Category Archives: Ética

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A ÉTICA NOS MANUSCRITOS DE PASTINHA


Mestre Pastinha deixou traçado nos seus manuscritos  o roteiro do código de conduta (ética) dos capoeiristas de todas as  categoria (mestres, alunos e graduados).
As grandes preocupações do Venerando Mestre sempre foram o futuro da capoeira e os capoeiristas do futuro.
Talvez antevendo a transformação da capoeira-jogo num desporto pugilístico, em detrimento dos seus aspectos educacionais e lúdicos.
O  abandono do ritmo ijexá, majestoso, solene, gerador de movimentos elegantes e pacíficos, pelos toques rápidos e de caráter belicoso, é a base sobre a qual vem se desenvolvendo uma capoeira, mais preocupada em "soltar os golpes" que em se esquivar do movimentos de potencial agressivo, característica predominante entre os capoeiristas do passado aparentemente invisíveis e intangíveis como o vento (daí a lenda do desaparecimento sob forma de besouro, bananeira ou de simplesmente deixarem de ser vistos nos momentos de perigo) .
A influência da violência cada vez maior da sociedade moderna vem desviando a atenção dos verdadeiros fundamentos da capoeira, tornando-a em mais um fator de violência, sob o falso manto de defesa pessoal e de arte marcial, mero pugilato executado sob um fundo musica de caráter belicoso.
Mister se faz o retorno às origens, diria Frede Abreu, lembrando as  palavras singelas do nosso Mestre, no seu dialeto afro-baiano, um verdadeiro código de ética.
Seus conselho, guardados e obedecidos,  certamente tornariam desnecessária uma regulamentação ou codificação extensa e prolixa.


"Os mestre não pode ensinar com discortez nem de modo àgressivo, não . devemos procurar ficar isolados por que nada podemos fazer sem amôr ao esporte."
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7a, linhas 15-19)

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O egoismo, a agressividade, a deslealdade, o orgulho, a vaidade, os interesses mercenários, levam ao isolamente – reverso da esportividade.


"O bom capoeirista nunca se exalta procura sempre estar calmo para poder reflitir com percisão e acerto; não discute com seus camaradas ou alunos, não touma o jogo sem ser sua vez; para não aborrecer os companheiros e dai surgir uma rixa; ensinar aos seus alunos -sem procurar fazer exibição de modo agresivo nem apresentar-se de modo discortez…"
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7a, linhas 19-23)

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A calma é indispensável à reflexão, à correção dos movimentos, à adaptação do jogo entre os pares,  tornando o espetáculo mais belo e seguro. Todo capoeirista deve ser cortês, evitando aborrecer ou irritar seus companheiros, enquanto mantém sua própria tranqüilidade!
Decanio Filho – A herança de Pastinha, (pág. 24)


"…sem amôr a nossa causa que é a causa da moralisação e aperfeicoamento desta luta tão bela quanto util: à nossa educação fisica; …"
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7b, linhas 4-8)

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A prática da capoeira deve ser regida pelo amor a esta arte,  instrumento de educação e não de discórdia!


"… não devemos procurar ficar isolado, porque nada podemos fazer; é muito certo o trocado popular que diz: a união faz a força:…"
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7b, linhas 8-11)

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Só o respeito mútuo, a observação dos princípios básicos esportivos (lealdade, humildade e obediência as regras) e a conservação da camaradagem permitem a união indispenável ao progresso da capoeira!


"…o nosso ideal de uma capoeira perfeita escoimada de erros, duma raça forte e sadia que num futuro proximo daremos ao nosso amado Brasil."
Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág.7b, linhas 14-17)

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A prevenção dos erros por uma conduta educada, respeitosa, gentil, levará ao aprimoramento do nosso povo.



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CODIGO DE ETICA

ÉTICA DIDÁTICA

Aos professores é dado todo o direito de criarem os seus objetos/formas de ensino da capoeira, de acordo com suas condições, locais de trabalho, características, idades dos alunos, ambiente social e outros fatores que o auxiliem ou limitem no exercício do ensino da capoeira.
Todo professor tem a obrigação de manifestar e fazer compreender aos seus alunos os princípios da capoeira, sua identidade, origem, grandes nomes dos seus precursores, etc; de forma implícita ou explícita, dependendo das faixas etárias e outros fatores típicos de cada turma/escola, bem como ensinar e respeitar os princípios deste Código.
A capoeira pode ser ensinada em qualquer local, desde que ofereça as condições de segurança e higiene aos seus praticantes.
Os professores, sempre que possível, devem exigir de seus alunos o uso de uniforme limpo e completo.
Nenhum professor deverá impor posturas rígidas aos adeptos da capoeira, sendo facultado aplicar-se regras de eficiência no desenvolvimento, na movimentação e no resultado final da aprendizagem da capoeira.
Os professores devem ter sempre em conta as limitações e potenciais de seus alunos, devendo procurar ensiná-los a explorarem seus recursos físicos e faculdades naturais.
A capoeira como arte nacional terá sempre sua vinculação às nossas tradições e história, sendo obrigação dos professores incentivarem nos alunos o hábito do estudo de nossa história e de nossas origens.
Nenhum professor de capoeira poderá fazer uso de técnicas ou recursos típicos de outros esportes dentro da aula a iniciantes de capoeira, ficando facultado o estudo de outras artes somente aos capoeiristas, alunos e professores, que já possuam a maturidade sufuciente para não misturar as características, regras e recursos de outros esportes à capoeira.
São considerados iniciantes, para esse entendimento os capoeiristas graduados até a corda verde-escuro da graduação da ABPC.
É obrigação dos professores, conhecerem, ensinarem e exigirem a relação entre os toques de berimbau e o tipo de jogo de capoeira.
Todo professor deve ensinar e dar exemplo de respeito aos mais antigos, tendo os mais velhos sempre a preferência nos jogos de capoeira, a seu critério.
É obrigação do professor desestimular os seus alunos de levarem ou trazerem comentários de natureza agressiva ou que estimule a rivalidade entre os grupos, sendo falta grave a troca de insultos entre professores particularmente na presença de alunos ou por intermédio desses.
Se ficar comprovado que algum professor estimulou ou estimula alunos seus a levarem ou trazerem insultos ou desagravos de qualquer natureza, a outros grupos ou colegas, o mesmo podera ser advertido ou mesmo punido pela representação da ABPC Regional do seu Estado ou Nacional.
O professor não deve jamais estimular seus alunos à violência de qualquer espécie, sendo passivo de punição e incompatibilização com a ABPC o professor que assim proceda e que fique comprovado.
É vedado aos professores utilizarem para seus interesses ou seus serviços – sem remuneração – os seus alunos de qualquer idade!
É vedado aos professores qualquer forma de agressão moral ou física aos seus alunos.
Será considerada falta grave o ato do professor que mantiver relações amorosas ou sexuais com seus alunos ou alunas menores de idade, particularmente no local de ensino da Capoeira.
A ABPC reconhecerá os professores auto-didatas desde que os mesmos respeitem e declarem aderir ao seus regulamentos e preceitos, e desde que sejam aceitos pelos representantes regionais da ABPC, na forma dos seus Estatutos ou regulamentos.

ETICA DESPORTIVA

A competição desportiva de capoeira se regerá por regulamentos amplamente debatidos pelos envolvidos e serà sempre feita em locais que permitam a assistência do público.
Independente da estrutura das competições de capoeira, as mesmas serão sempre conduzidas de forma a preservar seus valores tradicionais e princípios básicos.
A capoeira, quando em competição desportiva terá sempre como árbitros mestres e professores de reconhecida tradição e notoriedade no meio capoeirístico local, regional e nacional, conforme a competição.
É obrigação dos professores ensinarem seus alunos a, quando em competições desportivas, terem sempre em mente a preservação física e moral dos adversários, devendo ainda criar e estimular todas as condições de fraternidade e de alto espírito comunitário do esporte.
Todos os professores tem a obrigação de prepararem seus alunos tanto para a vitória quanto para a derrota, e a terem sempre em conta a respeitabilidade mútua com os seus adversários.
Nenhuma competição de capoeira deve ser feita retirando-lhe as características fundamentais ou que exponha a regras estranhas os seus praticantes. Fazem parte das características fundamentais da capoeira, particularmente sua música, instrumentos e ou outros princípios, citados no presente, nos Estatutos da ABPC e outros, do conhecimento e consagrados pelos capoeiristas e mestres.

ÉTICA MARCIAL

A capoeira reune todas as possibilidades de uma arte-marcial. É considerada marcial toda a arte de guerra – a palavra vem de Marte – o Deus da guerra, entre os romamos.
Podendo ser armadas ou desarmadas, as artes marciais mais conhecidas não incluem a capoeira, isso porque o seu poder combativo não é de dominio público. No entanto, a ABPC reconhece essa parte da capoeira e recomenda aos seus afiliados que procurem praticar e demonstrar sempre que possível os recursos de luta da capoeira ao público, para ampliar o seu respeito e o nùmero de adeptos, evitando-se, no entanto;

  • expor gratuitamente todo o seu potencial combativo e com isso empobrecer o elemento mais importante que a compõe numa luta, a surpresa! É dever portanto, dos capoeiristas preservarem os recursos combativos da capoeira evitando-se que os mesmos lhes sejam roubados ou assimilados gratuitamente por outras modalidades.
  • não se recomenda também aos associados participarem de combates para fins exclusivamente comerciais ou financeiros;
  • não deve haver participação de menores de idade em confrontos marciais;
  • não se recomenda a participação de combates que não tenham como base regras de preservação moral e física dos contendores;
  • não devem os capoeiristas, em hipòtese alguma, transferir para a capoeira a responsabilidade por sua derrota, uma vez que o derrotado é o lutador e não a arte. Ninguém reúne condições de representar a totalidade dos recursos da capoeira, portanto, se alguém é derrotado, essa derrota não será atribuída à capoeira! É responsabilidade dos capoeiristas assumirem esse princípio antes ou depois dos combates que participarem.

ÉTICA MORAL E SOCIAL

A capoeira tem sua origem na luta pela igualdade entre os homens e porisso ela precisa ter preservada a convivência solidária e democrática dos seus adeptos à sociedade como um todo e aos camaradas de arte em particular.
É obrigação moral dos professores de capoeira se distinguirem como cidadãos de bem. Por isso é esperado que eles se destaquem:

  • por jamais expor um semelhante a qualquer forma de humilhação (a não ser em defesa de  sua própria integridade ou de outrem, em situação de inferioridade);
  • por defender sempre o mais fraco;
  • por respeitar as pessoas de mais idade; as mulheres e as crianças;
  • por estar sempre dentro da lei;
  • por defender a democracia e a liberdade;
  • por jamais perder o auto-controle;
  • por respeitar os adversários;
  • por defender os principios nacionais, a língua e os demais fundamentos da capoeira;
  • por honrar os mestres e professores;
  • por preservar sempre a integridade física e moral de seus adversários;
  • por não discriminar qualquer pessoas por credo, raça, cor, nível social, etc;
  • pela sua auto-disciplina e consciência moral;
  • por jamais cometer qualquer forma de covardia;
  • por defender a capoeira além dos seus próprios interesses pessoais;
  • por não utilizar seus conhecimentos para autopromoção pessoal ou para levar vantagem sobre pessoas indefesas ou inocentes.

A IDENTIDADE CULTURAL DA CAPOEIRA

Ideal seria que nenhum capoeirista perguntasse por que a capoeira precisa de uma identidade. No entanto, é fato que parte deles perguntarão essa razão. Então, para exemplificar o sentido da identidade ao qual estamos nos referindo, lembramos:

  • o judô não permite chutes;
  • o boxe não usa dar tesoura;
  • o karatê não usa luvas;
  • a luta greco-romana veste calção como uniforme;
  • entre muitos outros exemplos que poderiam ser dados, e a capoeira?
    Bem, como exemplo, diríamos que a capoeira é jogada ao som da música do berimbau, que é seu instrumento básico… Mas isso é só um exemplo.

A idéia do presente código de ética é estabelecer outros parâmetros mais amplos para a capoeira.

A seguir são apresentadas algumas propostas para serem adotadas como princípios inseparáveis da identidade da capoeira:

A capoeira é sempre jogada: o jogo da capoeira assume diversas formas de manifestações, segundo o momento em que esteja ocorrendo, e pode ser:

  • Esporte: quando em competições para as quais sejam estabelecidas regras prévias tais como: tempo de duração, forma de pontuação, categorias de participantes, regras de estilo, número de jogos por fase, arbitragem, etc., e quando é estudado e desenvolvido com visão de desempenho físico-motor, tais como capacidade aeróbica, velocidade, explosão, elasticidade, etc.;
  • Vadiagem/Lazer: quando em manifestações espontâneas em locais públicos, ou particulares, sem regras prévias ou restrições, sem tempos determinados, sem responsável prévio, sem uniforme, etc;
  • Folclore/apresentação: quando em exibições de grupos especialmente preparadas para um momento específico, em palco ou outros ambientes próprios para isso, podendo ser usado esquemas combinados, movimentos de efeitos (esquetes), e nesses casos podem ser representados números de outras artes e folclores associados à capoeira. Nesse tipo de expressão da capoeira, são válidas as manifestações tradicionais da capoeira ao mesmo tempo em que, como folclore é de domínio público, por isso numa manifestação com essa conotação é livre a criação própria de cada grupo, ou mesmo comunidade. É obrigação dos professores de capoeira, quando organizarem ou participarem dessa forma de manifestação, informar ao público e autoridades presentes a natureza específica desse momento: a capoeira tem muitos outras facetas, que para serem exibidas são necessárias outras condições e regras;
    Espetáculo Plástico ou Coreográfico: quando seus movimentos forem adotados, combinados entre si, visando um efeito de dança ou coreografia, nesse contexto, a capoeira pode ser entendida como um espetáculo de dança capoeirística, onde a intenção maior é explorar os recursos de sua beleza plástica rítmica, sensualidade, etc.;
  • Jogo Marcial/Luta: quando em confronto marcial entre adeptos da capoeira ou de outras lutas, nesse caso deve haver a definição prévia das regras a serem respeitados, peso, pontuação, etc. bem como os critérios de vitória, quando se tratar de outras lutas. Esse tipo de manifestação não deverá ser de iniciativa das Entidades representativas da capoeira, sendo no entanto livre aos seus associados participarem quando assim o desejarem em eventos que não os da capoeira; respeitadas as regras éticas do presente código;
  • Jogo Psicológico/Mandinga: essa é a forma de manifestação mental da capoeira, que se baseia em confrontar ou examinar o conhecimento e o nível de experiência dos capoeiristas, através de recursos e argumentos de qualquer ordem, que permita a demonstração e a discussão dos aspectos relevantes da arte do jogo da capoeira. Sondar os sentimentos dos adversários; testar os seus reflexos mentais mais elevados e o conhecimento entre os capoeiristas. Essa forma de identidade é particularmente reconhecida pelos capoeiristas mais antigos, não tendo regras prévias, a mandinga também é admitida dentro do jogo físico, e se caracteriza por criar ilusões no adversário tais como: se machucar, estar com medo, ser mais fraco, não conseguir acertar, estar cansado, etc. Esse é o estágio mental da evolução do conhecimento do capoeirista, a fase mais elevada da arte da capoeira…

Além dessas formas de pratica da capoeira é também parte inalienável dessa arte a música, o berimbau, o pandeiro, as palmas e os seus cânticos particulares.

A capoeira deve ser jogada no espaço de um círculo ou semi-círculo, visando manter suas relações com os rituais tradicionais afro-brasileiros e também pelos aspectos de acústicas, de visibilidade e de participação coletiva na sua manifestação mais essencial e tìpica que é a roda de capoeira.
A capoeira é uma manifestação coletiva, devendo os praticantes desde cedo aprenderem que são parte importante da manifestação capoeirista e que são os responsáveis em promover a vibração necessária para que aconteça na sua plenitude.
A capoeira será sempre praticada na lingua brasileira, sendo obrigação dos capoeiristas impedirem qualquer mudança na nomenclatura dos golpes, seguências ou símbolos usados na prática da capoeira em outras línguas que não o Português/Brasileiro. Serão permitidas explicações e descriçào sobre os golpes e movimentos da capoeira em outras línguas desde que os seus nomes sejam sempre mantidos em português.
É permitido na capoeira o uso de cânticos em dialetos afro-brasileiros, devendo ser evitado recorrer-se aos pontos de umbanda, candomblé, e outros rituais religiosos na roda de capoeira.
A música da capoeira é própria, devendo os capoeiristas impedirem a introdução de outros estilos musicais e letras de músicas estranhas à capoeira nas rodas, ou em outras manifestações capoeirísticas.
A cor do uniforme oficial do capoeirista è branca, sendo vedado em competições oficiais a utilização de outras cores no uniforme do capoeirista independente da graduação. Detalhes de identificação serão admitidos desde que não comprometam o conjunto.
Em manifestações folclóricas ou plásticas são admitidos vestuários livres.
Fazem parte da essência capoeirística os costumes nacionais do Brasil, devendo ser sempre procuradas as origens de nossa terra para embasar as teorias e as práticas da capoeira. Nenhum capoeirista deve introduzir idéias ou símbolos na capoeira, alheias ao povo brasileiro, particularmente que alterem suas características primárias, como gestos, movimentos, atitudes, formas de relacionamento, música, cânticos, etc.
Será considerado persona non grata e traidor, o capoeirista que introduzir ou deixar introduzir valores estrangeiros à capoeira, de tal maneira que descaracterize sua identidade e sua nacionalidade.
São reconhecidos como estilos pela ABPC a capoeira Regional e a capoeira Angola.
Qualquer filiado à ABPC deverá respeitar a existência desses dois estilos.
Qualquer outro estilo terá que se fazer justificar e se fundamentar, em todos os aspectos para que possa ser considerado um novo estilo de capoeira.
Somente uma Convenção Nacional do ABPC pode aprovar um novo etilo de capoeira.

A capoeira Regional se caracteriza pela adoção dos princípios criados pelo seu fundador, Mestre Bimba, sendo dever de honra a vinculação da Regional ao seu precursor.
São princípios da capoeira Regional:

  • Os toques de berimbau da capoeira Regional;
  • As seguências didáticas do Mestre bimba (oito seguências do Mestre);
  • A cintura desprezada "Balão cinturado";
  • e outras características próprias da Regional, definidos por seus seguidores.

A capoeira Angola possui suas próprias tradições, devendo ser preservadas as suas características e princípios. A capoeira Angola se diferencia da Regional, basicamente por:

  • Seus toques tradicionais de berimbau;
  • As "chamadas" de Angola;
  • A origem de seus adeptos, o vínculo direto ou indireto com mestres Angoleiros;
  • entre outros aspectos, próprios do estilo, definidos pelos seguidores de Angola.

ESPIRITUALIDADE NA CAPOEIRA

A capoeira visa o crescimento espiritual do seu praticante…
Essa espiritualidade ocorre, em particular, quando o capoeirista atinge a maturidade do seu desenvolvimento. Porém, os professores devem motivar os seus alunos na intenção de buscar a sua realização espiritual.
Quando uma capoeirista consegue reconhecer as suas reais possibilidades e mesmo assim não as utiliza gratuitamente, ou quando ele evita revelar seus conhecimentos gratuitamente ou para se autopromover socialmente, está se desenvolvendo espiritualmente.
A capoeira é um caminho para os seus praticante se aperfeiçoarem como seres humanos, e atingirem a plenitude de sua cidadania e espiritualidade.
A música da capoeira deve ser entendida e manifestada como um transporte para os estágios mais elevados da consciência e através de sua prática e vivência o capoeirista deve buscar estabelecer conexão com as energias superiores da vida, com as mensagens dos capoeiristas nossos antepassados e com os mais elevados sentimentos humanos de solidariedade, de felicidade e de paz.
A capoeira é uma manifestação que deve atingir a alma humana no seu mais profundo entendimento, acima das sensações puramente físicas.
A saúde do corpo e a plenitude do espírito devem ser metas da prática da capoeira.
O capoieirista deve sempre buscar a superação de suas limitações e ansiedades e a capoeira deve ser uma forma de libertação para seus adeptos, seja dos vícios, dos medos, dos limites, ou de outras formas quaisquer de mediocridade humana.
É obrigação dos capoeiristas buscarem o seu crescimento interior. A possibilidade de crescimento interior è infinita!
A grande diversidade de entendimentos sobre a capoeira, associada à grande lacuna na sua organização e coordenação oficial, a tem transformado a cada dia num maior emaranhado de definições, tanto práticas quanto teóricas e sua divulgação, quanto maior, mais influências são acrescentadas, num sem-número de inovações, seja de natureza didática, desportiva, marcial, espiritual e também, perigosamente, de identidade.
Num encontro realizado em Brasília-DF – na Universidade de Brasilia, em 1990 – o Doutor Milton Freire, conhecido na capoeira como Mestre Onça-Tigre, descedente de Mestre Bimba, falou sobre a versatilidade da Capoeira e de como o Mestre Bimba, o criador da Regional foi revolucionário por recriar e redefinir a capoeira.
De certa forma o Mestre Onça-Tigre deu uma rasteira nos capoeiristas fiéis a uma capoeira padronizada e definitiva, ao afirmar que a "capoeira é dialética", quer dizer, a capoeira se ajusta à realidade onde ela é aplicada ou praticada… Ela se funde com o ambiente em sua volta. Daí surgem inúmeras e infinitas formas de treinamento e entendimento, além de símbolos os mais diversos, associados à capoeira. Todos, em princípio, partes da capoeira.
É lógico que não se está defendendo qualquer coisa como sendo capoeira, ou pelo menos não achamos que tudo possa ser entendido como a capoeira regional baiana, ou a capoeira angola…
Nesse ponto é que começamos a falar da nossa questão básica, ou seja, as definições e fundamentos da capoeira: a CAPOEIRA REGIONAL e a CAPOEIRA ANGOLA…
Essa discussão carece de um ponto de partida, um ponto de apoio teórico e uma convenção em que se basear. Nesse sentido é que surge a ABPC e é essa a sua principal tarefa: criar um fundamento comum na prática da capoeira; organizar e divulgar uma abordagem profissional dentro da militância capoeirística e com isso, ocupar um importante espaço de integração dos capoeiristas, seja a nível de seus valores tradicionais, preservando-os, seja a fim de permitir sua evolução dentro de uma espectativa moderna e ao mesmo tempo fiel a seus princípios éticos.
Essa é a principal questão do presente trabalho: fornecer uma abordagem ética à discussão e difusão da capoeira, à sua prática e à sua teoria… E é essa a nossa intenção!

POR QUE É NECESSARIA A ÉTICA?

Numa referência bastante superficial sobre a ética, encontramos as seguintes definições básicas:

ETHOS Palavra grega de onde provém a ética, que significa forma de comportamento social de um indivíduo ou grupo humano (roupas, atitudes, cultura) indicadora de que seu portador faz parte de determinada classe social ou grupo étnico.
ÉTICA – parte da filosofia que aborda os problemas da moral.

Existem muitas outras definições a respeito da ética, mas só nos interessa uma explicação mínima, visando justificar essa discussão. Pois, afinal,se considerarmos válida a questão do comportamento dos capoeiristas ou dos professores de capoeira, então a ética já está presente em nosso pensamento; Ou seja, mesmo sem ter a idéia clara da ética, já discutimos isso o tempo todo, quando julgamos as atitudes ou as idéias sobre a capoeira, sejam as nossas ou de outras pessoas…
Outro aspecto que é preciso ficar claro é que não existe a intenção de sugerir uma postura adocicada ou de "bom-moço" para os capoeiristas ou professores de capoeira. A meta é discutir aspectos viáveis e estabelecer fronteiras, dentro do que a capoeira possa ser reconhecida e compartilhada…
Ou seja, aqueles que tiverem uma versão individual da capoeira, e que entendam ser a verdade definitiva, estará absolutamente livre para adotá-la e defendê-la, restando apenas aos que se preocupam com ela dentro de um contexto cooperativo e profissional mais amplo; sua prática num processo sócio-desportivo e outras formas de sua manifestação coletiva e moralmente aceitas é que precisam se deter nessa questão.
A capoeira é de domínio público, enquanto manifestação folclórica e assim terá sempre o direito de ser livremente manifestada. Esse, aliás, pode ser considerado o código zero da capoeira: ela é a livre manifestaçã cultural do povo brasileiro e porisso é reservado aos cidadãos brasileiros o direito de praticá-la livremente.
Nossa preocupação é quanto aos professores adeptos à Associação Brasileira de Professores de Capoeira – é no sentido de dar-lhes uma base de identificação com sua Entidade, é com uma abordagem que envolva os profissionais da capoeira.
Por outro lado, como nos demais princìpios adotados pela ABPC, o presente regulamento é de livre adoção em quaisquer outras correntes capoeirísticas independentes. Quanto à isso, apenas pedimos que, caso os conceitos e entendimentos aqui formulados venham a ser utilizados, seja mencionado que se trata de bibliografia destinada aos adeptos e filiados à ABPC, bem como o autor. (Essa ética – do direito autoral -, não pertence à capoeira. É bem anterior).

COMO APLICAR A ÉTICA?
PARA QUE SERVE?

Hoje em dia a quantidade de informações que chegam às pessoas é bastante grande. Mesmo sem perceber – e aí está o maior problema – recebemos uma carga de influências as mais diversas, vindas de todas as fontes: televisão, cinema, rádio, shows, conversas com pessoas de diferentes formações, leituras de jornais, livros, etc… Tudo isso nos influencia em menor ou maior grau, sendo que nossa mente trabalho o tempo inteiro fazendo associações, e tudo o que tem a ver com nossa vida em particular, É mais assimilado, e fica mais forte no nosso subconsciente.
Assim, está mais do que claro que a força dos meios de comunicações interfere em nossa formação e posicionamento. Por exemplo, podemos citar a importância das olimpíadas na capoeira, particularmente da ginástica de solo. E a grande maioria que recebe essa influência desconhece a fonte original do estímulo, e é mesmo capaz de jurar confiante que aprendeu ou viu uma seqüência de saltos mortais, seguidos de flip-flap, swapt e outros movimentos acrobàticos numa roda de capoeira!
Absurdos à parte, falta muitas vezes uma base de sustentação ideológica que garanta a identidade do esporte/arte que praticamos. Ou melhor, falta uma definição própria do que seja admitido ou nào na capoeira – embora muitos livros tenham sido escritos, de grande valor, sem dúvida, mas essa questão da identidade por exemplo não temos tido muitos trabalhos a respeito, havendo mais preocupação com a tècnica e a història da capoeira..
Assim, em cima da pergunta formulada, precisamos definir de antemão algumas utilidades práticas de um código de ética:

  1. Para a definição uma política de relacionamento e convívio;
  2. para a orientação de caminhos para os filiados da ABPC, que compartilham dos princípios aqui adotados e com essa ética definida fica fácil se conhecer a priori (antes) quais as exigências para se ser um associado;
  3. para fazer com que a capoeira possa servir de estratégia de vida, já que seu aprendizado, visto na sua plenitude é um modo de viver. Algo bem maior do que uma simples regra de jogo, a capoeira deve permitir ao seu praticante a sua realização pessoal e cidadania plena, uma condição profissional até, se assim o desejar;
  4. impedir a introdução de preconceitos à capoeira e com isso garantir a sua democratização sempre;
  5. impedir a introdução de influências capazes de deturpar a teoria e a prática da capoeira, tirando-lhe sua identidade cultural e substituindo seus fundamentos e princípios básicos;
  6. como guia de ensino aos professores e novos alunos, os quais saberão preservar as tradições e ensinamentos da capoeira, permitindo sua criatividade mas garantindo suas origens, princìpios e suas tradições;
  7. para criar um instrumento capaz de demonstrar, de forma organizada e acessível, a amplitude da arte da capoeira e com isso poder divulgar os seus recursos ao público, aos órgãos públicos e também para os estudiosos, que queiram entender e pesquisar a capoeira.

 

Reginaldo da Silveira Costa "Squisito"
Conversão da linguagem original para HTML por Decanio Filho


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ÉTICA NA CAPOEIRA

Nota : (A.A. Decanio Filho) Transcrição do trecho pertinente à elaboração do CE da ABPC
Os interessando poderão encontrar o texto integral no Boletim Virtual

V – O QUE É ÉTICA ?

A Ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento. Entretanto, ainda nos é obscuro o comportamento de antigas civilizações, assim como seus conceitos de bem, valor, liberdade, Lei e outros.
O processo de desenvolvimento das civilizações trouxeram muitas mudanças nos conceitos éticos aplicados à sociedade; com isso "não são apenas os costumes que variam, mais também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria de um povo a outro.
Os ideais éticos variam muito, podemos ver no transcorrer da história. Para alguns gregos o "ideal  estava na busca teórica e prática da idéia do bem ou   estava na felicidade- entendida como uma vida bem ordenada, uma vida virtuosa, onde as capacidades superiores do homem tivessem a preferência". Para os cristãos o homem viveria para servir a Deus, diretamente, e em seus irmãos; já no período renascentista ou iluminista, ou seja, entre o Século XV e XVIII os burgueses tinham como ideal de uma vida ética "viver de acordo com a própria liberdade pessoal e em termos sociais, o grande lema foi o dos franceses: liberdade, igualdade e fraternidade".
Atualmente, o sistema capitalista é um fator influenciador da ética social, enquanto os pensadores de existência insistem em ter a liberdade como um ideal ético "em termos que privilegiam o aspecto pessoal ou personalista da ética: autenticidade, opção, resoluteza, cuidado etc", e que a maioria dos países ricos buscam a ética do prazer, muitas vezes sem moderação, o mesmo capitalismo reduziu-se à posse material de bens, ou à propriedade do capital".
No entanto este comportamento ético hoje, talvez não vigore como deveria pois há uma forte influência dos meios de comunicação de massa, dos aparatos econômicos, do Estado e das ideologias que nem sempre são de maioria, fazendo com que não haja cidadãos conscientes, e homens livres de pensar e agir. Suas atitudes tornam-se restritas ou impostas por quem detêm o poder; não há um desenvolvimento crítico. O comportamento ético é manipulado na maioria das vezes por termos cidadãos incapazes de julgar e participar conscientemente.
Com isso os maiores problemas éticos de hoje, são em torno da eticidade, ou seja, família, sociedade civil e Estado-a ética não pode ignorar esses fatores.
No contexto da família, podemos verificar que "as transformações histórico-sociais exigem hoje, éticas  sobre o relacionamento dos pais com os filhos" e isso se dá com a forte influência dos meios de comunicação e, também, o desenvolvimento da mulher na sociedade, assim como outros grupos oprimidos e isso exige uma reformulação ética diante da sociedade de hoje.
A questão ética em relação a sociedade civil não engloba somente a consciência e o comportamento de cada indivíduo; ela está relacionada com o julgamento do sistema econômico e social como um todo.
"Em relação ao Estado, os problemas éticos são muito ricos e complexos", diante da desigualdade social onde quem detêm o poder é quem possui o saber e consequentemente "a liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um estado livre e de direito". As Leis, a Constituição, as declarações de direito, a definição dos poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais.

VI – ÉTICA NA CAPOEIRA

"A partir do momento que se corta as raízes como irá se perpetuar a espécie?" (Mestre Nô-ABCP-Ba).
O estudo da Ética na capoeira se faz necessário tendo-se em vista o propósito que a capoeira palmares vem implantando na Paraíba e no Brasil.
Partindo deste conceito de ética que diz "ser o estudo das ações ou dos costumes" e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento, podemos por meio de uma análise histórica e atual, fazer um estudo do contexto ético na capoeira.
O capoeirista, como sabemos, sempre foi alvo da marginalização, já que a capoeira foi crime previsto pelo Código Penal da República e seu simples exercício na rua davam até seis meses de prisão. Mas para fugir deste conceito o baiano Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mstre Bimba, inovou a capoeira e criou, também, um código de ética rígido que exigia até o ato da higiene pessoal.
Não só Bimba, mas os capoeiristas em geral que trabalharam para o crescimento e valorização dessa arte, sempre buscaram métodos eficazes para bem desenvolvê-la.
Um dos princípios fundamentais, em comum à capoeira Angola e Regional começa com quem joga. Este tem de cumprimentar o parceiro "ao pé do berimbau", quer dizer, agachados perto do instrumento que dará o ritmo dos golpes. Ambos devem estarem limpos, "devidamente trajados", e jamais sem camisa. Deve-se procurar a harmonia, na qual um movimento de defesa já é o começo de outro, de ataque, sem ferir o companheiro. Os oponentes não se atracam, mas lutam "por aproximação", respeitando a hora de entrar e sair da roda. E ninguém deve aprender capoeira para sair Batendo nos outros.
Já dizia o mestre Pastinha que "capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta". Com isso a tática do bom capoeirista sempre foi de se fazer de fraco diante do oponente, tornando em luta violenta no momento certo, mas perigosa sempre.
Com o passar dos anos a luta brasileira tornou-se umpouco mais "respeitada", foi reconhecida pelas autoridades e divulgada pelo mundo, em contrapartida, inova em sua expressão. Muitos grupos descaracterizaram a capoeira, desincorporando seu joga ou luta das raízes que até pouco tempo a classificava como uma manifestação folclórica. Mas todo este quadro deixou a capoeira numa situação de conflito sem igual: se mantida e ensinada apenas como manifestação cultural, sem nada acrescentar, provavelmente ela estagnará e não terá sua merecida difusão; se evoluir de maneira desenfreada poderá descaracterizar-se.
Ainda existem alguns mestres que ensinam a seus alunos a luta e impõem à disciplina, o seu ensinamento como uma manifestação de nossa cultura, mesmo assim, muitos adeptos da capoeira a buscam, apenas para cultuar a forma física ou porque é moda.
Eles esquecem, e creiamos nós que alguns mestres também, que "capoeira é um diálogo de corpos, "eu venço quando o meu parceiro não tem mais respostas para as minhas perguntas" (mestre Morais).
O resultado desta nova identidade da capoeira, desvirtuada de suas raízes, são os campeonatos e "vale-tudo". Eles provocam uma enorme evasão nas academias, pois acabam desistimulando o aluno que quer treinar e que busca, na luta brasileira resistência e luta. A capoeira é única, mas nestas competições ela perdeu o estilo da própria luta. A falta de metodologia de ensino e o desinteresse em
aperfeiçoar o conhecimento sobre a arte são os principais motivos apontados por professores e mestres do grupo Palmares. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Capoeira Palmares, mestre Nô, a "questão ética na capoeira está um self-service", onde cada um faz o que quer, deixando para trás toda cultura que a capoeira carrega.
Outro fator de peso no desenvolvimento da capoeira é a sua divulgação na mídia. Com isto ela recebeu novos adeptos, se apresentou aos desconhecidos e conquistou um pouco mais de respeito e confiança. Por outro lado, este crescimento desorganizou toda uma estrutura de trabalho, o que antes era voltado para a conscientização e preservação dos costumes, hoje é dirigido para performance e/ou vale-tudo. Mesmo com toda esta transformação, ainda não foi extinto pela sociedade o preconceito por aqueles que praticam capoeira. De acordo com o professor Henrique (kiluangi de Palmares) "nós podemos ter acesso à mídia, isso não é negativo; mas para conseguirmos tirar essa imagem marginal é preciso mostrar que a capoeira realmente mudou, que é uma arte unificada com as camadas sociais, que ela é uma arte do mundo e não de uma região, cidade ou bairro. E para isso, os professores, os instrutores os mestres, ambos tem que passar informações por meio de uma didática-metodologica-que busque disciplinar e formar seus alunos, sem perder o espaço na sociedade e nem enterrar esta cultura de mais de 300 anos".
O ingresso da capoeira nos jogos olímpicos é outra grande conquista, mas preocupa muito. Na pesquisa realizada com os mestres de capoeira tanto angola como regional, no 5?? batizado e troca de cordéis do Grupo Cultural de Capoeira Badauê de Palmares, em março de 1997, verificamos que todos os entrevistados estão a favor desse novo passo mas, ao mesmo tempo, preocupados com as regras que irão prevalecer e, principalmente, com a formação do capoeira. Muitos professores são contra e alegam que "a partir do momento que ela entra em competição, seus adeptos deixam de fazer a parte histórica e cultural da capoeira" para desenvolver o lado agressivo, o que poderá acarretar em "um companheiro querendo destruir o outro por causa de uma medalha", conforme afirmou o mestre Naldinho.
Após conquistar seu espaço e reconhecimento pela maior parte da sociedade brasileira, a capoeira atingiu uma das áreas fundamentais de necessidade humana e social-a educação. Ela faz parte do currículo em diversas escolas e universidades do país e do mundo. Este ponto é fundamental e gera muitos debates nos grupos, onde, ensinar capoeira é muito mais que fazer um aú ou dar uma chapa de angola. Os experientes professores e mestres acreditam que as escolas e universidades, ao selecionarem seus discentes, devem buscar nestes qualidade, orientação, metodologia, responsabilidade e fundamentos, pois estes são elementos fundamentais para que se ministre uma verdadeira aula de capoeira. Contudo, esperamos que esse novo contexto histórico-social seja analisado e direcionado para o cumprimento legítimo das atividades da capoeira e que seus adeptos saibam destinguir a ética da estética, assim como a responsabilidade de mais um modismo social. A ética se tornará real a partir do momento que os capoeiristas forem conscientes e empenhados na valorização e preservação dessa  arte que encanta o mundo inteiro.


Patricia Morais – João Pessoa/PB – Outubro/97


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A ÉTICA ACADEMIA DE MESTRE BIMBA

O componente ético dos ensinamento do Mestre  Bimba na sua "academia" estava implícito na sua pedagogia, exemplificado pelo seu comportamento e posteriormente, na decada de 50, por mim explicitado à guisa de "regulamento", divulgado em quadro na parede oposta a entrada do salão.
Havia  naquela época uma multiplicidade de conduta consoante os universos freqüentados pelos praticantes da regional: a) conduta dentro da academia e interpares; b) relacionamento com os grupamentos de capoeira não vinculados à "regional"; e finalmente, c) comportamento em contexto social  sem conexão com a capoeira, especialmente com a regional.
Não podemos estudar a ética do Mestre Bimba e dos seus primeiros seguidores, por ser esta um conjunto de regras de conduta num determinado  momento histórico e pertinente a um universo específico.
Assim teremos que considerar:

  • a ruptura do mundo da capoeira provocada pela eclosão da luta regional baiana, gerada com a pretensão inicial de ampliar a eficiência do jogo da capoeira em voga na época e portanto, com a necessidade de afirmação desta maior eficiência presumida ante os praticantes do jogo primevo;
  • a introdução da capoeira – u’a manifestação cultural africana, legalmente proscrita e socialmente discriminada ou seja, duma manifestação dum segmento social dominado, procedente duma categoria escravizada – diretamente no seio daqueles que se outorgavam o título de senhores da terra e portanto, num ambiente social hostil (classe dominante de raízes européias);
  • uma relativa discriminação entre os participantes do grupos diferenciados pela presença do trabalho de Bimba, i.e., os mestres da velha ordem (jogo de capoeira) e os representantes da nova ordem proposta pelo Bimba;
  • a natural pergunta – Por que Bimba e não eu?- implícita nas palavras e no comportamento dos  dos mestres excluídos da preferência dos recém-chegados ao universo da capoeira, do acesso à fonte de prestígio social e da nova e promissora fonte de renda. Interrogação que necessariamente conduzia ao ciúme, à inveja e ao despeito, com todas suas conseqüências malignas;
  • a necessidade política de manobras entre os obstáculo legais para alcançar a liberdade de prática e entre as malhas do preconceitos para granjear a simpatia dos mentores da juventude, donde proviam os novos alunos;
  • os temperamentos e níveis culturais de Bimba e dos seus primeiros alunos, componente do amálgama da "regional", fruto da miscigenação de componentes culturais africanos   a indígenas brasileiros e eurobrasilianos, que sem dúvida influenciaram as diretrizes técnicas e comportamentais da nova face da "brincadeira de pretos".

RELAÇÃO ENTRE MESTRE E ALUNOS

A figura carismática de Bimba se apresentava entre nós como a projeção da autoridade patriarcal e magistral, impondo respeito irrestrito e a imitação do seu comportamento viril, sem titubeios, nem dúvidas. Sua palavra era a lei e a verdade. A nossa verdade e paradigma a ser acompanhada durante toda uma vida, gravada na alma e no coração ao fogo e ferro  duma veneração ilimitada, persistindo no meu caso há mais de 60 anos!

RELAÇÃO INTERPARES

A relação entre os componentes da nossa academia seguia o modelo ético e a etiqueta africana.
Cumpre acentuar que,  sem o conhecimento destes padrões comportamentais africanos não se pode compreender  o sentido de suas regras e suas conotações éticas. Impõem-se como fundamentais o estudo e conhecimento do cosmogonia, da cosmogenia, da filosofia e da lógica africanas, bem como do escravismo como fator econômico no ciclo de conquistas e dominação do mundo pela cultura européia.
A capoeira moderna vem afastando de suas raízes africanas pela europeização dos seus cantos, musicas, ritmos, rituais e técnicas.  Impõe-se assim o retornos à fonte original para coletar os fundamentos mais límpidos dos componentes culturais. Única maneira de  obter os conhecimentos indispensáveis à elaboração do código de ética,  contra-balançando  a contaminação pela violência decorrente do colonialismo europeizante e da pretensa superioridade cultura dominante.
O respeito ao "mais velho", fonte de aprendizado pelos "papos" e  demonstrações práticas, detentor de conhecimentos e habilidades desconhecidas pelo "mais novo", era imposto pela tradição e pelo reconhecimento tácito da superioridade.

O respeito pelo companheiro era imposto,
pelo desconhecimento da sua capacidade atual e pela regras…
"Confiar sempre no parceiro…
desconfiando do que ele possa fazer!"
"O parceiro é como o espelho, reflete a sua conduta…
não bata,  para  não apanhar!"
"Quem bate sempre esquece…
quem apanha sempre se lembra e espera…
um dia vai desforrar!"

RELAÇÃO COM CAPOEIRISTAS DOUTROS GRUPOS

A convicção profundamente enraizada da superioridade técnicas da regional sobre o jogo de capoeira tradicional , aliada ao ânimo belicoso dos alunos, a necessidade de auto-afirmação, a pretensa superioridade cultural da classe dominante ( donde provinham os "acadêmicos"), a humildade dos praticantes do jogo tradicional e o receio das conseqüências legais do enfrentamento individual do popular com o dominante, perturbavam sobremodo as relações amistosas entre o "clássico" ( a capoeira tradicional ou popular)  e o "moderno" (a "luta" regional do Mestre Bimba) acarretando o óbvio: um agastamento de ambas as partes.
Acentuavam a divergência e insuflavam o enfrentamento , a diferença de ritual e o andamento dos toques, desde que no estilo de Bimba era permitido e recomendado, o uso dos membros superiores no floreio e no ataque, enquanto o ijexá era acelerado em decorrência das características pessoais do nosso Mestre e dos seus seguidores, belicosos e apressados.
Ressalvando-se o comportamento daqueles  provenientes das classes populares, entre os quais eu me incluía, que se harmonizavam com seus colegas mais humildes, mantendo um relacionamento mais amistosos com os capoeiristas tradicionais.

RELAÇÃO COM OUTROS MESTRES

O endeusamento da figura de  Bimba pelos seus alunos fatalmente conduziu, sem nenhum propósito maldoso, à diminuição do valor dos antigos mestres ante à majestadeatribuída ao nosso Mestre, sendo reservado aos mesmos o papel secundário de figuras  representativas dum estádio primário na evolução de nossa arte, respeitáveis ancestrais de valor histórico, porém ultrapassados.
A maioria dos acadêmicos entretanto guardando o respeito e a consideração recomendada pela etiqueta da classe dominante no trato com as pessoais, independentemente dacategoriasocial. Alguns, entre os me incluía, conservando a admiração pelo beleza dos seus toques e cantos; alegria, disciplina, cavalheirismo e lhaneza das rodas,  e extraordinárias habilidades no jogo de dentro, no jogo baixo, elegância e gentileza dos seus movimentos, paradigmas coreográficos.

RELACIONAMENTO NO CONTEXTO SOCIAL

O preconceito classe dominante contra as manifestações culturais áfrico-brasileiras e a sua proscrição legal, conduziu os primeiros alunos do Mestre a um proselitismo somente  comparável àquele  dos discípulos de Jesus, sempre apregoando a superioridade dos ensinamentos e da conduta do Mestre!
Em casa, na escola, na rua, nas festas, nos cinemas, nos bares e restaurantes, na aglomerações de qualquer natureza os alunos exibiam sua qualificação, a nobreza de ser "ALUNO DO MESTRE"!
Cada palestra  uma oportunidade para cativar um seguidor potencial.
Cada instante um momento para exibir a excelência da prática da capoeira como defesa pessoal, preparo físico e coreografia.
Cada desencontro um chance para demonstrar a eficiência duma rasteira, tão característica da capoeira como a pele negra dos africanos e seus descendentes.


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ÉTICA NA OU DA CAPOEIRA?

"A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas."

Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a herança Afro que nem os velhos "majors" remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado,com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano. Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar, integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico, tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo : quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes, similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da sociedade industrial. Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma posição à altura da dos pais para todos os rebentos.A família, de que se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores. O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram oficializados uma série de "esportes" com ênfase diferente, onde o aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os folguedos populares que não foram integrados pelo espírito esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo. Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores, o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso — o meu, por sinal. Gosto da capoeira porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÏ É um esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas, isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras EXPLÍCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de normas, de regras escritas é integral da cultura europeia — para ser mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento (violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização, fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas, brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social, que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada. Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los — na vida tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética, nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet. Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se chamar de violência simbólica.
Simbólica, porque exercida sobre os símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem, de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que muitas pessoas, particuliarmente as "educadas", ficaram, devido à educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los, precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o treino na capoeira é verdadeira reeducação.
Mas para aprender, é preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras — um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre, portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes, um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais formados e deformados para e pelo discurso. Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso, para incentivar eles a comecer a aprender.

"Polô"


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CÓDIGO DE ÉTICA DA ABPC

Anteprojeto de A. A. Decanio Filho
Pedimos análise crítica e sugestões

Introdução

  1. Definição:
    ética [Fem. substantivado do adj. ético.] S. f. Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. (Dic.Aurélio)
  2. Conceito:
    conjunto de normas e preceitos, escritos ou consuetudinários, de conduta pessoal interpares ou entre grupamentos sociais, pedagógicos, esportivos e etários.
  3. Justificação:
    determinação da Assembléia Geral da ABPC de 19 de Novembro de 1997 em Natal/RN.
  4. Fundamentos:
    1. Normas de higiene pessoal
    2. Normas de conduta gerais
      1. Os 3 erres fundamentais: Capoeira é uma palavra estranha, que se escreve com um "rê" suave e se pratica com três "erres". O primeiro é o RITMO, o segundo o RITUAL e o terceiro é o RESPEITO, sem os quais não se joga nem ensina a capoeira!
    3. Normas de conduta social interpares
    4. Normas de conduta entre grupos
    5. Normas de relacionamento entre mestre e alunos
    6. Normas de condutas em competições
  5. Texto:
    1. Estrutura e Organização
      1. Generalidades
      2. Conceitos gerais
      3. Disposições gerais
      4. Disposições específicas
      5. Disposições especiais
      6. Disposições finais

REDAÇÃO INICIAL (Decanio)

GENERALIDADES

Justificação

Mediante proposta de Reginaldo da Silveira Costa "Squisito" decidiu a AG da ABPC, em sessão de 18/11/98, em Recife/PE, elaborar um Código de Ética para regulamentar o comportamento dos seus associados e encarregar AADF "Decanio" da redação do seu anteprojeto.

Conceitos e definições

Definição: ética [Fem. substantivado do adj. ético.] S. f. Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. (Dic.Aurélio)
Conceito: conjunto de normas e preceitos, escritos ou consuetudinários, de conduta pessoal interpares ou entre grupamentos sociais, pedagógicos, esportivos e etários.

Fundamentos

O presente CE abrange preceitos de higiene pessoal, normas gerais de conduta social e esportiva, bem o ritual específico da capoeira, com objetivo precípuo de manter a prática da capoeira nos limites da cidadania, esportividade, educação e segurança.

Normas de higiene pessoal

São obrigatórios os cuidados fundamentais de higiene corporal, tais como banho geral de asseio e aparo de unhas, além daqueles específicos do vestuário.

Normas de conduta gerais

Durante a prática da capoeira deverá ser rigorosamente observada a obediência ao ritmo e ao ritual específico da escola, do evento ou da roda atual, bem como o respeito a todos os presentes de modo geral e em especial aos mestres, orquestra, árbitros. dirigentes e autoridades outras presentes ou participantes.

Ficam expressamente proibidos

  • Uso de adereços ou objetos pessoais de qualquer natureza capazes de gerar lesões corporais no usuário ou qualquer participante do evento.
  • Uso e venda de bebidas alcoólicas de qualquer natureza dentro do recinto.
  • Participação, em competições, treinos ou rodas, de atleta sob efeito de bebida alcoólica ou com estado de humor alterado por emoção violenta.
  • Conduta ofensiva à moral ou agressões de qualquer natureza

Normas de conduta social interpares

  • Respeito aos seus pares independente de graduação, hierarquia, profissão, nível cultural, raça, religião ou qualquer outro atributo pessoa; ou social, princípio fundamental da cidadania.
  • Comedimento nos comentários e alusões, termos ofensivos, desairosos ou depreciativos.
  • Moderação nos gestos e brincadeiras, evitando ridículo a quebra do decoro.

Normas de conduta entre grupos

  • Respeito às normas jurídicas e sociais que regem o relacionamento entre entidades correlatas.
  • Comedimento nos comentários e alusões, termos ofensivos, desairosos ou depreciativos.
  • Moderação nos gestos e brincadeiras, evitando o ridículo e a quebra do decoro.

Normas de relacionamento entre mestre e alunos

  • Respeito recíproco.
  • O mestre deve:
    • manter conduta sóbria ante os alunos,
    • evitando comentários, gestos e brincadeiras ofensivos ou depreciativos;
    • demonstrando e justificando as técnicas e condutas ministradas,
    • esclarecendo as dúvida surgidas entre os discípulos.
  • Os alunos devem:
    • guardar respeito aos docentes,
    • apreciar os ensinamentos com atenção,
    • executar cuidadosamente os exercícios prescritos
    • guardar disciplina, evitando comentários, gestos e brincadeiras ofensivos, depreciativos ou capazes de promoverem riscos ou danos.

Normas de condutas em competições

  • Árbitros
    • Manter serenidade, moderação de linguagem e isenção de animo
    • Observar atentamente todos os lances do jogo
    • Não comentar os lances dos jogos
    • Obedecer estritamente as regras e instruções em vigor
    • Não revidar a ofensas de quaisquer natureza, exercendo poder de registro na súmula para julgamento posteriorpelo poder competente
    • Não usar estimulantes alcóolicos ou de qualquer outra natureza
  • Mestres
    • Comportar-se com dignidade e compostura, obedecendo aos princípios de conduta esportiva
    • Manter serenidade, moderação de linguagem e isenção de animo
    • Observar atentamente todos os lances do jogo
    • Não comentar os lances dos jogos
    • Não usar estimulantes alcóolicos ou de qualquer outra natureza
  • Atletas (durante as competições e nos seus intervalos)
    • Manter serenidade, moderação de linguagem e isenção de animo
    • Observar atentamente todos os lances do jogo
    • Não comentar os lances dos jogos
    • Obedecer estritamente às regras e instruções em vigor
    • Não revidar a ofensas de quaisquer natureza, exercendo poder de comunicação à Comissão de Ética para providências legais.
    • Obedecer estritamente às regras e regulamentos de competições, respeitando as decisões dos árbitros, reservando-se o direito aos recursos e protestos legais.
    • Evitar qualquer conduta capaz de perturbar o bom andamento dos eventos.
    • Não usar estimulantes alcóolicos ou de qualquer outra natureza

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DESORDEIROS

A estigmatizarão perversa do capoeirista (como malandro, desordeiro, baderneiro e quejando) pela classe dominante, em contraste com o espirito gozador, alegre, festivo do nosso povo humilde, é fruto dos preconceitos contra as manifestações culturais africanas tidas como "coisas do diabo" e detestadas por que os negros e afins apenas serviam como fonte de riqueza.
As manifestações culturais eram reprimidas por que o suor do trabalho escravo, que no trabalho se transformava em ouro para os escravistas (tidos como superiores culturais e espirituais), durante o tempo do samba e da capoeira se transformava em felicidade e não em moeda sonante.
Da idéia de prejuízo econômico e desgaste físico da fonte de renda aos preceitos coibitivos vai um passo pelo descaminho do preconceito…

Preceitos, Preconceitos e Polícia…
os três Pês que Perseguem os Pretos!

Acresce que os historiadores se louvam nos documentos policiais e notícias de jornais, que também se baseiam nas mesmas fontes, sem os descontos dos abusos de poder e das reações naturais dos injustiçados…
Dada a alegria inerente aos capoeiristas, o pejorativo dos termos policiais passou a ser usado como galardão de destemor e bravura, pela consciência da força de cada um, que o povo não tem e a capoeira empresta aos seus praticantes .
Daí encontrarmos, em Noronha e nas conversas dos antigos portuários, como auto-elogio os termos baderneiro, desordeiro, valentão, que soam de maneira contrastante com o comportamento dos nossos companheiros de roda.


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ÉTICA NA CAPOEIRA

AGRADECIMENTOS

Conscientes do valor da vida e de cada ser humano, reconhecemos e agradecemos, com todo carinho, as pessoas que são marcos em nossas vidas:

  • Deus – Mestre dos Mestres e criador das coisas palpáveis e impalpáveis;
  • Nossa família – pelo carinho, paciência e incentivo naquilo que acreditamos ser contribuiçãopara as mudanças sociais;
  • Mestre Nô – Grande amigo e fonte de uma grande sabedoria e esperança na capoeira-que hoje já é de útilidade pública estadual em alguma parte do país, fruto de sua missão.
  • Mestre Sabiá – Um grande amigo que nos incentiva e confia com a perseverança de um autêntico guerreiro-Badauê.
  • Aos Mestres – Naldinho, Geni, Boa Gente, Tônico, Jair, Henrique, Lázaro e Dalmo, pelas relevantes informações prestadas que foi de suma importância na conclusão deste seminári
  • e ao grande ser humano e companheiro-Rafael Magnata-que sempre nos alertou para o jogo da vida e que de tão especial não conseguimos agradecer com palavras, mas sim, com nosso axé e presença ao seu lado.
  • Aos irmãos capoeiristas da Badauê e da Palmares do Brasil e do Mundo que por amor tornam a capoeira expressão viva de uma nação.
  • Aos alunos formados: Marrudo(Fortaleza- Ceará) e Manga Larga (Aracajú- Sergipe), também pelas informações prestadas.
  • E a todos que admiram e abraçam não só o ser negro, mas esta arte que encanta-capoeira-como uma filosofia de vida e expressão de amor.

Axé.

SUMÁRIO

I – Introdução
II – Negro – Mercado da Escravidão
III – Propósito da Capoeira na Paraíba
IV – Grupo Cultural Lua de Palmares: Propósito do grupo quanto à cultura.
V – O Que é Ética
VI – Ética na Capoeira
VII – Capoeira Mulher

I – INTRODUÇÃO

Comemorar o dia da abolição no Brasil, vem sendo vivenciado com menos intensidade no país. Isso se deve em parte ao afastamento dos órgãos governamentais que não vem dando uma assistência como deveria aos problemas sociais de modo geral.
Um outro fator no esquecimento ou mais especificamente no distanciamento em se comemorar o "Dia da Abolição", -diz respeito aos próprios negros que estão trocando o 13 de maio-marco da abolição, pelo 20 de novembro, denominado de "Dia Nacional da Consciência Negra".
O 13 de maio para muitos negros, principalmente aqueles negros mais conscientes da historia dos seus antepassados, não aceitam o 13 de maio como ato de abolição, defendido com mais rigor pelo movimento negro, como sendo, apenas, um ato, e o é. Já o dia 20 de novembro, aniversário de morte do líder negro Zumbi dos Palmares, que lutando por justiça foi perseguido em toda a sua trajetória histórica, até ter seu corpo esquartejado em 20 de novembro de 1695, após longos anos de lutas contra o racismo e outras discriminações mais vividas pelo povo negro no Brasil. O movimento negro, entidade que luta pela igualdade, vem se distanciando em comemorar o 13 de maio como marco na história do povo negro no Brasil.
Hoje, a constituição brasileira já garante ao negro,um espaço muito significativo dentro da sociedade, garantindo-lhes o direito de se defender juridicamente contra os seus discriminadores, ocorrendo inclusive prisão e indenização por danos     morais se comprovado e reclamado pelo mesmo.
Há de se explicitar também, que o negro de modo geral, deve se inteirar mais nos acontecimentos e participar do processo político do país e investir na educação, no sentido de adquirir conhecimento e consciência, para, a partir daí, o povo negro no Brasil passar a se auto valorizar espontaneamente e conquistar seu espaço, também, na divisão de renda do Brasil.   
Politicamente, os negros hoje já se fazem representar no poder, com uma parcela significativa dentro da política nacional, a exemplo de Carlos Paim, que foi autor recentemente de projeto de Lei ampliando o direito do negro na sua auto defesa
contra o racismo; a deputada Benedita da Silva, o ministro dos desportos Edson Arantes do Nascimento, mundialmente conhecido como Pelé, entre outros que vem sendo exemplos de encorajamento aos negros, para que se conscientizem e passem a participar também desse processo, só assim, o povo negro poderá afastar o "fantasma" , tão presente, da discriminação racial.
O presente trabalho aqui proposto, não pretende discutir especificamente a discriminação propriamente dita, e sim, fazer um breve histórico da trajetória desse povo que foi marco na economia brasileira através dos ciclos da cana-de-açúcar, do ouro e do café. Isto posto, falaremos do legado cultural que é a capoeira, cujo tema aqui enfocado, se denomina "A Ética na Capoeira".

II – NEGRO – MERCADORIA DA ESCRAVIDÃO

A escravidão é uma instituição tão antiga quanto ao gênero humano e de amplitude universal, pois, legitimada pelo direito do mais forte, ocorreu em todos os tempos e em todas as sociedades, até hoje, onde negros continuam sendo marginalizados, sofrendo com o preconceito que surgiu com o sistema capitalista, onde "a metrópole se apropria do excedente realizado pelo escravo que assim favoreceu a acumulação primitiva indispensável ao desenvolvimento europeu". Milhares de escravos foram vítimas da ignorância dos colonizadores e foram "arrancados" de suas famílias ainda em sua tribo, em alguns dos países africanos.  
"Este, é um país formado na concepção de que trabalho é algo que se obriga outro a fazer e pessoas humanas são mercadorias", baseado nesta tese, o Brasil teve três séculos e meio de regime escravocrata e apenas um de trabalho livre. Com isso foram importados 4 milhões de negros africanos.
Esse comércio favorecia tanto ao Brasil como aos países africanos, no entanto, os escravos sofriam
bastante com a viagem que em média duravam 43 dias e poderia até dobrar o tempo dependendo da distância.
Muitos negros morriam na travessia causados por maus tratos, má alimentação, superlotação, doenças. Mas
nem isso fez diminuir o tráfico negreiro e muito menos que o Brasil se tornasse um país de estrangeiros, já que o que predominava eram os africanos e não os crioulos brasileiros.
A maioria dos escravos trazidos para o Brasil pertenciam a dois grandes grupos de língua e cultura bem diferentes: a dos sudaneses- iançãs, mandingas, nagôs e reinos africanos florescentes -eram encontrados nas regiões mais ao norte do litoral
africano e os bantos-cabindas, benguelas, congos,  angolas-estes eram considerados excelentes agricultores.
Dessa forma os negros ocupavam o território brasileiro contribuindo com sua força de trabalho com o enriquecimento dos senhores feudais, por outro lado, eram impedidos de constituírem suas famílias e tinham que anular sua individualidade, reduzindo-o a condição de máquina destituída de vontade própria e cegamente obediente a razões inquestionáveis, assim como não permitiam seu agrupamento para evitar que se conscientizassem de sua condição social.

III – PROPÓSITOS DA CAPOEIRA NA PARAÍBA

A prática da capoeira na Paraíba não é uma constante como na maioria dos Estados. Aqui na década de 70, a capoeira tem sua divulgação através do Grupo Terra Seca, onde se destacam Pássaro Preto, José Menino, Marco Antônio Batista, este último, hoje em plena atividade, lidera o grupo Cultural de Capoeira Badauê de Palmares em Campina Grande e demais cidades do Estado.
Em 1979, o mestre Zumbi-Bahia, implanta um trabalho intensivo com capoeira, mas não obtém os resultados positivos. O trabalho tem sua continuidade com o mestre Cláudio Paulista, que devido a falta de apoio e interesse, desativa a prática da capoeira na Paraíba na Década de 80.
Passados quase 10 anos de silêncio, a capoeira começa a ressurgir (parece que agora é prá ficar), através da Associação Brasileira de Capoeira Palmares, com sede em Salvador -Bahia.
Com um estilo de trabalho muito arrojado, o mestre Norival dos Santos- mestre Nô, líder da Palmares,  implanta o seu trabalho em Campina Grande através do hoje mestre Sabiá, passando a ganhar respeito e interesse por parte dos interessados na prática da capoeira. Mestre Nô com um estilo simples, mas com muita disciplina, vem conquistando de forma espetacular, o interesse das pessoas na prática da capoeira angola na Paraíba.
A filosofia do trabalho do mestre Nô é fazer um atividade cultural e educativa, desmitificando assim, a visão errônea que é atribuída a capoeira pela sociedade de modo geral, e os grupos a ele filiados, estão dando passos importantes no resgate do estudo e prática da capoeira na Paraíba.
Como exemplo, temos os grupos Badauê de Palmares com mestre Sabiá e seus alunos espalhados por todo estado e Grupo Cultural de Capoeira Palmares com mestre Naldinho-em João Pessoa.
Um outro fator importante a se registrar aqui com relação ao trabalho do mestre Nô, é a formação de capoeiristas no grau de mestre, como é o caso do mestre Sabiá, remanascente dos antigos capoeiristas e mestre Naldinho.
Na história da capoeira na Paraíba, não se tem conhecimento da formação de um mestre de capoeira atuando no seu próprio Estado, como é o caso de Sabiá e Naldinho, o que com certeza irá engrandecer o leque de adeptos pela capoeira e firmar a Paraíba no cenário nacional da prática de capoeira, o que a 10 anos atrás não se podia contar com isso. Acreditamos nisso!.

IV – GRUPO DE CAPOEIRA LUA DE PALMARES

Propósitos do grupo quanto a cultura O Grupo Cultural de Capoeira Lua de Palmares, foi criado em 02 de julho de 1990 nas dependências do Serviço Social do Comércio-SESC, sob a orientação do  aluno do mestre Sabiá-Rafael Magnata. A principio, o mencionado instrutor, fora contratado pelo SESC para ministrar aula de capoeira aos componentes do grupo de dança- Tenente Lucena, mas, como atrativo foi aberto a comunidade a participação no grupo de capoeira.
Rafael Magnata, por ser um conhecedor nato da cultura afro, implantou um sistema de cultura através da capoeira, até porque, é proposta da própria Associação Brasileira de Capoeira Palmares, trabalho que projetou o grupo na sociedade paraibana, recebendo convites de escolas e entidades civicas-culturais para apresentação do grupo.
Em 1992, o SESC revoga o direito do grupo atuar em suas dependências, alegando que o grupo não atendia as proposta da entidade. A partir daí, o grupo passa a ter um outra postura. Sem teto para exercer as suas atividades, reduz se a proposta inicial, até por falta de espaço, mas apesar de todos esses atropelos, o grupo se manteve firme no propósito de fazer um trabalho educativo junto a comunidade carente, dando  essa forma um outro contexto a história da capoeira na Paraíba.

V – O QUE É ÉTICA ?

A Ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento. Entretanto, ainda nos é obscuro o comportamento de antigas civilizações, assim como seus conceitos de bem, valor, liberdade, Lei e outros.
O processo de desenvolvimento das civilizações  trouxeram muitas mudanças nos conceitos Éticos aplicados à sociedade; com isso "não são apenas os costumes que variam, mais também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria de um povo a outro.
Os ideais Éticos variam muito, podemos ver no transcorrer da história. Para alguns gregos o "ideal estava na busca teórica e prática da idéia do bem ou estava na felicidade- entendida como uma vida bem ordenada, uma vida virtuosa, onde as capacidades superiores do homem tivessem a preferência".
Para os cristãos o homem viveria para servir a Deus, diretamente, e em seus irmãos; já no período renascentista ou iluminista, ou seja, entre o Século XV e XVIII os burgueses tinham como ideal de uma vida ética "viver de acordo com a própria liberdade pessoal e em termos sociais, o grande lema foi o dos franceses: liberdade, igualdade e fraternidade".
Atualmente, o sistema capitalista é um fator influenciador da ética social, enquanto os pensadores de existência insistem em ter a liberdade como um ideal ético "em termos que privilegiam o aspecto pessoal ou personalista da ética: autenticidade, opção, resoluteza, cuidado etc", e que a maioria dos países ricos buscam a ética do prazer, muitas vezes sem moderação, o mesmo capitalismo reduziu-se à posse material de bens, ou à propriedade do capital".
No entanto este comportamento ético hoje, talvez não vigore como deveria pois há uma forte influência dos meios de comunicação de massa, dos aparatos econômicos, do Estado e das ideologias que nem sempre são de maioria, fazendo com que não haja cidadãos conscientes, e homens livres de pensar e agir. Suas atitudes tornam-se restritas ou impostas por quem detêm o poder; não há um desenvolvimento crítico. O comportamento ético é manipulado na maioria das vezes por termos cidadãos incapazes de julgar e participar conscientemente.
Com isso os maiores problemas éticos de hoje, são em torno da eticidade, ou seja, família, sociedade civil e Estado-a ética não pode ignorar esses fatores. No contexto da família, podemos verificar que "as transformações histórico-sociais exigem hoje, éticas sobre o relacionamento dos pais com os filhos" e isso se dá com a forte influência dos meios de comunicação e, também, o desenvolvimento da mulher na sociedade, assim como outros grupos oprimidos e isso exige uma reformulação ética diante da sociedade de hoje.
A questão ética em relação a sociedade civil não engloba somente a consciência e o comportamento de cada indivíduo; ela está relacionada com o julgamento do sistema econômico e social como um todo.
"Em relação ao Estado, os problemas éticos são muito ricos e complexos", diante da desigualdade social onde quem detêm o poder é quem possui o saber e conseqüentemente "a liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um estado livre e de direito". As Leis, a Constituição, as declarações de direito, a definição dos poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais.

VI – ÉTICA NA CAPOEIRA

"A partir do momento que se corta as raízes como irá se perpetuar a espécie?" (Mestre Nô-ABCP-Ba).
O estudo da Ética na capoeira se faz necessário tendo-se em vista o propósito que a Capoeira Palmares vem implantando na Paraíba e no Brasil.
Partindo deste conceito de ética que diz "ser o estudo das ações ou dos costumes e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento, podemos por meio de uma análise histórica e atual, fazer um estudo do contexto ético na capoeira.
O capoeirista, como sabemos, sempre foi alvo da marginalização, já que a capoeira foi crime previsto pelo Código Penal da República e seu simples exercício na rua davam até seis meses de prisão. Mas para fugir deste conceito o baiano Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mestre Bimba, inovou a capoeira e criou, também, um código de ética rígido que exigia até o ato da higiene pessoal.
Não só Bimba, mas os capoeiristas em geral que trabalharam para o crescimento e valorização dessa arte, sempre buscaram métodos eficazes para bem desenvolvê-la.
Um dos princípios fundamentais, em comum à capoeira Angola e Regional começa com quem joga. Este tem de cumprimentar o parceiro "ao pé do berimbau", quer dizer, agachados perto do instrumento que dará o ritmo dos golpes. Ambos devem estarem limpos, "devidamente trajados", e jamais sem camisa. Deve-se  procurar a harmonia, na qual um movimento de defesa  já é o começo de outro, de ataque, sem ferir o companheiro. Os oponentes não se atracam, mas lutam "por aproximação", respeitando a hora de entrar e sair da roda. E ninguém deve aprender capoeira para sair batendo nos outros. Já dizia o mestre Pastinha que "capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta". Com isso a tática do bom capoeirista sempre foi de se fazer de fraco diante do oponente, tornando em luta violenta no momento certo, mas perigosa sempre.
Com o passar dos anos a luta brasileira tornou-se um pouco mais "respeitada", foi reconhecida pelas  autoridades e divulgada pelo mundo, em contrapartida, inova em sua expressão. Muitos grupos descaracterizaram a capoeira, desincorporando seu jogo ou luta das raízes que até pouco tempo a classificava como uma manifestação folclórica. Mas todo este quadro deixou a capoeira numa situação de conflito sem igual: se mantida e ensinada apenas como manifestação cultural, sem nada acrescentar, provavelmente ela estagnará e não terá sua merecida difusão; se evoluir de maneira desenfreada poderá descaracterizar-se.
Ainda existem alguns mestres que ensinam a seus alunos a luta e impõem à disciplina, o seu ensinamento como uma manifestação de nossa cultura, mesmo assim, muitos adeptos da capoeira a buscam, apenas para cultuar a forma física ou porque é moda. Eles esquecem, e creiamos nós que alguns mestres também, que "capoeira é um diálogo de corpos, "eu venço quando o meu parceiro não tem mais respostas para as minhas perguntas" (Mestre Morais).

O resultado desta nova identidade da capoeira, desvirtuada de suas raízes, são os campeonatos e "vale-tudo". Eles provocam uma enorme evasão nas academias, pois acabam desistimulando o aluno que quer treinar e que busca, na luta brasileira resistência e luta. A capoeira é única, mas nestas competições ela perdeu o estilo da própria luta.
A falta de metodologia de ensino e o desinteresse em aperfeiçoar o conhecimento sobre a arte são os principais motivos apontados por professores e mestres do grupo Palmares. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Capoeira Palmares, mestre Nô, a "questão ética na capoeira está um self-service", onde cada um faz o que quer, deixando para trás toda cultura que a capoeira carrega.
Outro fator de peso no desenvolvimento da capoeira é a sua divulgação na mídia. Com isto ela recebeu novos adeptos, se apresentou aos desconhecidos e conquistou um pouco mais de respeito e confiança. Por outro lado, este crescimento desorganizou toda uma estrutura de trabalho, o que antes era voltado para a conscientização e preservação dos costumes, hoje é  dirigido para performance e/ou vale-tudo. Mesmo com toda esta transformação, ainda não foi extinto pela sociedade o preconceito por aqueles que praticam capoeira. De acordo com o professor Henrique (Kiluangi de Palmares) "nós podemos ter acesso à mídia, isso não é negativo; mas para conseguirmos tirar essa imagem marginal é preciso mostrar que a capoeira realmente mudou, que é uma arte unificada com as camadas sociais, que ela é uma arte do mundo e não de uma região, cidade ou bairro. E para isso, os professores, os instrutores os mestres, ambos tem que passar informações por meio de uma didática-metodologica-que busque disciplinar e formar seus alunos, sem perder o espaço na sociedade e nem enterrar esta cultura de mais de 300 anos".
O ingresso da capoeira nos jogos olímpicos é outra grande conquista, mas preocupa muito. Na pesquisa realizada com os mestres de capoeira tanto angola como regional, no 5?? batizado e troca de cordéis do Grupo Cultural de Capoeira Badauê de Palmares, em março de 1997, verificamos que todos os entrevistados estão a favor desse novo passo mas,ao mesmo tempo, preocupados com as regras que irão prevalecer e, principalmente, com a formação do capoeira. Muitos professores são contra e alegam que "a partir do momento que ela entra em competição, seus adeptos deixam de fazer a parte histórica e cultural da capoeira" para desenvolver o lado agressivo, o que poderá acarretar em "um companheiro querendo destruir o outro por causa de uma medalha", conforme afirmou o mestre Naldinho.
Após conquistar seu espaço e reconhecimento pela  maior parte da sociedade brasileira, a capoeira atingiu uma das áreas fundamentais de necessidade humana e social-a educação. Ela faz parte do currículo em diversas escolas e universidades do país e do mundo. Este ponto é fundamental e gera muitos debates nos grupos, onde, ensinar capoeira é muito mais que fazer um aú ou dar uma chapa de angola. Os experientes professores e mestres acreditam que as escolas e universidades, ao selecionarem seus discentes, devem buscar nestes qualidade, orientação, metodologia, responsabilidade e fundamentos, pois estes são elementos fundamentais para que se ministre uma verdadeira aula de capoeira.
Contudo, esperamos que esse novo contexto histórico-social seja analisado e direcionado para o cumprimento legítimo das atividades da capoeira e que seus adeptos saibam destinguir a ética da estética, assim como a responsabilidade de mais um modismo social.
A ética se tornará real a partir do momento que os capoeiristas forem conscientes e empenhados na valorização e preservação dessa arte que encanta o mundo inteiro.

VII – CAPOEIRA MULHER

"Eu não gostaria de olhar o jardim somente com espinhos… É muito bom ter uma rosa no jardim"

(Mestre Nô-ABCP-BA).

A eterna batalha feminina de conquistar seu espaço já atingiu as "rodas de capoeira" do Brasil e do mundo. O número de capoeirista sempre foi inferior aos dos homens que praticam esta arte. Na década de 40/50 poucas mulheres jogava, entre elas destacamos: "Nega Didi", "Maria Homem", "Satanás", "Maria para o bonde" e "Calça rala", todas alunas do mestre Bimba. Atualmente, principalmente depois da divulgação feita pela mídia, cresceu o número de praticantes tornando as "rodas de capoeira" mistas. Mas este aumento não significa que elas estejam realmente participando, vivenciando a arte da capoeira.
O conceito de frágil não deve ser atribuído as capoeristas; como disse mestre Tonico "a mulher é muito forte porque ela é quem lava, passa, ela cria, ela pari, e tem que ser tratada com carinho e atenção-não como uma pessoa frágil".
Com isso, ela tem sido vítima da discriminação por  ser mulher e não está sendo respeitada e reconhecida como capoeirista.
As músicas de capoeira são preconceituosas a partir do momento que colocam a mulher submissa como "se  dessa mulher fosse minha eu tirava da roda já,já, dava uma surra nela que ela gritava", ou as tratam como objetos sexuais: "mulher prá mim, tem que ser boa na escrita, tem que jogar capoeira, ser boa, gostosa e bonita, bicho bom é mulher". Na maioria das vezes este tipo de música só é cantada quando há meninas jogando na roda.
Isso está sendo recriminado por muitos mestres, principalmente, mestre Nô. Ele também recrimina a diferenciação no estilo de jogo que há no jogo de "um casal" na roda de capoeira. São atitudes paternalistas de proteção descabidas, pelos mestres/instrutores/alunos que ao jogarem com elas fazem um jogo cuidadoso e diferenciado do que fazem entre eles, achando sempre que por serem mais fortes fisicamente também o são capoeiristicamente, o que às vezes não corresponde a verdade.
Todo Bom capoeirista tem o dever de aprender e tocar os instrumentos que compõem a bateria da roda : berimbau,  atabaque, agogô-cantar e, principalmente, desenvolver seu jogo a fim de aprimorar a luta, o jogo, a dança brasileira. Por tudo isso a capoeira mulher tem que buscar seu espaço, caso contrário continuará sendo dito que "quem toca pandeiro é homem e quem bate palma é mulher" e elas não são enfeites de roda.
Outro problema em discussão é o relacionamento mestres/capoeiristas homens e alunas. "A abordagem sexual às vezes, verdadeiros estupros de dignidade (também físico) ocorre tanto em academias/grupos do Brasil como de outros países. Mestres que não estão preparados e vindos de condições onde não tiveram oportunidade de projeção artística/cultural/social (às vezes também financeiras) sentem-se no direito de pensar, e agir, como se todas as alunas estivessem a sua disposição, causando com isso embaraços, traumas e revoltas que, muitas vezes levam boas promessas de capoeiristas a abandonarem a arte.
Mas isto não descarta, também, a necessidade que tem algumas alunas de cortejarem o mestre e/ou capoeirista do grupo ou academ ia. Isto se torna comum sob o ponto de vista humano, onde sabemos que a tendência é do homem e da mulher se unirem.
A realidade diverge muito dos fundamentos. Não há respeito, critérios e discrição nos relacionamentos, da mesma forma que um aluno, instrutor ou mestre vai a outros grupos/academias assediar as alunas, muitas delas entram na capoeira atraída pelo encanto de seus praticantes. Outras são verdadeiras caçadoras em eventos, assediando os capoeiristas visitantes, tonando-se vulgares.
"A mulher á buscando conquistar seus espaços mesmo porque é muito bom ter uma rosa no jardim-agora, também, precisa fazer com que haja uma disciplina, haja uma informação para ambos os sexos, para que não venham confundir as coisas", disse mestre Nô.
Sabemos que este tipo de comportamento não será modificado do "dia pra noite", mas cabe aos instrutores, professores e mestres disciplinar e orientar seus alunos (as) em relação a este tipo de fato e direcionar suas aulas de forma educativa e profissional, a fim de que a capoeira não perca tantos adeptos por causa de pessoas mal intencionadas que não buscam o exercício e conhecimento da cultura brasileira mas sim, denegrir sua imagem por meio de atos sem respeito a toda uma filosofia cultural e fundamentos básicos.
Porém, é importante lembrar que os grandes mestres como: Bimba, Pastinha, Cobrinha Verde, Valdemar, Maré, Noronha, entre outros, jamais fizeram músicas achincalhando qualquer mulher, muito pelo contrário, elogiam sempre.

  • http://www.bahianet.com.br/gunga/
  • ALMEIDA, Raimundo Cesar Alves de- A Saga do Mestre Bimba-Salvador – Ginga Associação de Capoeira, 1994.
  • Durkheim, Émile: Sociologia:Organizador: José Albertino Rodrigues-7a edição-São Paulo-SP-1995.
  • MOURA, Jair Mestre Bimba: A Crônica da Capoeiragem – Fundação Mestre Bimba, Salvador; 1991
  • QUEIROZ , Suely Robles Reis de. Escravidão Negra no Brasil. Série Princípios, Ed. Ática, 1987.
  • VALLS, Álvaro L.M. O que é Ética. Ed. Brasiliense, 8a edição, 1994.
  • OUTROS:
 
Patricia Morais – João Pessoa/PB – Outubro/97

  • -

PRÁ BATÊ NOS OTARU!

(Para bater nos otários)

Bimba ao falar sobre a eficiência da regional sempre enfatizou o elemento surpresa como fator decisivo, evidenciado na sua expressão:

"A regioná num seuve pa brigá c’us companhêro… é prá batê nos otaru!"
(A regional não serve para brigar com os companheiros… é para bater nos otários!)

PORQUE …

  • todos os capoeristas conhecem seus recursos e limitações, tão bem quanto as esquiva e defesas,
  • enquanto os que desconhecem a sua prática (os leigos ou otários) podem ser surpreendidos pelos seus movimentos.
  • A primeira parte da frase acentua a importância do companheirismo que deve existir entre seus alunos, mais evidente noutras recomendações corriqueiras no meu tempo:
    • "A luta regioná num seuve p’a brigá cum ôtru regioná, é bom prús otáru… cúns colega a gente joga regioná…" (A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional…)
    • ou ainda "A genti num deve lutá nu berimbau, deve jogá!" (Não devemos lutar no berimbau, devemos jogar!)

Deste modo verificamos que o Mestre Bimba não preconisava "lutas" entre os seus alunos…
O "esquenta-banho" servia para treinamento de defesa pessoal, de movimentos proibidos sob o ritmo de berimbau, para treinamento de manobras novas, como "tira-teima", drenagem da agressividade ou diferenças pessoais, logo arrefecidas pelo banho frio sob o jato d’água do cano do banheiro, especialmente quando alguém "entrava pelo cano" durante o "esquentamente"…
Acredito que em vida o Mestre jamais aceitaria a desunião e o enfrentamento dos irmãos que deveriam formar uma única família, a dos filhos de Bimba!


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