Category Archives: Técnica

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OS AGARRAMENTOS NA CAPOEIRA


Os agarramentos são, como sempre foram, proibidos durante a prática da capoeira, especialmente por impedirem a sintonia com o rimo musical, condição sem a qual não podemos conceber a capoeira baiana.
As palavras manuscritas de Mestre Pastinha, abaixo reproduzida em imagem escaneada e transcritas da página 43, do vol.3, da "Coleção S. Salomão", "A herança de Pastinha", editado por Decanio, demonstram esta tradição ainda conservada pelos atuais praticantes do estilo "angola".
 
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1.4.42 – …"é falta usar as mãos"…

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo."
(12b, 1-10)

… aparece aqui a única diferença…
… entre os estilos de Bimba e Pastinha…

… Bimba…
… ao criar um sistema de ensino da capoeira…
… instrumento de luta…
… abandonou a tradição…
… de não usar golpes traumáticos de mão…
… permissão estendida aos balões e projeções…
… bem aceitos e estimulados…
… pela difusão das técnica orientais…z
.. no meio social em que pontificava…

Embora a Luta Regional Baiana permitisse o emprego das mãos durante a sua prática, Mestre Bimba não admitia que o capoeira permanecesse imobilizado, parado ou agarrado porque nesta condição estaria desprotegido e exposto como alvo às armas, branca ou de fogo, bem como a outros tipos de ataque.
Os chamados treinos de agarramento, secretos, na verdade eram treinos para não se deixar agarrar, prática de manobras para se desvencilhar dos adversário, adequada para a defesa pessoal ou eventual confronto físico com adversário conhecedor destas técnicas.
Enquanto um praticante ficava em posição vulnerável, habitualmente sentado ou deitado no chão, um ou mais parceiros tentavam segurá-lo e mantê-lo imobilizado.
O objetivo do treino era desenvolver os reflexos, a resistência, a potência e calma indispensáveis à libertação da imobilização, estrangulamento, agarramento, presa, presilha ou chave, recuperando a plena mobilidade para a defesa pessoal.
A instrução genérica era pegar o adversário e jogar no chão (… com força naturalmente) ou sacudi-lo instantaneamente, com violência, ante o menor esboço de tentativa de apresamento, sem deixar "fechar" o golpe.
Como dizia o Mestre: "Gorpe ligadu só funciona se você deixá garrá."<golpe ligado só funciona se você deixar agarrar>
O capoeirista se caracteriza pela agilidade e intangibilidade quase mágicas, tem que ser como o vento, parece que está em toda parte e ao mesmo tempo em lugar algum, sacode, agita, derruba, destrói.. mas não se deixa pegar!
Quem gosta de se agarrar é ‘ganhamun’ e siri, por isso se deixam pegar… e terminam na panela, diziam os antigos.
O capoeirista não carrega para derrubar, pois seu ancestral direto, o carregador não deve deixar cair sua carga… só se escapulir…
Entre os antigos, aqueles menos eficientes, tecnicamente deficientes, porém dotados de maior corpulência, eram os que procuravam agarrar os melhores de técnica e mais franzinos, na esperança de imobilizá-los…

… com medo de apanharem ou caírem…

Mesmo durante as projeções em jogo de capoeira do estilo regional, não se pode parar para pegar, nem tampouco "carregar" o parceiro… "é pegar e jogar"!
Um bom capoeirista, por definição e princípio;deve possuir técnica e manha, indispensáveis para conduzir seus alunos e parceiros, à armadilha em que se enredarão!
Cumprindo assim o triste destino que os aguarda ao final de cada volta do mundo!

Capoeirista não derruba!
… só faz armar o laço…
… o bobo é que cai!



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ARPÃO-DE-CABEÇA

… um estranho giro vertical sobre os pés…
… com os braços abertos…
… aguardando uma cabeçada…
… anulada com uma joelhada na face do colega…
… que já entrava com as mãos cruzadas…
… em defesa do joelho hostil!
…!? ARPÃO?!…
…!? de CABEÇA !!!???…

No "Aurélio" encontramos…
ARPÃO: ferro em feitio de seta
fixado a um cabo para ser cravado na presa.
… entendemos!
… " a seta é a cabeça"…
… "o cabo é o tronco encurvado"…
… "as pernas são a força propulsora…
… procurando cravar o arpão <a cabeça>…
… no peito exposto <braços abertos>…
… de quem pede"…
… assim é o "pedido de arpão de cabeça"!


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MOVIMENTOS CIRCULARES EM CAPOEIRA

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Os movimentos helicinos, circulares, predominam tipicamente no jogo de capoeira por herança cultural da dança religiosa do candomblé, sua raiz africana.
Como os músculos do corpo humano descrevem um trajeto elipsóide entre o ponto de origem e aqueloutro de inserção, concluímos que os movimento ciclóides devem propiciar maior rendimento motor em termos de velocidade e potência.
Analisaremos a seguir a relevância dos mesmos no gingado, na defensiva, no ataque e na coreografia.

NO GINGADO

O gingado é o movimento ritmado de todo o corpo acompanhando o toque do berimbau, com a finalidade precípua de manter o corpo relaxado; pés apoiados no terço anterior, deslizando levemente sobre o piso e o CGC em permanente deslocamento, pronto para esquiva, ataque, contra-ataque ou fuga.
Característica importante é o vai-e-vem do corpo, ora ensaiando um passo para diante, ora para trás; outras vezes esboçando giros sobre um pés, movimentos descendentes e ascendentes descrevendo espirais que não se concretizam; sempre procurando esquivar das aproximações do parceiro enquanto tenta abordá-lo sob ângulos diversos à procura de pontos indefesos.
Durante o gingado o praticante deve manter-se em movimento permanente, simulando tentativas de ataque, contra-ataque, executando movimentos para atrair ou distrair a atenção do parceiro; sempre vigiando as intenções do parceiro; guardando contínua postura mental de esquiva e proteção dos alvos potenciais de ataques, prestes a fugir, esquivar, negacear ou contra-atacar.
Assim o gingado é o fulcro da capoeira, donde partem todos os seus movimentos.
Por definição e conceito da própria capoeira, só podemos aceitar no jogo de capoeira movimentos gerados a partir do gingado, compatíveis com o ritual da roda e enquadrados no ritmo-melodia do toque de berimbau.
Obviamente, a dinâmica do gingado deve facilitar a esquiva em movimento tangencial, negando ou afastando o corpo do impacto direto.

NA DEFENSIVA

Em decorrência dos movimentos helicinos, os encontros com elementos externos passam a levar orientação tangencial no momento do impacto, transformando o valor da força viva (mv2/2) integral (i.e. multiplicado pelo seno de 90o (=1) num valor menor porque em ângulos > ou < do que 90o o valor do seno é inferior a l.
Deste modo a movimento defensivo circular, além de facilitar a esquiva, reduz acentuadamente o efeito do golpe traumático em ação.
O movimento giratório durante as quedas ou projeções conduz esta conclusão para o momento do impacto, que passa a ser tangencial (ângulo diferente de 90o) e não direto (=90o).
Princípio adotado no treinamento de "ukemi" no Judô, sob a denominação portuguesa de "rolamento", ao lado da "dispersão" da energia cinética pela batida da palma da mão contra o solo em tentativa de desprendimento do contato com o solo.

NO ATAQUE

A funda, que o pequeno Davi usou para vencer o gigante Golias, utiliza a aceleração centrífuga do movimento giratório como propulsora do seu projetil.
Assim, o movimento circular gera aumento da potência dos golpes, incrementando sua eficiência de modo notório, porque na extremidade do segmento contundente a velocidade é, proporcionalmente ao seu comprimento, um múltiplo da original na raiz do membro.
Observe-se também que os caratecas realizam um movimento de torção no momento do impacto para reforçar o impacto dos "tsuki".

NA COREOGRAFIA

O efeito estético da coreografia exige a leveza dos movimentos, a qual empresta aos mesmos uma elegância natural, algo como a evolução sinuosa das serpentes.
Os movimentos circulares, tendo por origem o centro de gravidade, comprometem o corpo como uma unidade, exigem um esforço segmentar bastante reduzido, emprestando graça e naturalidade ao conjunto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A inteligência corporal.

Mestre Yoshida falava muito numa inteligência bulbo-espinhal (Shinkei) em cooperação com a inteligência do cérebro (Nô)
A primeira (infra-encefálica, inconsciente, bulbomedular), atribuída pelo Prof. Jaime Martins Viana à criação de circuitos reverberantes medulares, fruto da repetição freqüente de movimentos durante o treinamento ou execução dum trabalho repetitivo, cujos circuitos seriam responsáveis pela resposta automática, reflexa ante uma situação da qual o SER toma conhecimento por um conjunto de dados periféricos inconscientes, veiculados pelos órgãos sensoriais de todo o corpo, interpretados pelo sistema nervoso central pela comparação, também a nível subconsciente, com situações semelhantes vivenciadas anteriormente.
Justifica-se deste a maior riqueza de recursos exibida pelos detentores de maior tempo de prática da "arte-e-manha de São Salomão", a superioridade técnica dos "mais velhos" e dos mestres, detentores de maior gama de padrões de comportamento, adquirido ao longo do tempo.
Durante a vida, encontrei oportunidades de enriquecer meus conhecimentos e habilidades com o aprendizado de artes manuais sobretudo marcenaria, carpintaria naval, mecânica, pintura automotiva, hidráulica em construção civil e pilotagem de embarcações diversas, entre outras.
Os mestres eram, na sua quase totalidade, de origem africana (sangüínea ou cultural), como soe acontecer em nosso meio e obviamente, adotavam o sistema de transmissão de conhecimentos usual no correspondente ambiente social.
O método é muito simples, inicialmente o mestre executa a tarefa de modo natural, algumas vezes em modo um pouco mais lento, como a enfatizar os momentos mais importantes, sem uso de muitos detalhes orais. A seguir entrega matéria prima e ferramenta, ordena a repetição da procedimento pelo aprendiz e afasta-se enquanto o aprendiz repete o trabalho; retornando para examinar o resultado final.
A repetição da operação permite o aprendizado dentro do potencial do aprendiz, evitando o surgimento dos "teorebas" e "papagaios" tão comuns nos meios acadêmicos, os "mestres" discursivos… parlapatões… "catedráticos" desprovidos de habilidade prática… doutores de beca, de anéis brilhantes, sem argola de outro na orelha, como diria Mestre Pastinha…
A fisiologia nervosa nos ensina que os movimentos complexos são desencadeados a partir de comandos simples.
Ao tomarmos uma colher de sopa, não desdobramos a ordem mental "tomar sopa" numa sucessão de atos voluntários ou conscientes, como:

  1. pegar a colher,
  2. levar a colher até o prato de sopa,
  3. mergulhar a colher na sopa,
  4. retirar a colher da massa líquida, sem derramar a sopa,
  5. levar a colher sem derramar o seu conteúdo, até à boca, etc;

simplesmente pensamos em "tomar sopa" e nosso corpo executa a seqüência completa de movimentos necessários ao cumprimento do desejo; interpretado como uma ordem completa, abrangendo uma série de etapas a serem cumpridas automaticamente.
Esta aptidão para encadear movimentos complexos a nível subconsciente, a serem desencadeado pela ativação de símbolos ou idéias, é que Mestre Yoshida denominava de inteligência medular em contraposição áqueloutra consciente, que está vinculada à atividade da cortical do cérebro.
A "inteligência corporal" tem a capacidade aprender a reagir a situações ambientais, a interagir com a evolução das mesmas a nível infra-consciente e criar manobras adequadas a uma dada situação, com base na experiência acumulada pela vivência pregressa de situações semelhantes.
Explicam-se deste modo as surpreendentes esquivas e/ou contra-ataques fulminantes durante um jogo de capoeira, sem o que o praticante precise analisar a situação ou elaborar uma solução para o momento.
Compreende-se assim a necessidade variar de parceiro, tão logo seja possível, desde os primeiros instantes do aprendizado, para ampliar as variações espontâneas de gestos, movimentos e manobras consoante a personalidade do companheiro. Acresce que a mudança de parceiro acostuma o principiante a não temer a desconhecimento do movimentos do oponente e a confiar nos reflexos do próprio corpo, que improvisa as reações a nível subconsciente.
Conseqüentemente, a repetição mecânica das seqüência, dispensando o acompanhamento meticuloso dos movimentos, sobretudo do movimento do seu desencadeamento, não aperfeiçoa a sua realização, nem multiplica os padrões de reflexos de esquiva e/ou contra-ataques.
Acompanhando cursos e treinamento de principiantes, venho verificando alunos iniciarem movimentos de esquiva antes do esboço do ataque ou executarem movimentos automatizados e desprovidos de objetividade, como a negativa antes da benção. Conseqüência do treinamento intensivo massificado, que poderá ser facilmente corrigida pela início do treinamento com movimentos cuidadosos e lentos, única maneira de evitar o medo de que leva ao principiante a se precipitar na esquiva ou defensiva, anulando o efeito benéfico da prática.
Mestre Bimba não consentia esta antecipação, pois quando o aluno assume o movimento defensivo ou a esquiva, antes do início do movimento do parceiro ativo, transforma uma manobra simulada de ataque e defesa em movimentos dissociados, despropositados e inócuos.
Mestre Pastinha enfatizava o treinamento prolongado sob o ritmo da "bateria" como o ponto alto da sua pedagogia, hábito que os seus seguidores mais próximos conservam até nossos tempos.
É indispensável portanto a confiança no parceiro e o cuidado durante a seqüência de ensino, bem como aguardar o justo momento da esquiva ou defensiva, para desenvolver o "golpe de vista" componente primordial do jogo capoeira.

CONCLUSÃO

As considerações acima nos permitem sugerir o aumento da carga horária de treinamento sob o toque do berimbau no ensino e prática da capoeira, reservando diariamente um período extra de exercícios físicos individuais.
Sistema este adotado pelo Mestre Bimba na época em que iniciei o aprendizado e seguido pelos "mais velhos" do meu tempo, para manutenção da aptidão física
A repetição exaustiva de seqüências de movimentos cria padrões estereotipados de comportamento, que permitem facilmente ao oponente a antecipação do movimento seguinte no seguimento do jogo, ocorrência indesejável e perigosa por motivos óbvios.
É indispensável lembrar que o jogo de capoeira é uma eterno improviso… a cada movimento o risco duma surpresa!


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FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA

Os fundamentos da capoeira ou, como usam, incorretamente, alguns descuidados da nossa língua, suas "fundamentações", vêm sendo discutidos com certa freqüência a partir do uso infeliz desta palavra pelo Mestre Noronha, que se disse conhecedor único dos seus mesmos, sem os enunciar nos seus obscuros "escritos"…
Em trabalho algum encontrei, nem ouvi, conceito, nem definição, do emprego deste vocábulo pelos autores, o que vem aumentando a confusão entre os mestres e capoeiristas dum modo geral. É que nos meios populares baianos, especialmente nos terreiros de candomblé e nas rodas boêmias, o termo adquire uma conotação bem diversa daquela encontrada nos clássicos e dicionários de nossa língua. Uma vez que nestes grupamentos sociais, esta palavra é usado em referência à parte mais secreta e profunda do culto ou prática, somente acessível as camadas mais elevadas da comunidade, adquirindo então um atributo de secreto, sagrado, inacessível aos não-iniciados, ensinamento esotérico, hermético, misterioso, mágico

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"Hoje vejo reduzido, os capoeirista, perdeiram suas
forças de vontade, não procuram o fundamento,
só querem a prender a propria violencia.

O trecho acima, manuscrito pelo Mestre Pastinha, ilustra o emprego do termo "fundamento" pelos antigos capoeiristas no sentido de essência de conhecimentos sobre a capoeira, seus princípios morais, seu ritual, sua prática e seus efeitos sobre o comportamento de cada capoeirista, a razão de ser do seu ritual e do comportamento do jogador, bem como a sua origem, a influência relativa de cada um dos seus componentes, sua música, seu ritmo, seus cânticos, etc.

Concordando com Esdras "Damião" na estranheza do uso de Fundamento e Fundamentação no linguajar dos capoeiristas antigos e modernos (dialeto capoeirano?) vivo procurando porque tanto ênfase neste conceito.

Do longo convívio nos meios de capoeira, nos centros de candomblé e durante a prática médica nas classes menos favorecidas pela Deusa da Fortuna, posso extrair vários sentidos encontrados.
Inicialmente impõe-se o sentido de conhecimento teórico ou prático sobre assuntos de qualquer natureza, independente de estudos formais.
Quando se fala em idéia ou comportamento sem fundamento indica-se a falta de razão subjacente ou de base para tal.

Há uma nuança de mistério, de sacralização, quando empregada em referência a conhecimento reservado a certos grupos sociais como dos feitos do candomblé. Como no caso dos antigos mestres que se proclamavam detentores dos fundamentos da capoeira… somente eles o possuíam…
 Ser conhecedor dos fundamentos da seita ou de qualquer outro ramo de atividade humana, social, científica ou artística é altamente valorizado nestes ambientes culturais baianos; motivo de orgulho e jactância, algo muito especial e envaidecedor.

 É com admiração que se diz: "Fulano conhece muito bem os fundamento de samba!", enquanto outros estufam o peito e se gabam de serem os únicos conhecedores disto ou daquilo… especialmente entre os menos favorecidos de inteligência, cultura e sobretudo, modéstia… apesar de bem providos de auto-estima e vaidade.
 É freqüente e natural, o entitulado "de conhecedor dos fundamentos" desdenhosamente se recusar a transmitir aos não-iniciados aqueles mistérios sagrados, dotados de poder mágico.

 A atrapalhação provocada pelo emprego descuidado desta palavra por alguns estudiosos pouco habituados ao linguajar popular baiano, especialmente do seu uso nas rodas boêmias e nos terreiros de candomblé, aumentou pelo aparecimento de divagações literárias em torno de assunto, cuja definição e conceito os autores sequer conheciam, sem se aperceberem da leviandade, nem da gravidade da falha da científica cometida… palavras bem entoadas, frases bem torneadas, porém vazias… diríamos "sem fundamento" num barzinho da rua do Julião!

A propósito de "FUNDAMENTO" o "Novo Dicionário Aurélio"arrola os seguintes significados:

  1. Base, alicerce.
  2. Razões ou argumentos em que se funda uma tese, concepção, ponto de vista, etc.; base, apoio.
  3. Razão, justificativa, motivo.
  4. Aquilo sobre o que se apoia quer um dado domínio do ser (e então o fundamento é garantia ou razão do ser), quer uma ordem ou conjunto de conhecimentos (e então o fundamento é o conjunto de proposições ou de idéias mais gerais ou mais simples de onde esses conhecimentos se deduzem).

Do acima transcrito entendo que devemos a aceitar por definição como "fundamentos da capoeira" a sua razão de ser e as justificativas de sua maneira de ser, isto é os elementos que a identificam como "SER" em nosso mundo conceptual.
A primeira indagação que surge em nossa mente ao analisar o assunto é:

QUE É O JOGO DE CAPOEIRA?

A resposta técnica é:
"A capoeira baiana é um processo dinâmico, coreográfico, desenvolvido por 2 (dois) parceiros, caracterizado pela associação de movimentos rituais, executados em sintonia com ritmo ijexá, regido pelo toque do berimbau, simulando intenções de ataque, defesa e esquiva, ao tempo em que exibe habilidade, força e autoconfiança, em colaboração com o parceiro do jogo, pretendendo cada qual demonstrar habilidade superior à do companheiro.
O complexo coreográfico se desenvolve a partir dum movimento básico denominado de gingado, do qual surgem os demais num desenrolar aparentemente espontâneo e natural, porém com um objetivo dissimulado de obrigar o seu parceiro a admitir a própria inferioridade.
Dentre as características mais importantes da capoeira destacamos a liberdade de criação, a estrita obediência aos rituais, a preservação das tradições, o culto dos antepassados e o respeito aos mais velhos como repositório da sabedoria comunitária."
 Ou poeticamente:

"A capoeira é uma luta…
ensinada e praticada como dança!

… pode ser usada como defesa…
e como ataque…
numa hora de "percisão"!
nas palavras dos Mestres
Bimba e Pastinha!

A capoeira é uma arte…
a arte de bem viver…
DISPUTADA COMO LUTA…
"mata até sem querer!"
… dizia Mestres Bimba…
"e o bom da vida é não morrer!"
… completava Mestre Pastinha!

OS FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA

A prática da capoeira se desenvolve obedecendo aos seguintes parâmetros:

  1. movimentos rituais ritmodependentes
  2. ritmo ijexá regido pelo berimbau
  3. disciplina e respeito à tradição, aos mais velhos e aos companheiros
  4. parceria
  5. movimentos em esquiva, circulares e descendentes
  6. dissimulação de intenção
  7. alerta, calma, relaxamento e autoconfiança permanentes
  8. estado de consciência modificado (transe capoeirano), que analisaremos a seguir.

MOVIMENTOS RITUAIS RITMODEPENDENTES

O conjunto dos movimentos dos participantes para ser reconhecido como jogo de capoeira deve ser ajustado ao ritmo/melodia do toque da orquestra e obedecer às regras tradicionais de cada estilo, especialmente àquelas que garantem a segurança da sua prática, i.e., a não-violência.
A capoeira baiana é, por definição e princípio, uma luta dissimulada sob forma de dança ou uma dança guerreira, ou ainda como declarou José Roberto"Pingo" (18 anos), aluno e filho pela capoeira de Mestre Canelão (Natal, RN):

"A capoeira não é violência, é um esporte, uma brincadeira sadia… a luta fica escondida."

Além do enquadramento dos movimentos ao ritmo e à melodia, é indispensável a estrita adesão ao seu ritual, isto é, às regras tradicionais que regem sua prática e garantem a segurança dos participantes. Um acordo de cavaleiros, um código de honra, transmitido pela tradição oral entre as gerações, desde suas origens, como disse o Venerável Mestre Pastinha:

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1.4.21 – …"aprender municiosamente ás regras da capoeira"…
"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar minuciosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,"…

(8a, 15-23; 8a, 20-23; 8b, 1-2)

Assim o Venerável Mestre Pastinha sabiamente reitera…
… é indispensável o código honra…
… a ser obedecido pelos capoeiristas, pois ..
… "é o controle do jogo"…
… pelo juiz… pelas regras… regulamentos…
… e pelo ritmo da orquestra…
… "que evita a violência e os acidentes"…
… vale a repetição!

RITMO IJEXÁ

Por ser uma manifestação coreográfica do ritmo africano ijexá o enquadramento dos movimentos da capoeira ao mesmo é fundamental à sua prática, conservando a continuidade da sua dinâmica, sem que se quebre a seqüência dos mesmos.
O andamento do toque ijexá leva uma estado transicional de consciência calmo, pacifico, prazeroso, possibilitando um jogo sem violência e bem cadenciado, permitindo aos parceiros estudo, análise, reflexão e criação de gestos rituais capazes de enriquecer o cabedal de reflexos de defesa, de esquiva e contra-ataques, que compõem o perfil do comportamento do verdadeiro capoeirista.
A aceleração excessiva do andamento provoca um estado de excitação incompatível com a calma indispensável à prática da capoeira, além de impossibilitar o gingado, transformando uma atividade lúdica em agressiva e potencialmente lesiva ou letal.
A observação dos movimentos rituais gerados pelos diferentes toques de atabaques, especialmente entre o ijexá dum lado e aqueles de alujá e adarrum, esclarecerá nitidamente a importância da cadência do toque da orquestra no desempenho dos parceiros do jogo de capoeira, do seu comportamento e estado mental.

DISCIPLINA E RESPEITO À TRADIÇÃO,
AOS MAIS VELHOS E AOS COMPANHEIROS

Nas sociedades de cultura oral, como as africanas, o liame entre as gerações é indispensável à sobrevivência do grupamento e dos indivíduos, valorizando os mais velhos como depositários confiáveis da sabedoria e da experiência, imprescindíveis à educação dos mais jovens e menos experientes.
Manifestação cultural pela sua própria natureza, a capoeira depende da aproximação das gerações, o que integra a sociedade transformando-a num monólito, capaz de resistir às influências externas e perdurar no tempo.
A postura de respeito aos mais velhos certamente conduz àquela de respeito, estima e consideração aos companheiros de geração, os seus parceiros, unindo o grupo social, transformando-o numa família, num clã, num agrupamento tribal, numa unidade fundamental indissolúvel (com "sprit de corps", diria o Gal. Liauty) à qual todos se orgulham de pertencer, como todos fazemos com nossa roda de capoeira.  

PARCERIA

Do respeito às tradições e aos mais velhos facilmente alcançamos a noção de parceria, indispensável ao aprendizado, ao ensino e à prática da capoeira.
A capoeira, atividade fundamentalmente guerreira, intrinsecamente belicosa, potencialmente lesiva e mortal, não pode ser praticada sem confiança recíproca, sem um compromisso de não-agressividade, de não-violência, de respeito mútuo, como são as suas tradicionais regras do jogo, o seu ritual.
A este elo de camaradagem e respeito mútuo chamamos de "parceria", sem ele, morreriam todos os alunos no início do aprendizado ou desistiriam, tal a gravidade das suas lesões!
Sem a parceria, cada "volta do mundo" seria uma batalha, com morte do vencido e sem vencedor.
A Capoeira seria então o próprio Apocalipse e cada Mestre o seu Cavaleiro!

MOVIMENTOS EM ESQUIVA,
DESCENDÊNCIA E CIRCULARIDADE

Dizem os orientais que a esfera é a forma da perfeição e o círculo sua expressão mais autêntica.
Na dança ritual do candomblé os movimentos são circulares, manifestando em cada segmento e no conjunto o acoplamento ao toque (ritmo e andamento) de cada orixá.
Os movimentos circulares são os únicos que propiciam a esquiva, o escape da linha direta do ataque sem o afastamento para traz, que dificultaria ou impossibilitaria o contra-ataque.
Na capoeira, os movimentos, principalmente os deslocamentos, devem ser circulares ou melhor esféricos, girando em torno do centro de gravidade do parceiro, escapando ao seu ataque e contornando o seu flanco à procura dum ponto fraco ou abertura na guarda.
As esquivas descendentes, geram movimentos melhor apoiados no solo, portanto mais seguros, permitindo também a procura dos pontos mais baixos do corpo, habitualmente os mais vulneráveis, do adversário simulado.
Com a vantagem de que o jogador pode usar nesta postura os quatro membros e a cabeça como pontos de apoio no solo, além de dispor de maior amplitude de deslocamento, que pode aumentar a velocidade e força viva dos ataques e contra-ataques.
Sem falar que a rasteira, antigamente tão usada no jogo de capoeira e hoje tão raramente presenciada, é mais facilmente executada em posição mais agachada.
A atitude de esquiva é fundamental na capoeira, protegendo o praticante dos ataques, enquanto permite aproveitar a quebra da guarda, que sempre ocorre durante o movimento de ataque, para um contra-ataque oportuno.

DISSIMULAÇÃO DE INTENÇÃO

Decorrência da definição e conceito da capoeira baiana como uma dissimulação de luta sob forma de dança, adquire a simulação de intenção e a dissimulação de propósito ou de objetivos, um papel preponderante nesta vadiação dos mestiços do recôncavo baiano.
Joga melhor o mais inteligente, o mais manhoso, o mais malicioso, o mais enganador; o que conseguir convencer o companheiro de algo que jamais fará e se aproveitar do gesto em falso do parceiro para desferir o seu golpe verdadeiro.
É preciso "pegar" o parceiro desprevenido, depois de atraí-lo para o laço, para a armadilha em que o mesmo se enredará sem violência e sem maior esforço de parte do atacante.
O floreio, especialmente aqueles executados com os membros superiores, por não afetarem a postura e equilíbrio, nem exigir deslocamento espacial, é o instrumento mais adequado para simulação de ataques e/ou dissimulação de intenção ou objetivo. O floreio mais eficiente é aquele que traz no seu bojo potencial de ataque a ser desencadeado instantaneamente no momento propício.

ALERTA, CALMA, RELAXAMENTO
E AUTOCONFIANÇA PERMANENTES

O capoeirista necessita manter contínua sintonia com a mente do parceiro para detectar suas reais intenções e assim poder antecipar-se aos seus gestos e movimentos, seja de floreio, seja de ataque ou de esquiva.
Desta postura mental brota naturalmente o permanente acoplamento do indivíduo ao ambiente vizinha. Uma eterna vigilância. Um nexo inconsciente entre o indivíduo e o meio, que empresta ao capoeirista um ajustamento instantâneo às variáveis exteriores, sejam físicas ou espirituais, que o conduz à premunição dos perigos e às reações, defensivas ou de esquiva, adequadas.
Muitas vezes o contra-ataque surge, surpreendente como relâmpago em dia de sol, como bote de jararaca aparentemente adormecida.
Na minha opinião, esta é a razão maior da influência comportamental nos deficientes, da melhoria do rendimento intelectual concomitante e das suas condições psicológicas.
Somente a calma absoluta permite o relaxamento indispensável ao desencadeamento dos reflexos de defesa, ataque e contra-ataque com tempo mínimo de latência.
Apenas em perfeita tranqüilidade conseguimos manter o estado de alerta em relaxamento, capaz de liberar todas as vias neuroniais, aferentes e aferentes, para o trânsito dos estímulos periféricos e reações motoras reflexas, inconscientes e instantâneas, de esquiva, defesa, ataque e contra-ataque características do capoeirista durante o jogo ou em momento de perigo.
Podemos assim valorizar a advertência do Venerável Mestre Pastinha ao declamar:"Quanto mais calmo o capoeirista… melhor para o capoeirista…"
Com o passar do tempo, a repetição interminável de situações de perigo aparente ou real. O eterno suceder de imprevistos que desencadeiam reações instantâneas, algumas surpreendentes, porém sempre adequadas, gera uma atitude inconsciente de autoconfiança. A qual facilita mais ainda o desenvolvimento deste processo de preservação da integridade do SER, a jóia mais preciosa que a capoeira pode oferecer ao seu aficionado.
É a tranqüilidade dos fortes" ou, como prefere Esdras "Damião", "a calma é a virtude dos fortes!

ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO
(TRANSE CAPOEIRANO)

 Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.
 O capoerista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.


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A RELAÇÃO COMPLEMENTAR ENTRE ANGOLA E REGIONAL

O "branco" entra na "regional" de Mestre Bimba para aprender a brigar usando os dotes físicos adquiridos pela prática da capoeira e se deixa encantar pelo jogo de capoeira alcançando insensivelmente a capoeira lúdica de Mestre Pastinha através o jogo "de dentro" e de Iuna.
O "negro" dança o jogo de capoeira de Pastinha desenvolve reflexos, elasticidade mioarticular, força, equilíbrio, e coragem. Adquirindo instintivamente um sistema de defesa, de grande eficiência, baseado nos movimentos e reflexos adquiridos no jogo de capoeira.
A capoeira se desenvolve num processo circular, bi-polar, concordante com o sistema dialético da teoria Yin/Yang, consoante o qual em todo jogo existe a semente da maldade e em toda luta encontramos movimentos portadores do germe lúdico, dentro do conjunto do aperfeiçoamento do Ser.
De modo similar , enquanto Mestre Pastinha enfatizou os aspectos metafísicos, éticos e até religiosos da capoeira, preocupando-se com a perpetuação da sua obra; Mestre Bimba dedicou-se sobretudo aos componentes pragmáticos, legalização da sua prática, o aperfeiçoamento de sua técnica e a sua aplicação à defesa pessoal.
A complementação do embasamento somático pelos fundamentos psíquicos através as duas correntes geradas pelos criadores dos estilos "regional" e "angola", garante a unidade da capoeira como jogo e luta, ao tempo em que a transforma no "jeito brasileiro de aprender a ‘ser-estar’ no mundo" a que se refere César Barbieri, abrindo um leque de aplicações pedagógicas e terapêuticas cujos limites são imensuráveis.


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