POR QUE RAMPA DO MERCADO MODELO?

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POR QUE RAMPA DO MERCADO MODELO?


Uma homenagem a Mestre Ezequiel “Ziquié”

10/04/05

Estudando e meditando sobre as riquezas históricas encerradas nos cânticos e tradições orais populares que consegui guardar na memória e no coração, os pensamentos foram se cristalizando em torno de perguntas que me afloravam ao foco da consciência…

Por que Rampa do Mercado Modelo?

Por que estivadores?

Por que marinheiros?

Por que carregadores?

Por que carroceiros?

Por que Recôncavo Baiano?

E respostas…

Os Por Quês

E outros Por Quês

Foram aos poucos despontando

E sucedendo

Como os  raios do Sol

No Amanhecer!

Os saveiros conduziam diariamente a produção do Recôncavo entre as cidades litorâneas e ribeirinhas e destas para Salvador, o porto de exportação, onde aportavam na Rampa do Mercado Modelo, na enseada de Água dos Meninos, com paradas obrigatórias ou facultativas em portos da Ilha de Itaparica e de Maré, consoante os ventos e as marés… a necessidade de descanso ou reabastecimento de água ou mantimento… outros alguma motivação imprevista…

E outras questões foram surgindo nos vai-e-vens dos pensamentos… nas gingas e nos floreios da meditação…

Por que encontramos capoeira em Nazaré das Farinhas, Cachoeira e São Felix, porém não em Muritiba?[1]

Os saveiros nas viagens para o Rio de Janeiro alcançavam Morro de São Paulo e São Jorge dos Ilhéus… Por que encontramos capoeira em Ilhéus e não em Morro de São Paulo?

Por que não localizamos capoeira em Jaguaripe,Jeribatuba (Catu)[2], São Roque, Itaparica e Ilha de Maré… Desapareceu ou não existiu?

Por que não detectamos capoeira nos resíduos de quilombo, especialmente se considerarmos a capoeira como um luta de resistência?

Por que não descobrimos capoeira em Cruz das Almas e no sertão baiano?

Mestre Ezequiel

“Ziquié” no falar do Mestre…

Angoleiro convertido á Regioná, declama ostensivamente:

Eu aprendi capoeira

Na Rampa e no Cais da Bahia[3]

Eu vim de Maré…

No saveiro de Mestre João…[4]


Das histórias que ouvi em Santo Amaro da Purificação, Cachoeira de São Felix, Jaguaripe, Itaparica e das conversas pessoais com Mestre Tiburcinho, cliente, mestre e amigo…

E…

Pela observação das rodas onde passei…

Concluí que a capoeira baiana surge inicialmente no Recôncavo Salvadorenho, provavelmente em Santo Amaro da Purificação ou Cachoeira de S. Felix, entre os trabalhadores do cais.

Nos portos encontramos embarcadiços, estivadores, carregadores, condutores de cargas em animais e veículos de tração animal, que denominamos população portuária.

Trabalhadores fortes, atléticos, afeitos a trabalhos pesados, com intervalos livres entre as tarefas, durantes os quais podem se entregarem brincadeiras, chistes, jogos, danças e folguedos similares, naturalmente acompanhados de bebericações… marafa[5]fubuia[6]que geram alegria e ousadia pela desinibição que produzem.

Pela própria natureza e cultura, os africanos e seus descendentes são propensos aos cantos e danças nos ritmos oriundos dos atabaques, acompanhados por exibições de habilidades físicas e coreográficas em que cada um procura superar os demais…

As brincadeiras assumem naturalmente o caráter de competição, cada qual buscando demonstrar superioridade de força, criatividade e inteligência sob o comando da musica a que estão habituados, envolvendo manobras e movimentos típicos do ambiente cultural da terra natal.

Acredito, portanto, que a capoeira da Bahia tenha surgido das brincadeiras, vadiações, folguedos em momentos de lazer de homens fortes, alegres, autoconfiantes e bebericantes[7]sob o signo da fraternidade e  do respeito mútuo.

A sua propagação ocorreu e continua ocorrendo espontaneamente pelo fascínio de seu ritmo, de sua musicalidade e pela impressão de vivacidade, alegria, saúde, autodomínio, habilidade, autocontrole, felicidade, autoconfiança, força, segurança e sensação de felicidade, beatitude[8], bem-aventurança transmitidas pela sua coreografia.

Ainda hoje é praticamente impossível resistir ao ritmo dos “Filhos de Gandhi”, o Ijexá, o mesmo da capoeira ou assistir uma exibição de Capoeira sem deixar de se sintonizar com o toque do berimbau, o compasso ijexá do pandeiro e de ser envolvido pela magia da melopéia da orquestra (charanga como preferia  Mestre Pastinha) e coro, deixando se transfigurar pela beleza daqueles movimentos tão naturais e ágeis, acender no imo do coração a chama do desejo de imitá-los…  procurar um Mestre e.aprender capoeira…

Por isto Pastinha cantou….

Todos pode aprendê

Generá i tambeim douto![9]

Capoeira é pior do que bexiga…

Diabolicamente contagiante[10]

A bexiga pega até pelo ar vizinho…

A Capoeira contamina à distância…

Pelas ondas sonoras do berimbau…

Que vão muito longe e…

Explodem no coração!


Aqueles mestiços culturais voltavam às senzalas… visitavam portos vizinhos… freqüentavam festas populares e até organizavam suas próprias festas e encontros, onde contaminavam os assistentes…

Assim a Capoeira se espalhou…

Como mancha de óleo pelos mares, rios e portos!

Como o vento pelas matas circundantes!

Pelas povoações!

Pelas cidades vizinhas!

Por onde houvesse gente para encantar!

E…

Finalmente surgiram as perguntas mais importantes.

Ø      Por que nas referências históricas da Capoeira do Rio de Janeiro não se descreve, nem cita a presença do berimbau, da orquestra, dos cânticos, das palmas e das rodas de capoeira?

Ø      Existe capoeira sem música?

Ø      Podemos admitir mais de um significado para capoeira?

o        Sensu latu: Movimentos e manobras de luta simulada baseados em cultura africana sem acompanhamento musical?

§         A Capoeira do Rio de Janeiro?

o        Sensu strictu: O Jogo de Capoeira propriamente dito, i.e.: Movimentos e manobras de luta simulada sob a regência de orquestra, com o berimbau como determinante da ginga, o pandeiro (com poucas soalhas[11]) como marcador do ritmo e do andamento[12] e os cânticos com versos com rima tonal ao modo iorubano.

§         A Capoeira como conhecemos e reconhecemos nos dias atuais, a Capoeira Baiana, espalhada pelo Mundo.

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Questões que merecem consideração, reflexões profundas, análise, pesquisas e estudos de parte de estudiosos de história e origem da Capoeira por abrirem mais uma área de trabalho.


[1] Zona fumageira, fonte de produto de exportação e apenas a cerca de 10 Km acima de Cachoeira de São Felix

[2] Onde existem estaleiros para saveiros.

[3] Bahia aqui é usado como sinônimo de Salvador/BA.

[4] Mestre ou Capitão é o comandante dos saveiros, no linguajar dos saveiristas baianos, haja visto Capitão Bentinho, o Mestre do Mestre tido e cantado como Capitão (Comandante) da Cia. De Navegação Bahiana no imaginário capoeirano popular baianês.

[5] Aguardente, cachaça

[6] Idem

[7] De beber + -icar.] V. t. d.   1.   Beber a goles, aos poucos: &   V. int.  2.          Beber pouco, mas freqüentemente. Dic. Aurélio

[8] [Do lat. beatitudine.]S. f.  1.     Felicidade eterna e suprema; bem-aventurança.  2.        Gozo da alma dos que se absorvem em contemplações místicas.  3. Felicidade tranqüila e serena; bem-estar. Dic. Aurélio

[9] Todos podem aprender… General e também doutor…

[10] Varíola

[11] [Do lat. vulg. *sonacula, ‘coisinhas soantes’.] S. f.  1.   Cada uma das chapas metálicas do pandeiro. Dic. Aurélio

[12] Bimba me ensinou que o pandeiro (com poucas soalhas) é o atabaque dos capoeiristas.



About Author

Angelo Augusto Decanio Filho

Angelo Augusto Decanio Filho, filho de Dr. Angelo Augusto Decanio e de Georgina de Barros Decanio, nascido em Salvador/BA/BR, em 12 de Fevereiro de 1923. Casado com Maria Isabel Pereira Decanio. Medico, Professor Universitário, Capoeirista. Aluno de Mestre Bimba desde 1938.

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