação do Sr. Edval Santos, vulgo "mestre Boa Morte" natural de Salvador, e residente em Melbourne. Esta roda foi realizada em Sydney em frente ao Bondi Pavilion, Bondi beach. A primeira parte do dito Batizado foi realizada na cidade de Melbourne.
Entre outros convidados constavam as presenças de mestre Barrão – Vancouver – Canadá, mestre Amém dos Santos, figurante do filme "Only The Strong" (ou Esporte Sangrento, no Brasil) que reside em Los Angeles – USA, e um certo mestre Ousado (não o conheço pessoalmente) residente em Londres. Todos, com exceção de Marcos Barrão, amigos próximos de "mestre" (??) Edval.
Para encurtar a história gostaria de me apresentar como mais uma vítimas da violência e desrespeito provindos de capoeiristas irresponsáveis (vulgos mestres de Capoeira) que infelizmente ainda circulam impunes nestes eventos nacionais e internacionais de Capoeira.
Parece até piada de mau gosto. Passei 6 semanas no Brasil jogando Capoeira nos meios mais diversos. Até em favelas eu circulei passando pelo Rio, São Paulo, Manaus e Belém sem nada de grave ocorrer nem sofrer um só arranhão.
Foi de volta em casa entretanto, no primeiro mundo, que venho a sofrer esse tipo de atentado covarde. Eu acabava de chegar de uma viagem de mais de 18 horas de vôo e cordialmente fui participar da roda e prestigiar o evento. Dei boas vindas aos visitantes e fui em seguida atingido com um pontapé brutal no olho direito pelo capoeirista Amém dos Santos nos primeiros segundos do jogo canalha e sujo que me "convidou" a fazer.
Após passar a noite em um hospital de emergência fui operado no dia seguinte por um cirurgião plástico. Estou passando bem no momento e minha visão felizmente não foi afetada. Meu corpo é fechado e minha mente sã!! Axé baba!!
Pra voces que não sabem, o tal do Amém dos Santos mora nos EUA fazem muitos anos e não conseguiu ainda se educar.
Conforme suas palavras eu (não saí da frente do seu "golpe sangrento") e o irresponsável não teve talento nem competência técnica para conter sua selvageria na roda.
O público presente ficou estarrecido com o acontecimento brutal. Havia crianças e famílias. Foi muito sangue que correu na minha face e minha filha Marina, (7 anos) presente na roda, ficou chorando abalada e sem entender o que se passara com o pai.
A comunidade brasileira na Austrália (e a Capoeira) infelizmente foi "graduada" (batizada?!) neste dia com uma medalha (ou cordel?!) de vergonha.
Conforme as más línguas foi tudo "coisa armada" da parte de Edval para finalmente (e sem êxito) tentar provar quem é o bom na roda da Austrália. Que Capoeira boa pra defesa pessoal é essa que ele promove: bate e tira sangue em roda de apresentação ao público!! E eu que não aprovo esse tipo de jogo e atitude na Capoeira que promovo tinha que levar um susto na roda!! Infelizmente só deu pra demonstrar foi um grande excesso de burrice e arrogância da parte do Edval e seu grupo "Filhos Da Bahia".
O tiro saiu pela culatra!! Não corri da raia, como diriam outros, e respeitei a presença do povo presente sem revidar de pronto a "gentileza" oferecida: Amém!! Graduei minha arte na vida e jogo com a Capoeira na "Real" — dinheiro no bolso, respeito ao próximo e educação! E não costumo me rebaixar a esse nível de deslealdade na roda (falta de camaradagem) pra provar que sou um bom mandingueiro.
Pois é, o covarde do Amém partiu bem cedo (escapou?!) de volta aos EUA na segunda dia 20 de abril. Eu ainda estou checando a possibilidade de "jogar" na roda com um processo legal em cima dele ou do responsável (irresponsável) pela promoção desse evento de tão baixo teor cultural.
E como já estava programadovou seguir na sexta-feira próxima ao Canadá e atender ao convite para prestigiar o Batizado que o Marcos Barrão estará promovendo em Vancouver nos dias 24, 25 e 26 de abril.
Sigo depois para os EUA para ministrar alguns workshops em Iowa e San Diego. Que o meu olho arrebentado e agora costurado possa servir de exemplo de Protesto contra a violência que muitos covardes e incompetentes sem talento e com mentalidade provinciana (que se in-titulam "mestres" de Capoeira) ainda promovem pelo mundo afora.
Esta carta serve como uma nota de aviso aos que por acaso venham a ter nos seus Batizados e nas rodas de Capoeira gente de tão baixo calão espiritual e moral… sem talento ou responsabilidade para jogar com a verdadeira arte da Capoeira na roda da vida atual.
Fica portanto registrado mais uma vez o meu apelo de protesto contra essa onda de violência absurda e imoral nas nossas rodas e eventos de Capoeira. E agradeço a todos vocês pela divulgação desta nota nos vossos meios sociais, quilombos e perante suas famílias. Meu muito obrigado pela atenção prestada. Meu Axé a todos vocês.

JERÔNIMO SANTOS DA SILVA – http://www.users.bigpond.com/SS.Jeronimo/index.html 



O DIREITO DE BRINCAR

Ari Roizenblit

Eh dificl saber o que ? importante com relacao a capoeira. Eu sou  aluno do Paulo Gomes de Sao Paulo e ja presenciei muito desta violencia e ate mesmo participei. Mas desde que cheguei aqui em Sydney tenho visto a capoeira como veiculo para unir os brasileiros em torno de uma cultura alegre e  bonita, mostrando uma arte marcial alternativa. Esta forma de brincar de capoeira nos destaca de uma forma positiva como grupo de pessoas, principalmente com tantos grupos diferentes etnicos e de imigrantes. O mesmo nao ocorre em outras partes do globo onde existem grupos grandes de brasileiros, que sao mal vistos como grupo. A violencia na capoeira serve para nos colocar no mesmo saco que kickboxing e outros. Para quem gosta bom, eu mesmo ja fiz taekwendo, mas prefiro a capoeira pela ideia de fazer um jogo a dois, e nao uma ideia individualista de quebrar meu parceiro. Como ocorreu com o Jeronimo, eu tambem fui muito bem recebido em diversas rodas de capoeira na California e tambem pelo mestre King Kong em Salvador. Capoeira fechada, com respeito. Como o Jeronimo, entrei numa roda em Bondi Beach para brincar de capoeira e levei uma rasteira do Edval. Nos segundos que se passaram, muita coisa se passou pela minha cabeca. As antigas rodas de capoeira, salas do besouro que o Paulo Gomes usava para treino, todas as tecnicas sujas. Mas preferi honrar o espirito brincalhao da capoeira de praia e de publico. Cumprimentei o Edval e simplesmente me retirei de sua roda tao inamistosa.

Apoio o Jeronimo, principalmente na defesa do nosso direito de brincar.

Ari Roizenblit



SOBRE O MESTRE AMÉN

Subject: Violencia na Capoeira ??
Date: Fri, 8 May 1998 12:19:36 -0300
From: "piter" <mejohnny@mandic.com.br>
To: <adecan@e-net.com.br>
CC: <mejohnny@mandic.com.br>

Caro Mestre Decânio,
Primeiramente gostaria de parabeniza-lo pela exelente pagina sobre Capoeira na internet, uma das melhores que existem.
Lendo em sua página o artigo sobre a violencia, mas precisamente na carta do "Mestre" Jêronimo Santos da Silva, não o conheço, mas acho que ele se equivocou em escrever aquilo sobre o "Mestre" Amém, pois eu tive a oportunidade de conhece-lo e conviver com ele um ano e meio de minha vida na Capoeira chegando a participar de muitos batizados aonde haviam diversos Capoeiristas de várias partes do mundo e nunca sequer vi "Mestre" Amém entrar em atrito com ninguém. Veja bem não quero criar nenhuma polêmica mesmo porque sou uma
criança no mundo da Capoeira, mas acho que o "Mestre" Jeronimo poderia esclarecer melhor o fato ocorrido naquele dia, pois tenho certeza que o "Mestre" Amém não machucaria ninguém que JOGUE Capoeira com ele. Sem mais pelo momento, agradeço ao senhor pelo ótimo site que venho sempre buscar novas informações.

Um abraço,
Piter



TEMAS PARA MEDITAÇÃO

PALAVRAS DO MESTRE

A. A. Decanio Filho

TODOS OS MESTRES CANTAM
"Baraúna caiu!"
"Quanto mais eu!"
"Quanto mais eu!"

BIMBA, MEU MESTRE, BEM ME DIZIA
Negativa, rasteira e queda fazem parte do jogo de capoeira.
A negativa é o preparo para cair,
com segurança e elegância.
Capoeirista pode cair….
sem se machucar… como o gato!
sem sujar a roupa…
macio como flor de algodão! FEIO É CAIR DE BUNDA!



PRÁ BATÊ NOS OTARU!
(Para bater nos otários)

A. A. Decanio Filho

Bimba ao falar sobre a eficiência da regional sempre enfatizou o elemento surpresa como fator decisivo, evidenciado na sua expressão:

"A regioná num seuve pa brigá c’us companhêro…
é prá batê nos otaru!"
(A regional não serve para brigar com os companheiros… é para bater nos otários!)

POR QUE …
todos os capoeristas conhecem seus recursos e limitações, tão bem quanto as esquiva e defesas,
enquanto os que desconhecem a sua prática (os leigos ou otários) podem ser surpreendidos pelos seus movimentos!

A primeira parte da frase acentua a importância do companheirismo que deve existir entre seus alunos, mais evidente noutras recomendações corriqueiras no meu tempo:

"A luta regioná num seuve p’a brigá cum ôtru regioná1, é bom prús otáru…
cúns colega a gente joga regioná…"2
"A genti num deve lutá nu berimbau, deve jogá3!"

Obviamente Mestre Bimba não preconisava "lutas" entre os seus alunos, até para não afastar da academia os mais tímidos e assim perder a renda mensal……
O "esquenta-banho" servia para treinamento de defesa pessoal, de movimentos proibidos sob o ritmo de berimbau, para treinamento de manobras novas, como "tira-teima", drenagem da agressividade ou diferenças pessoais, logo arrefecidas pelo banho frio sob o jato d’água do cano do banheiro, especialmente quando alguém "entrava pelo cano" durante o "esquentamento"…

O Mestre jamais aceitaria a desunião e o enfrentamento dos irmãos,
que deveriam formar uma única família, a dos filhos de Bimba!

1 A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional.
2 Não devemos lutar no berimbau, devemos jogar!
3 A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional…



ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

A. A. Decanio Filho

O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da "regional", o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido, que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras.
A preocupação em soltar os golpes em detrimento das esquivas, do gingado e da sincronia com toque do berimbau, vem deturpando os fundamentos do jogo de capoeira e gerando um estilo violento e potencialmente muito perigoso para os seus praticantes.
Além dos acidentes de maior ou menor gravidade durante a prática da "regional", hoje infelizmente tão freqüentes, encontramos algumas falhas de caráter técnico associadas, que tentaremos enumerar e discutir.
O afastamento excessivo entre os pés, o movimento de balanceio maciço do tronco e fuga para traz, impedem a distribuição do peso do corpo entre os dois pontos de apoio, impedindo os giros de cintura nas esquivas e descidas defensivas durante o gingado.
A falta dos movimentos de esquiva para baixo, negativa e cocorinha, possibilita o emprego dos movimentos de ataque de contra-ataque de membros superiores (socos. galopantes, asfixiantes, bochechos, telefone, etc.), mais fáceis e mais violentos, porém contrários à natureza e aos princípios éticos da capoeira.
A violência é decorrente da falta do gingado, da atitude mental de ataque, subseqüentes ao ritmo excessivamente rápido dos toque de berimbau, levam a um jogo a extremamente agressivo, impedindo o floreio e as esquivas típicas da capoeira.
Dentre os movimentos de esquiva destacamos a falta da cocorinha, movimento muito apropriado para a prática da rasteira, outro elemento pouco encontradiço nos jogos atuais.
Um defeito que estamos observando na cocorinha é aquele do apoio nas pontas dos pés, em lugar do assentamento das suas plantas no solo, como recomendava Bimba, que além de melhor apoio, produz o alongamento dos músculos das panturrilhas, melhorando a flexibilidade dos movimentos e a agilidade.
Outro defeito é a queda para traz durante a cocorinha, em  "queda de quatro"   ou "movimento de aranha", sempre condenado pelo Mestre, que, além de tornar os deslocamentos e esquivas lentos, expõe o peito e ventre indefesos aos ataques mais violentos do parceiro.
A defesa por bloqueio, adquirida do karatê e jiujitsu, em lugar da defensiva por esquiva acompanhando a direção do ataque e proteção do alvo pela mão em movimento, enrijece o corpo, diminui a agilidade e propicia maior impacto ao receber o golpe traumático.
O afastamento excessivo entre os parceiros permite movimentos violentos, descontrolados, despropositados, inócuos por não poderem atingir o alvo dado o distanciamento, porém que ao alcançarem, acidentalmente, pontos vitais podem causar lesões graves ou morte.
Perdemos assim o carater festivo da capoeira antiga e evoluimos (?) para um estilo mórbido, capaz de gerar a morte de parceiros que deviam estar irmanados por um esporte tão belo e pacífico.
A propósito da prevenção dos acidentes e óbitos, devemos lembrar os conselhos encontrados em "A herança de Pastinha" que transcrevemos a seguir.

1.4.21 – "aprender municiosamente às regras da capoeira"

"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar municiosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,"… (8a,15-23;8a,20-23;8b,1-2)

Pastinha sabiamente reitera, é indispensável um código de honra a ser obedecido pelos capoeiristas!  "é o controle do jogo", pelo juiz, pelas regras, regulamentos e "pelo ritmo da orquestra", que evita a violência e os acidentes" .
Vale a repetição!

1.4.22 – "a capoeira vem amofinando-se"

… "e a capoeira vem amofinando-se quando no passado ela era violenta, muitos mestres, e outros nos chamavam atensão, quando não estava no ritimo, esplicava com decencia, e dava-nos educação dentro do esporte da capoeira, esta é arazão que todos que vieram do passado tem jogo de corpo e ritimo."… (9a,1-9)

Continua a insistência na presença dum juiz, árbitro ou mestre de cerimônia para acompanhar a evolução do jogo e advertir ou interromper a prática,  ante manobras proibidas, perigosas, desobediência ao ritmo do toque, cansaço do atleta, além de garantir a segurança física dos praticantes e da assistência e finalmente, assegurar a beleza do espetáculo!

1.422 – "todos os capoeiristas são maus?!

…"todos os capoeiristas são maus para seus camaradas? Mais não são todos, sim, no meu Centro tenho, e como conheço muitos que são educado; e não procura irritar ao companheiro: sim, é porque o mestre não interessa a irritação, e o procura o jeito que favoresse a prendizagem, o quer aprender rapido, e não tem enfluensia." (11b,6-13)

Na capoeira, como em todos os grupos sociais, encontramos os que semeiam a discórdia, a violência, alguns por falta de educação,  outros por doença mental   ou espiritual?! Coitados!

A maioria da juventude é sempre boa, generosa, não sofre as "influências" dos maus, disse o Mestre!

1.4.39 – "Não é permitido"

", por mestre nenhum, se ele mestre for conhecedor das regras da capoeira, não consentir jogar em roda, ou grupo sem fiscal, se não tem como pode ter controle, quem ajuda o campo? não pode entra em combate sem chegar sua vez. Todos os capoeiristas tem por dever obder <obedecer> as regras do seu esporte, cooperando para valorizar, porque, somos responsavel pelos erros, no causo de disputa, ou dezafio, procurar as autoridade é um juiz." (11b,13-23;12a,1)

A insistência do velho mestre na obediência aos regulamentos e regras, na submissão ao árbitrodurante o desenrolar do jogo, coibindo assim os abusos, frutos do entusiasmo, do calor da disputa, de diferenças pessoais, atinge aqui o seu ponto mais alto.

1.4.40 – "não dever ser aplicado"

"Não deve ser aplicado <movimento proibido> e nem forçar o seu companheiro para obter recursos <vantagens> é erros gravissimo, esta sujeito o fiscal suspender o jogo." (12a,1-4)

O reforço da autoridade do juiz, aqui chamado de "fiscal",   permite a interrupção do jogo para proteger a integridade física dos participantes. "é fau"!

1.4.41 – "É proibido no jogo"

…"É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional<aplicar, usar, empregar> golpes, ou truque, não por, é fau.Os golpes que não pode ser fonsionado em Demonstração; golpes de pescoço", dedo nos olhos," cabeçada solta," cabeçada presa," meia lua baixa," Balão a coitado," rabo de arraia," Tesoura fechada," chibata de clacanhar," chibata de peito de pé," meia lua virada," duas meia lua num lugar só," pulo mortal," virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura," Balão na boca da calça," golpes de joelho e nem truques." (12a,4-16)

Rol dos golpes proibidos, especialmente em demonstrações ou jogos públicos, pelo risco do entusiasmo dos oponentes  ou pela tradição.

2.4.42 – "é

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo." (12b,1-10)

Aparece aqui a única diferença entre os estilos de Bimba e Pastinha… Bimba ao criar um sistema de ensino da capoeira, instrumento de luta, abandonou a tradição de não usar golpes traumáticos de mão. Permissão estendida aos balões e projeções, bem aceitos, estimulados, pela difusão das técnica orientais no meio social em que pontificava.

1.4.31 -"para a valentia"

"Não queiram a prender a capoeira para valentia, mais sim, para a defeza de sua intregridade fisica, pois um dia, pode ter necessidade de usa-la para sua defeza. Cuja defeza é contra a qualquer agressor, que venha-lhe ao encontro com navalha, faca, foice e outras armas."  (10b,17-23)

A defesa pessoal resulta dos reflexos desenvolvidos ao longo dos treinamentos diários, depende de tempo e persistência… Como a sabedoria dos mais velhos,  escondida sob o manto dos cabelos brancos, surge, não se sabe donde, nem como,  e nos surpreende na hora certa!
Não se aprende com violência e descontrole… "a pressa é inimiga da perfeição!"

1.5.6 – "a capoeira está dividida e, trez parte"

"note bem, amigo… a capoeira está dividida em trez parte, a primeira é a comum, é esta que vêr ao publico, a segunda e a terceira, é rezervada no eu de quem aprendeu, e é rezervada com segredo, e depende de p tempo para aprender. a prova está no conhecimento da capoeira do passado, e do prezente, a do passado era violenta era violenta, para malandragem, e a de hoje, é como todos verem, rezevamos a mizeria, pela Democracia. nos queremos divirtimento. E tudo mas depende da raça, de quem aprende a capoeira; e a minha raça ja envelheceu, tambem sou tradicional, vivo na Historia da capoeira; e amo ela,"… (14b,8-23)

As três faces da capoeira. aqui referidas são

  • a manifestação exterior, o jogo, aparente, exposta a todos presentes, visível nos treinos – mesmo nos chamados "secretos", nas exibições, nas demonstrações. A parte física, corporal, material. "Yin", diriam os orientais!
  • as duas restantes são invisíveis, sutis, subjetivas, escondidas "no eu de quem aprendeu" "Yang" na linguagem oriental! O inconsciente e o subconsciente capoeirano! O  "istinto" nas palavras de Bimba! As partes secretas, " rezervadas", disse Pastinha.  E assim devem ser preservadas!

Uma é mais superficial, psicomotora, os reflexos de defesa,   a manha, a malícia. A outra é mais profunda, filosófica, mística,a modificação do modo de viver, "O Axé da Capoeira!", diria minha Ialorixá Konderenê! "Taoista!",   diria LaoTsé!

2.2.4 – "Destruir os falsos princípios

"Eu nada aceito, que me venha destruir a teorias arquitetadas, é dever destruir os falsos principios que não constituiram ensinamento: …"(69a,6-10)

Sábia advertência aos que procuram inovar sem respeitar as tradições, sem conhecer a razão dos rituais, sem conhecer a cultura dos povos que trouxeram os fundamentos musicais  e místicos da capoeira!
É indispensável estudar a evolução da capoeira, desde as tradições orais africanas, preservadas em nossa cultura pelos seus descendentes até nossos dias, para resguardar o seu precioso valor!

2.2.5 – "procure os bons mestres"

"Todo ser sabio, procure os bons mestres, e va igualar a esse, porque não é aprendiz dos falso ensino; nào possuem em compensação a vaidade, nem orgulho, porque tudo que ele ensina; não é errado: eles tem experiença, e esta observando." (69a,13-17)

Procurar bons mestres para não aprender falsos princípios, nem servir de pasto ao orgulho e à vaidade dos falsos mestres!
Sábias palavras! Capazes de impedir o retorno à barbaria do circo romano, dando a volta por cima do mundo que Deus quis fosse belo e amoroso, diria nosso Mestre Pastinha.
"Eu tirei a capoeira de baixo da pata do boi e vocês estão jogando fora de novo! Não foi isso que eu criei e deixei de herança para vocês!" exclamaria nosso Mestre Bimba, triste e inconformado!



A RASTEIRA NA CAPOEIRA

Lúcia Palmares – Paris/França

Ultimamente, na capoeira no São Paulo e ainda mais na Europa, lamento a quase-disaparição da rasteira. A rasteira foi um símbolo de perícia dos capoeiristas.Era motivo de horas de treinamento na academia. Para conseguir o sucesso de colocar uma rasteira certeira, os capoeiristas trabalhavam o parceiro; existia o floreio, a ginga, as "enganações" que fazem parte da capoeira. Não devemos deixar sumir coisa tão importante da capoeira.
Lembro de um caso que demonstra como considerada era a rasteira, no tempo ainda recente que eu treinava na academia de Mestre Nô.
Um certo aluno, formado depois de anos de aprendizagem, considerou que, com a sua forma física e sua experiência, superava o seu mestre. Desafiou o mestre Nô num sábado a frente de todos os alunos e de diversas visitas. Nô foi para a roda, dizendo que se perdia, ia embora, deixando o aluno senhor da academia. Começou o jogo, num compasso médio, sem cantiga, e demorou bastante tempo. Havia muita tensão; quem tocava, tocava, os demais permaneciam silenciosos.
Havia momentos de superioridade de um sobre outro, e depois virava a vantagem. Nô cozinhou o aluno até dar uma rasteira fantástica que pegou nas duas pernas e mandou o aluno com as nádegas no chão. O aluno com raiva tentou partir para murros, mas os outros impediram. Ele, no final, ficou tão desgostoso que abandonou a capoeira.
É um caso entre muitos que eu vi, que dá para comprovar a importância simbólica da rasteira na capoeira.
Quem não lembra do talento do mestre Canjiquinha, de Um-por-Um (da Massaranduba), de Marcos "Alabama", na rasteira?
Nos batizados, a conclusão do jogo do novato era a derrubada com rasteira, excluindo outras formas de desequilibrantes.
Hoje vemos capoeiras que se dizem excepcionais não conseguirem dar uma rasteira nos alunos que se batizam. Vemos as intimidações dos capoeiras aos novatos, e golpes traumatizantes e balões efetuados sem técnica para derrubá-los. É lamentável ver que a nova geração de capoeiras tem elementos que não se orgulham numa técnica, e ficam tão inseguros na sua arte, que não abrem o jogo (mesmo que fosse no intuito de derrubar) para principiantes de uns meses de treinamento. Quem está assistindo de longe, vê as oportunidades que eles tem de fazer. Eles não o fazem, preferindo os movimentos violentos, para tristeza dos presentes, sejam eles alunos, parentes ou espectadores que conhecem a arte.
Parece, então, que a rasteira saiu do cardápio de muitos capoeiristas. Por que?
Será que novos métodos de treinamento excluíram a rasteira? Será que não faz parte da capoeira moderna? Será que a rasteira exige demais destes novos donos da capoeira? A rasteira pede muita consciência do outro. Assim que já notei, é preciso trabalhar, cozinhar bastante o oponente para que este se jogue num golpe decisivo… que acaba na própria derrubada. É o parecer de um mestre; mas precisa de cabeça, e de tempo.
Os jogos que assistimos tem por objetivo principal de mostrar movimentos. Sejam agressivos ou acrobáticos, não importa, os movimentos superam na mente dos jogadores a tática, a perícia na arte de manobrar o outro.
Em geral, concordamos com os que acham, como mestre Decanio, que o compasso rápido demais e a vontade de se impor num "vale tudo" prejudicam o jogo da capoeira, tirando a ginga, a rasteira, tudo que faz a beleza da nossa arte.
Se, como suponho, a capoeira da Bahia tem alguma coisa para ensinar ao mundo, (em prática para os nossos alunos europeus), é justamente esta coisa original. Por isso, não podemos aceitar ver um elemento fundamental como a rasteira desprezado.
Por isso, desenvolvemos um trabalho básico com nossos alunos, sejam homens ou mulheres, fracos ou fortes, novos ou velhos, no sentido de uma capoeira que se importa com o outro, parceiro e adversário no mesmo tempo.

NOTA: Lúcia Palmares é enfermeira, baiana, nascida em Salvador em 15/5/1955. Foi aluna de capoeira de Norival Moreira de Oliveira, o Mestre Nô, na academia Orixás da Bahia na Massaranduba, a partir de 1971 e recebeu o cordão de professor em 1979. Ensinou na academia Centro Suburbano de Capoeira (rua 2 de Julho, 19, Alto de Coutos) do Mestre Dinelson, de 1980 a 1990. Em 1987 recebeu o cordel de Contra-Mestre entregue pelo Mestre Nô. Em 1992 saiu de Salvador, foi para Santos (SP) continuou ensinando a capoeira trabalhando numa ONG. Em 1995 se mudou para a França. Hoje está começando novo grupo em Paris e pesquisando os aspectos culturais da capoeira. Poderá ser contatada pelo e-mail: polbrian@worldnet.fr



TREINAMENTO ESPECIAL DE RASTEIRA

A. A. Decanio Filho

  • Importância da posição inicial
    Da postura inicial do atacante dependerão principalmente a potência e a velocidade do movimento ou seja o desequilíbrio e a impulsão transmitidos ao objetivo deste movimento. Além do que o desenvolvimento ou a forma de aplicação da rasteira modificar-se-á consoante a postura inicial do seu executante, independentemente da oportunidade de aplicação e da posição do alvo.
  • Posições iniciais
    A rasteira poderá ser aplicada a partir de postura alta ou ortostática, baixa (com ou sem apoio de membro superior no solo) e em grau variável de agachamento.
    O uso mais generalizado é a partir duma postura semi-agachada, durante um esquiva descendente.
    O seu emprego em ortóstase, embora tecnicamente mais difícil, é muito rápido, seguro, eficiente, inesperado e de certo modo, mais potente; com a vantagem de preparar o praticante para o uso da dourada e das bandas (de frente e traçada).
  • O gancho do pé
    A posição do pé é em forma de gancho em torno do ponto de aplicação da rasteira (colocar fotografia em vários ângulos)
  • A flexão do joelho
    O joelho
    semifletido aumenta muito a eficiência do golpe, possibilitando o uso simultâneo da musculatura da perna do atacante, auxiliando o deslocamento do da base de apoio do adversário para diante e provocando seu desequilíbrio para trás, enquanto reduz o percurso do movimento do autor.
  • O calço da perna na rasteira em ortóstase
    Durante a aplicação da rasteira em pé (ortóstase), a flexão dorsal do pé em gancho com flexão simultânea do joelho, encosta a porção distal (a mais baixa) da perna do atacante naquela do atacado trava seus movimentos de fuga, enquanto assegura um contato mais firme do pé atacante com seu alvo.
  • Exercício de rasteira em tração de alça de borracha
    A tração, na direção do movimento da rasteira, duma alça de borracha de soro com cerca 0,8 M de extensão, enlaçada no tornozelo do treinando, desenvolve toda a musculatura empregada neste golpe e obriga o praticante a usar todo o corpo nesta impulsão. (Usar fotografia esclarecedora)
  • Rasteira em cepo
    Um pequeno cepo, confeccionado com tronco de madeira pesada, cerca de 0,30 M de diâmetro, com superfícies de corte paralelas, fica suficientemente pesado e equilibrado para ser arrastado com algum esforço num movimento de rasteira para desenvolver a potência muscular e o jeito indispensáveis a execução duma rasteira eficiente. Com a evolução da força e eficiência do praticante o peso e as dimensões deverão variar proporcionalmente.

Rasteira em parceiro sustentado

Um companheiro bem pesado e bem apoiado no solo com as pernas entreabertas, sustentado por trás e pelas axilas por um outro colega, deve ser arrastado e levantado pela rasteira.

Este mesmo método pode ser usado para aperfeiçoamento da "banda-traçada", da "dourada" e da "vingativa de laço", magistralmente praticadas pelo Dr. Cisnando.
Como alternativa podemos usar uma trave de madeira ou ferro, ou ainda uma corda grossa com nós para facilitar a pegada, em o parceiro se segura com as mãos para evitar a queda.
De modo semelhante podemos pendurar um saco forte, com cerca de 1 M de altura, cheio de areia, apoiado pelo fundo no chão para que seja deslocado com a rasteira, dourada, vingativa, banda-de costa ou banda traçada.

Rasteira em parceiro em guarda alta

Em qualquer oportunidade adequada, desde que haja tempo para a aplicação deste golpe desequilibrante, a rasteira poderá ser praticada.
Aqueles que desejarem se aperfeiçoar neste movimento podem fazer treinamento especial em um dos parceiros se abrigue a apenas a esquiva e aplicar rasteiras, enquanto o seu companheiro aplica os golpes que quiser.
Treinamento que deverá ser reservado aos formados de melhor desenvolvimento técnico.

Rasteira em armada solta

Um dos parceiros vai aplicando as armadas soltas enquanto o outro procura derruba-lo com rasteiras, sempre se esquivando em descenso na direção do golpe atacante.
Inicialmente os ataques devem ser mais lentos para desenvolver o golpe de vista, porém a velocidade deverá aumentar progressivamente consoante o grau de aprendizado dos participantes.
Num tempo mais avançado o treino da aplicação da rasteira deverá ser feito durante uma volta comum em que os parceiros jogam sem acerto prévio, procurando cada qual aproveitar a oportunidade de usar a rasteira durante a defesa duma armada solta aplicada por qualquer um dos dois.

  • Rasteira em meia-lua de frente
    O treinamento da rasteira durante a esquiva em defesa duma meia-lua de frente fez parte do treinamento avançado dos capoeiristas do meu tempo.
    É uma manobra muito boa em defesa pessoal, sobretudo porque o aplicador da mlf é pego de surpresa e perde a moral. Poderá ser praticada em parceiro bem treinado em cair sem se machucar ou sustentado por um ou dois companheiros para evitar a queda.
  • Rasteira em queixada
    As anotações anteriores são extensivas a este tópico.
  • Rasteira em martelo
    Todos os comentários a propósito da rasteira em mlf são adequados ao seu treinamento em defesa de martelo, sobretudo porque o atacante com martelo certamente cairá muito mal, dada a natureza deste golpe. Sua aplicação na prática exige muito velocidade portanto um treinamento prolongado. Evidentemente a esquiva descendente deverá ser feita na direção do golpe atacante, com muita velocidade, procurando se aproximar do atacante e sob proteção do membro superior (como na descida em cocorinha) para evitar o perigo do martelo atingir a cabeça do defensor.
  • Rasteira em galopante, asfixiante, "jab" e soco direto
    Da leitura dos tópicos anterior conclui-se facilmente a aplicação dos métodos enunciados aos ataque com os membros superiores.
  • importante é a repetição iterativa inicial, seguida dum treinamento mais avançado em que um dos parceiros desempenha o papel de agressor enquanto o outro apenas se defende e contra-ataca, para alcançar o estágio final em que ataque e defesa são improvisos.

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