MENTIRAS QUE PAREDEM VERDADES – ALGUNS SOFISMAS SOBRE CAPOEIRA

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MENTIRAS QUE PAREDEM VERDADES – ALGUNS SOFISMAS SOBRE CAPOEIRA


A violência é um traço característico da sociedade contemporânea. Manifesta-se de diferentes formas em nosso cotidiano: na televisão, no cinema, nos videogames, nos diversos esportes, na política e nas várias esferas do comportamento humano. Em termos globais, o item que mais consome os orçamentos dos diversos países do mundo são os gastos com guerras. Este cenário se agrava ainda mais em países como o Brasil, marcado pelas desigualdades sociais, A violência, então, passa a fazer parte do nosso cotidiano e as pessoas são obrigadas a conviver com ela de diferentes formas.

A capoeira, sendo uma modalidade de luta, está particularmente sujeita a influenciar-se pelo ambiente de agressividade presente em nossa sociedade. Cabe, então, refletir sobre o problema e compreender de que maneira parte significativa dos praticantes da arte-luta brasileira pretende justificar atitudes que muitas vezes ainda que procurando apoiar-se nas tradições da capoeira ferem os mais elementares princípios éticos que devem nortear nossa vida social.

Sem dúvida, a superação do estado atual em que se encontra a capoeira passa pela análise dos argumentos mais utilizados por aqueles que imaginam ter o poder de decidir sobre os padrões sobre os quais a luta brasileira se apoia ou, segundo tais pessoas , deveria se apoiar.
Nestes breves comentários pretendemos destacar alguns pontos do discursos que, em nome das tradições da capoeira, termina por transformá-la numa prática violenta e anti-pedagógica.

Embora desconhecedores da história de conflitos e resistências da arte-luta brasileira, os arautos desta suposta tradição têm elaborado toda uma argumentação para justificar a introdução à exaustão, de técnicas alheias á capoeira e envolvê-la num espirito profundamente destrutivo. Acreditamos ser possível desvendar o caráter mistificador desta argumentação contribuindo assim, ainda que dentro do estrito limite daqueles capoeiristas abertos à reflexão sobre a prática que desenvolvem , para evitar que a capoeira continue nesta paradoxal trajetória de progredir tecnicamente e regredir eticamente. Afinal, enquanto a sociedade está na era do computador, muitos capoeiristas ainda se encontram na era da navalha.

Portanto, propomo-nos enumerar alguns sofismas que estão na base de certas concepções de capoeira veiculadas por diversos grupos de praticantes por todo o país. Sofismas são formas de raciocínio falsas com aparência de verdadeira, e é aí que reside sua capacidade de produzir conceitos falseados. Sabemos que uma meia-verdade mente mais do que uma mentira, justamente porque sua metade verdadeira lhe empresta uma aparência de justiça. Passemos, pois, ao que nos interessa mais diretamente.

PRIMEIRO SOFISMA

A capoeira foi criada pelos escravos na luta pela libertação, logo ela uma luta essencialmente violenta, uma vez que o escravo não podia medir esforços ara obter a liberdade. Portanto, a violência é um aspecto sem o qual a capoeira perde a sua identidade.
Este talvez seja o argumento mais citado por aqueles que pretendem fazer da capoeira uma espécie de "arte marcial completa", envolvendo desde os golpes traumáticos com pés e mãos, até projeções, torções e luta de chão, atingindo indistintamente todas as partes do corpo do adversário, sem qualquer tipo de proteção.

O primeiro sofisma é um bom exemplo de nossa explicação anterior: parte de um fato verdadeiro para uma conclusão falas. É verdade indiscutível o fato de que a luta pela liberdade impunha ao escravo uma extrema agressividade, na forma de resistência a um sistema opressor. Mesmo porque estava em jogo o maior bem de que dispõe o homem, sem o qual é mesmo de se questionar se a vida vale a pena, isto é, a liberdade. Porém, o equívoco parece estar em transportar o fato para os tempos presentes e imaginar que, em função desta realidade histórica, a capoeira jamais poderá ser praticada sobre outras bases, mais adequada aos nossos tempos, que exigem não mais a luta pela liberdade do corpo, mas uma intensa capacidade de reagir criticamente aos processos de massificação que cada vez mais uniformizam a sociedade enclausuram as consciências dos homens.

É claro que, sendo uma modalidade de luta, a capoeira deve trabalhar a agressividade de seus praticantes, visando atingir elevado nível de preparação física em seus golpes. No entanto , sendo também uma prática desportiva institucionalizada, é necessário que o principio do respeito à integridade física e moral de seus praticantes estejam acima de tudo. Para isso, é preciso, em alguns casos, estabelecer regras e limites, sem os quais a capoeira se confunde com o vale-tudo, que, como se sabe, é um tipo de competição, e não uma modalidade esportiva.

SEGUNDO SOFISMA

A capoeira até há muito pouco tempo, foi uma luta praticada exclusivamente por indivíduos das classes marginalizadas, que não dispunham de espaços apropriados para o desenvolvimento de suas manifestações culturais. Assim a capoeira nasceu se desenvolveu nas ruas. Portanto, a rua é um local que, segundo as tradições da capoeira, dever ser utilizado para a sua pratica nos tempos de hoje.Mais uma vez pode-se verificar o apelo às tradições para justificar toda sorte de atitudes e também, novamente, temos um raciocínio que não considera a mudança histórica na nossa sociedade e muito menos a transformação do papel da capoeira nesta mesma sociedade. É verdade que a capoeira [e fruto da resistência heróica das amadas sociais subalternas brasileiras, onde nasceu e se desenvolveu até a década de trinta deste século, quando Mestre Bimba procedeu à sua inserção junto às camadas sociais médias e superiores. Sem dúvida a rua foi – continua sendo – um verdadeiro "espaço cultural" para as classes oprimidas por um sistema social excludente. No entanto, é preciso perceber que as transformações sociais e aquelas ocorridas no âmbito da própria capoeira impõem uma reinterpretarção de sua prática nas ruas.

Inicialmente, convém observar que apenas em pouquíssimas situações a capoeira ainda é praticada nas ruas por falta dum espaço mais adequado. Além disso, uma vez que uma das principais bandeiras dos capoeiristas da atualidade consiste em retirar a capoeira de sua condição de marginalidade elevá-la ao plano de esporte e tradição cultural reconhecida respeitada, faz-se necessário lutar para que as instituições, cada vez mais ofereçam condições necessárias para que a luta brasileira conquiste espaços culturais mais dignos de sua história de resistência. Uma análise mais pormenorizada deste problema nos obrigaria também a detalhar o fato de que a sua, enquanto espaço de produção cultural, tem mudado significativamente seu papel na sociedade brasileira nas últimas décadas. Referimo-nos , principalmente, ao fenômeno da violência que, como sabemos, assume configurações completamente diferentes da malandragem de outrora.

TERCEIRO SOFISMA

Mais uma vez , temos uma afirmação que não considera a inserção atual da capoeira na sociedade brasileira. Afinal, a partir do momento em que os capoeiristas se propõem a conviver com instituições mais ou menos formalizadas na sociedade, isto é, ensinar e praticar a luta em clubes, escolas, universidades ou associações de qualquer tipo, faz-se necessário reconhecer como necessárias as regras de conduta e convívio social vigentes nestas instituições. Além disso, o recurso à alegação de que a cultura brasileira tem como característica o "jeitinho" e a "malandragem" é profundamente questionável, na medida em que a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática passa pela superação de certos traços supostamente identificadores da cultura nacional. Em outras palavras, quando afirmamos que no Brasil as coisas funcionam à base do improviso – reconhecendo como grande qualidade a nossa suposta capacidade de improvisar e burlar as regras – podemos estar defendendo certas atitudes que desrespeitem os direitos mais elementares das pessoas. No caso duma luta, r exemplo, a liberdade de burlar regras ou propor que não existam pode significar a colocação de vidas em risco.

QUARTO SOFISMA

O capoeirista, sendo um lutador, não deve, sob qualquer argumento, recusar-se a jogar com outro capoeirista quando estiver em uma roda ou outro evento, uma vez que assim agiria covardemente e feriria os princípios da própria capoeira, uma luta caracterizada pelo seu poder de combate.
Como nos outros sofismas, temos mais uma afirmação que não percebe as novas determinações a que está sujeita a capoeira. Não faz sentido exigirmos que o capoeirista hoje se procure se pautar por uma espécie de "ética do guerreiro", uma vez que, cada vez mais, a capoeira precisa conviver com um amplo universo de outras atividades presentes na vida do indivíduo. Ora, haveria algum sentido em se impor aos praticantes do caratê ou arte marcial uma conduta semelhante à dos antigos samurais do Oriente, sem adaptações ao mundo moderno? É claro que não, assim como o capoeirista de hoje não pode ser associado à figura do escravo que combatia pela sua liberdade. Desta maneira, faz-se necessário que o jogador de capoeira tenha o bom senso de exigir que seja respeitada a sua opção de praticá-la como uma luta que enriquece a sua vida, e não como um combate desesperado em que a coloca em perigo. Afinal a libertação maior que a capoeira pode nos permitir no mundo de hoje é livrar-nos das castrações que a sociedade no impõe cotidianamente. A alforria que os tempos atuais exigem deve romper com os grilhões que prendem não s nossas pernas ou braços, mas que impedem nossos pensamentos no rumo do desenvolvimento das capacidades criativas e da expressão de nossas verdadeiras identidades.

O escravo, quando fugia para aquilombar-se, ou mesmo chegava a matar para obter sua liberdade, agia movido pelos instintos de vida, de preservação de seu bem maior, a liberdade. Por maiores que fossem seus sofrimentos, esse negro era, como todos os homens que lutam pela liberdade, a corporificação da luta pela sobrevivência. Seus golpes eram pela igualdade em relação à liberdade que gozava o senhor.

Alguns capoeiristas de hoje, quando transcendem os princípios de nossa arte-luta e mesmo valores éticos básicos, estão movidos por que tipos de instintos? Que busca de liberdade há por trás de suas atitudes, muitas vezes violentas? Ao contrário da liberdade há uma tentativa de dominar o outro, de impedir-lhe a liberdade de movimentação, de ferir-lhe moral e fisicamente. Essa forma de se fazer a capoeira busca a destruição do outro e produz a autodestruição do indivíduo que a pratica. Essa capoeira, se vier a predominar sobre a outra, significará o fracasso de um projeto iniciado ainda na África, quando o negro era aprisionado e já começava a pensa em estratégias de libertação.

 

Luis Renato Vieira "Carioquinha" – Brasília/DF



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ÉTICA NA CAPOEIRA

AGRADECIMENTOS

Conscientes do valor da vida e de cada ser humano, reconhecemos e agradecemos, com todo carinho, as pessoas que são marcos em nossas vidas:

  • Deus – Mestre dos Mestres e criador das coisas palpáveis e impalpáveis;
  • Nossa família – pelo carinho, paciência e incentivo naquilo que acreditamos ser contribuiçãopara as mudanças sociais;
  • Mestre Nô – Grande amigo e fonte de uma grande sabedoria e esperança na capoeira-que hoje já é de útilidade pública estadual em alguma parte do país, fruto de sua missão.
  • Mestre Sabiá – Um grande amigo que nos incentiva e confia com a perseverança de um autêntico guerreiro-Badauê.
  • Aos Mestres – Naldinho, Geni, Boa Gente, Tônico, Jair, Henrique, Lázaro e Dalmo, pelas relevantes informações prestadas que foi de suma importância na conclusão deste seminári
  • e ao grande ser humano e companheiro-Rafael Magnata-que sempre nos alertou para o jogo da vida e que de tão especial não conseguimos agradecer com palavras, mas sim, com nosso axé e presença ao seu lado.
  • Aos irmãos capoeiristas da Badauê e da Palmares do Brasil e do Mundo que por amor tornam a capoeira expressão viva de uma nação.
  • Aos alunos formados: Marrudo(Fortaleza- Ceará) e Manga Larga (Aracajú- Sergipe), também pelas informações prestadas.
  • E a todos que admiram e abraçam não só o ser negro, mas esta arte que encanta-capoeira-como uma filosofia de vida e expressão de amor.

Axé.

SUMÁRIO

I – Introdução
II – Negro – Mercado da Escravidão
III – Propósito da Capoeira na Paraíba
IV – Grupo Cultural Lua de Palmares: Propósito do grupo quanto à cultura.
V – O Que é Ética
VI – Ética na Capoeira
VII – Capoeira Mulher

I – INTRODUÇÃO

Comemorar o dia da abolição no Brasil, vem sendo vivenciado com menos intensidade no país. Isso se deve em parte ao afastamento dos órgãos governamentais que não vem dando uma assistência como deveria aos problemas sociais de modo geral.
Um outro fator no esquecimento ou mais especificamente no distanciamento em se comemorar o "Dia da Abolição", -diz respeito aos próprios negros que estão trocando o 13 de maio-marco da abolição, pelo 20 de novembro, denominado de "Dia Nacional da Consciência Negra".
O 13 de maio para muitos negros, principalmente aqueles negros mais conscientes da historia dos seus antepassados, não aceitam o 13 de maio como ato de abolição, defendido com mais rigor pelo movimento negro, como sendo, apenas, um ato, e o é. Já o dia 20 de novembro, aniversário de morte do líder negro Zumbi dos Palmares, que lutando por justiça foi perseguido em toda a sua trajetória histórica, até ter seu corpo esquartejado em 20 de novembro de 1695, após longos anos de lutas contra o racismo e outras discriminações mais vividas pelo povo negro no Brasil. O movimento negro, entidade que luta pela igualdade, vem se distanciando em comemorar o 13 de maio como marco na história do povo negro no Brasil.
Hoje, a constituição brasileira já garante ao negro,um espaço muito significativo dentro da sociedade, garantindo-lhes o direito de se defender juridicamente contra os seus discriminadores, ocorrendo inclusive prisão e indenização por danos     morais se comprovado e reclamado pelo mesmo.
Há de se explicitar também, que o negro de modo geral, deve se inteirar mais nos acontecimentos e participar do processo político do país e investir na educação, no sentido de adquirir conhecimento e consciência, para, a partir daí, o povo negro no Brasil passar a se auto valorizar espontaneamente e conquistar seu espaço, também, na divisão de renda do Brasil.   
Politicamente, os negros hoje já se fazem representar no poder, com uma parcela significativa dentro da política nacional, a exemplo de Carlos Paim, que foi autor recentemente de projeto de Lei ampliando o direito do negro na sua auto defesa
contra o racismo; a deputada Benedita da Silva, o ministro dos desportos Edson Arantes do Nascimento, mundialmente conhecido como Pelé, entre outros que vem sendo exemplos de encorajamento aos negros, para que se conscientizem e passem a participar também desse processo, só assim, o povo negro poderá afastar o "fantasma" , tão presente, da discriminação racial.
O presente trabalho aqui proposto, não pretende discutir especificamente a discriminação propriamente dita, e sim, fazer um breve histórico da trajetória desse povo que foi marco na economia brasileira através dos ciclos da cana-de-açúcar, do ouro e do café. Isto posto, falaremos do legado cultural que é a capoeira, cujo tema aqui enfocado, se denomina "A Ética na Capoeira".

II – NEGRO – MERCADORIA DA ESCRAVIDÃO

A escravidão é uma instituição tão antiga quanto ao gênero humano e de amplitude universal, pois, legitimada pelo direito do mais forte, ocorreu em todos os tempos e em todas as sociedades, até hoje, onde negros continuam sendo marginalizados, sofrendo com o preconceito que surgiu com o sistema capitalista, onde "a metrópole se apropria do excedente realizado pelo escravo que assim favoreceu a acumulação primitiva indispensável ao desenvolvimento europeu". Milhares de escravos foram vítimas da ignorância dos colonizadores e foram "arrancados" de suas famílias ainda em sua tribo, em alguns dos países africanos.  
"Este, é um país formado na concepção de que trabalho é algo que se obriga outro a fazer e pessoas humanas são mercadorias", baseado nesta tese, o Brasil teve três séculos e meio de regime escravocrata e apenas um de trabalho livre. Com isso foram importados 4 milhões de negros africanos.
Esse comércio favorecia tanto ao Brasil como aos países africanos, no entanto, os escravos sofriam
bastante com a viagem que em média duravam 43 dias e poderia até dobrar o tempo dependendo da distância.
Muitos negros morriam na travessia causados por maus tratos, má alimentação, superlotação, doenças. Mas
nem isso fez diminuir o tráfico negreiro e muito menos que o Brasil se tornasse um país de estrangeiros, já que o que predominava eram os africanos e não os crioulos brasileiros.
A maioria dos escravos trazidos para o Brasil pertenciam a dois grandes grupos de língua e cultura bem diferentes: a dos sudaneses- iançãs, mandingas, nagôs e reinos africanos florescentes -eram encontrados nas regiões mais ao norte do litoral
africano e os bantos-cabindas, benguelas, congos,  angolas-estes eram considerados excelentes agricultores.
Dessa forma os negros ocupavam o território brasileiro contribuindo com sua força de trabalho com o enriquecimento dos senhores feudais, por outro lado, eram impedidos de constituírem suas famílias e tinham que anular sua individualidade, reduzindo-o a condição de máquina destituída de vontade própria e cegamente obediente a razões inquestionáveis, assim como não permitiam seu agrupamento para evitar que se conscientizassem de sua condição social.

III – PROPÓSITOS DA CAPOEIRA NA PARAÍBA

A prática da capoeira na Paraíba não é uma constante como na maioria dos Estados. Aqui na década de 70, a capoeira tem sua divulgação através do Grupo Terra Seca, onde se destacam Pássaro Preto, José Menino, Marco Antônio Batista, este último, hoje em plena atividade, lidera o grupo Cultural de Capoeira Badauê de Palmares em Campina Grande e demais cidades do Estado.
Em 1979, o mestre Zumbi-Bahia, implanta um trabalho intensivo com capoeira, mas não obtém os resultados positivos. O trabalho tem sua continuidade com o mestre Cláudio Paulista, que devido a falta de apoio e interesse, desativa a prática da capoeira na Paraíba na Década de 80.
Passados quase 10 anos de silêncio, a capoeira começa a ressurgir (parece que agora é prá ficar), através da Associação Brasileira de Capoeira Palmares, com sede em Salvador -Bahia.
Com um estilo de trabalho muito arrojado, o mestre Norival dos Santos- mestre Nô, líder da Palmares,  implanta o seu trabalho em Campina Grande através do hoje mestre Sabiá, passando a ganhar respeito e interesse por parte dos interessados na prática da capoeira. Mestre Nô com um estilo simples, mas com muita disciplina, vem conquistando de forma espetacular, o interesse das pessoas na prática da capoeira angola na Paraíba.
A filosofia do trabalho do mestre Nô é fazer um atividade cultural e educativa, desmitificando assim, a visão errônea que é atribuída a capoeira pela sociedade de modo geral, e os grupos a ele filiados, estão dando passos importantes no resgate do estudo e prática da capoeira na Paraíba.
Como exemplo, temos os grupos Badauê de Palmares com mestre Sabiá e seus alunos espalhados por todo estado e Grupo Cultural de Capoeira Palmares com mestre Naldinho-em João Pessoa.
Um outro fator importante a se registrar aqui com relação ao trabalho do mestre Nô, é a formação de capoeiristas no grau de mestre, como é o caso do mestre Sabiá, remanascente dos antigos capoeiristas e mestre Naldinho.
Na história da capoeira na Paraíba, não se tem conhecimento da formação de um mestre de capoeira atuando no seu próprio Estado, como é o caso de Sabiá e Naldinho, o que com certeza irá engrandecer o leque de adeptos pela capoeira e firmar a Paraíba no cenário nacional da prática de capoeira, o que a 10 anos atrás não se podia contar com isso. Acreditamos nisso!.

IV – GRUPO DE CAPOEIRA LUA DE PALMARES

Propósitos do grupo quanto a cultura O Grupo Cultural de Capoeira Lua de Palmares, foi criado em 02 de julho de 1990 nas dependências do Serviço Social do Comércio-SESC, sob a orientação do  aluno do mestre Sabiá-Rafael Magnata. A principio, o mencionado instrutor, fora contratado pelo SESC para ministrar aula de capoeira aos componentes do grupo de dança- Tenente Lucena, mas, como atrativo foi aberto a comunidade a participação no grupo de capoeira.
Rafael Magnata, por ser um conhecedor nato da cultura afro, implantou um sistema de cultura através da capoeira, até porque, é proposta da própria Associação Brasileira de Capoeira Palmares, trabalho que projetou o grupo na sociedade paraibana, recebendo convites de escolas e entidades civicas-culturais para apresentação do grupo.
Em 1992, o SESC revoga o direito do grupo atuar em suas dependências, alegando que o grupo não atendia as proposta da entidade. A partir daí, o grupo passa a ter um outra postura. Sem teto para exercer as suas atividades, reduz se a proposta inicial, até por falta de espaço, mas apesar de todos esses atropelos, o grupo se manteve firme no propósito de fazer um trabalho educativo junto a comunidade carente, dando  essa forma um outro contexto a história da capoeira na Paraíba.

V – O QUE É ÉTICA ?

A Ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento. Entretanto, ainda nos é obscuro o comportamento de antigas civilizações, assim como seus conceitos de bem, valor, liberdade, Lei e outros.
O processo de desenvolvimento das civilizações  trouxeram muitas mudanças nos conceitos Éticos aplicados à sociedade; com isso "não são apenas os costumes que variam, mais também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria de um povo a outro.
Os ideais Éticos variam muito, podemos ver no transcorrer da história. Para alguns gregos o "ideal estava na busca teórica e prática da idéia do bem ou estava na felicidade- entendida como uma vida bem ordenada, uma vida virtuosa, onde as capacidades superiores do homem tivessem a preferência".
Para os cristãos o homem viveria para servir a Deus, diretamente, e em seus irmãos; já no período renascentista ou iluminista, ou seja, entre o Século XV e XVIII os burgueses tinham como ideal de uma vida ética "viver de acordo com a própria liberdade pessoal e em termos sociais, o grande lema foi o dos franceses: liberdade, igualdade e fraternidade".
Atualmente, o sistema capitalista é um fator influenciador da ética social, enquanto os pensadores de existência insistem em ter a liberdade como um ideal ético "em termos que privilegiam o aspecto pessoal ou personalista da ética: autenticidade, opção, resoluteza, cuidado etc", e que a maioria dos países ricos buscam a ética do prazer, muitas vezes sem moderação, o mesmo capitalismo reduziu-se à posse material de bens, ou à propriedade do capital".
No entanto este comportamento ético hoje, talvez não vigore como deveria pois há uma forte influência dos meios de comunicação de massa, dos aparatos econômicos, do Estado e das ideologias que nem sempre são de maioria, fazendo com que não haja cidadãos conscientes, e homens livres de pensar e agir. Suas atitudes tornam-se restritas ou impostas por quem detêm o poder; não há um desenvolvimento crítico. O comportamento ético é manipulado na maioria das vezes por termos cidadãos incapazes de julgar e participar conscientemente.
Com isso os maiores problemas éticos de hoje, são em torno da eticidade, ou seja, família, sociedade civil e Estado-a ética não pode ignorar esses fatores. No contexto da família, podemos verificar que "as transformações histórico-sociais exigem hoje, éticas sobre o relacionamento dos pais com os filhos" e isso se dá com a forte influência dos meios de comunicação e, também, o desenvolvimento da mulher na sociedade, assim como outros grupos oprimidos e isso exige uma reformulação ética diante da sociedade de hoje.
A questão ética em relação a sociedade civil não engloba somente a consciência e o comportamento de cada indivíduo; ela está relacionada com o julgamento do sistema econômico e social como um todo.
"Em relação ao Estado, os problemas éticos são muito ricos e complexos", diante da desigualdade social onde quem detêm o poder é quem possui o saber e conseqüentemente "a liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um estado livre e de direito". As Leis, a Constituição, as declarações de direito, a definição dos poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais.

VI – ÉTICA NA CAPOEIRA

"A partir do momento que se corta as raízes como irá se perpetuar a espécie?" (Mestre Nô-ABCP-Ba).
O estudo da Ética na capoeira se faz necessário tendo-se em vista o propósito que a Capoeira Palmares vem implantando na Paraíba e no Brasil.
Partindo deste conceito de ética que diz "ser o estudo das ações ou dos costumes e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento, podemos por meio de uma análise histórica e atual, fazer um estudo do contexto ético na capoeira.
O capoeirista, como sabemos, sempre foi alvo da marginalização, já que a capoeira foi crime previsto pelo Código Penal da República e seu simples exercício na rua davam até seis meses de prisão. Mas para fugir deste conceito o baiano Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mestre Bimba, inovou a capoeira e criou, também, um código de ética rígido que exigia até o ato da higiene pessoal.
Não só Bimba, mas os capoeiristas em geral que trabalharam para o crescimento e valorização dessa arte, sempre buscaram métodos eficazes para bem desenvolvê-la.
Um dos princípios fundamentais, em comum à capoeira Angola e Regional começa com quem joga. Este tem de cumprimentar o parceiro "ao pé do berimbau", quer dizer, agachados perto do instrumento que dará o ritmo dos golpes. Ambos devem estarem limpos, "devidamente trajados", e jamais sem camisa. Deve-se  procurar a harmonia, na qual um movimento de defesa  já é o começo de outro, de ataque, sem ferir o companheiro. Os oponentes não se atracam, mas lutam "por aproximação", respeitando a hora de entrar e sair da roda. E ninguém deve aprender capoeira para sair batendo nos outros. Já dizia o mestre Pastinha que "capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta". Com isso a tática do bom capoeirista sempre foi de se fazer de fraco diante do oponente, tornando em luta violenta no momento certo, mas perigosa sempre.
Com o passar dos anos a luta brasileira tornou-se um pouco mais "respeitada", foi reconhecida pelas  autoridades e divulgada pelo mundo, em contrapartida, inova em sua expressão. Muitos grupos descaracterizaram a capoeira, desincorporando seu jogo ou luta das raízes que até pouco tempo a classificava como uma manifestação folclórica. Mas todo este quadro deixou a capoeira numa situação de conflito sem igual: se mantida e ensinada apenas como manifestação cultural, sem nada acrescentar, provavelmente ela estagnará e não terá sua merecida difusão; se evoluir de maneira desenfreada poderá descaracterizar-se.
Ainda existem alguns mestres que ensinam a seus alunos a luta e impõem à disciplina, o seu ensinamento como uma manifestação de nossa cultura, mesmo assim, muitos adeptos da capoeira a buscam, apenas para cultuar a forma física ou porque é moda. Eles esquecem, e creiamos nós que alguns mestres também, que "capoeira é um diálogo de corpos, "eu venço quando o meu parceiro não tem mais respostas para as minhas perguntas" (Mestre Morais).

O resultado desta nova identidade da capoeira, desvirtuada de suas raízes, são os campeonatos e "vale-tudo". Eles provocam uma enorme evasão nas academias, pois acabam desistimulando o aluno que quer treinar e que busca, na luta brasileira resistência e luta. A capoeira é única, mas nestas competições ela perdeu o estilo da própria luta.
A falta de metodologia de ensino e o desinteresse em aperfeiçoar o conhecimento sobre a arte são os principais motivos apontados por professores e mestres do grupo Palmares. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Capoeira Palmares, mestre Nô, a "questão ética na capoeira está um self-service", onde cada um faz o que quer, deixando para trás toda cultura que a capoeira carrega.
Outro fator de peso no desenvolvimento da capoeira é a sua divulgação na mídia. Com isto ela recebeu novos adeptos, se apresentou aos desconhecidos e conquistou um pouco mais de respeito e confiança. Por outro lado, este crescimento desorganizou toda uma estrutura de trabalho, o que antes era voltado para a conscientização e preservação dos costumes, hoje é  dirigido para performance e/ou vale-tudo. Mesmo com toda esta transformação, ainda não foi extinto pela sociedade o preconceito por aqueles que praticam capoeira. De acordo com o professor Henrique (Kiluangi de Palmares) "nós podemos ter acesso à mídia, isso não é negativo; mas para conseguirmos tirar essa imagem marginal é preciso mostrar que a capoeira realmente mudou, que é uma arte unificada com as camadas sociais, que ela é uma arte do mundo e não de uma região, cidade ou bairro. E para isso, os professores, os instrutores os mestres, ambos tem que passar informações por meio de uma didática-metodologica-que busque disciplinar e formar seus alunos, sem perder o espaço na sociedade e nem enterrar esta cultura de mais de 300 anos".
O ingresso da capoeira nos jogos olímpicos é outra grande conquista, mas preocupa muito. Na pesquisa realizada com os mestres de capoeira tanto angola como regional, no 5?? batizado e troca de cordéis do Grupo Cultural de Capoeira Badauê de Palmares, em março de 1997, verificamos que todos os entrevistados estão a favor desse novo passo mas,ao mesmo tempo, preocupados com as regras que irão prevalecer e, principalmente, com a formação do capoeira. Muitos professores são contra e alegam que "a partir do momento que ela entra em competição, seus adeptos deixam de fazer a parte histórica e cultural da capoeira" para desenvolver o lado agressivo, o que poderá acarretar em "um companheiro querendo destruir o outro por causa de uma medalha", conforme afirmou o mestre Naldinho.
Após conquistar seu espaço e reconhecimento pela  maior parte da sociedade brasileira, a capoeira atingiu uma das áreas fundamentais de necessidade humana e social-a educação. Ela faz parte do currículo em diversas escolas e universidades do país e do mundo. Este ponto é fundamental e gera muitos debates nos grupos, onde, ensinar capoeira é muito mais que fazer um aú ou dar uma chapa de angola. Os experientes professores e mestres acreditam que as escolas e universidades, ao selecionarem seus discentes, devem buscar nestes qualidade, orientação, metodologia, responsabilidade e fundamentos, pois estes são elementos fundamentais para que se ministre uma verdadeira aula de capoeira.
Contudo, esperamos que esse novo contexto histórico-social seja analisado e direcionado para o cumprimento legítimo das atividades da capoeira e que seus adeptos saibam destinguir a ética da estética, assim como a responsabilidade de mais um modismo social.
A ética se tornará real a partir do momento que os capoeiristas forem conscientes e empenhados na valorização e preservação dessa arte que encanta o mundo inteiro.

VII – CAPOEIRA MULHER

"Eu não gostaria de olhar o jardim somente com espinhos… É muito bom ter uma rosa no jardim"

(Mestre Nô-ABCP-BA).

A eterna batalha feminina de conquistar seu espaço já atingiu as "rodas de capoeira" do Brasil e do mundo. O número de capoeirista sempre foi inferior aos dos homens que praticam esta arte. Na década de 40/50 poucas mulheres jogava, entre elas destacamos: "Nega Didi", "Maria Homem", "Satanás", "Maria para o bonde" e "Calça rala", todas alunas do mestre Bimba. Atualmente, principalmente depois da divulgação feita pela mídia, cresceu o número de praticantes tornando as "rodas de capoeira" mistas. Mas este aumento não significa que elas estejam realmente participando, vivenciando a arte da capoeira.
O conceito de frágil não deve ser atribuído as capoeristas; como disse mestre Tonico "a mulher é muito forte porque ela é quem lava, passa, ela cria, ela pari, e tem que ser tratada com carinho e atenção-não como uma pessoa frágil".
Com isso, ela tem sido vítima da discriminação por  ser mulher e não está sendo respeitada e reconhecida como capoeirista.
As músicas de capoeira são preconceituosas a partir do momento que colocam a mulher submissa como "se  dessa mulher fosse minha eu tirava da roda já,já, dava uma surra nela que ela gritava", ou as tratam como objetos sexuais: "mulher prá mim, tem que ser boa na escrita, tem que jogar capoeira, ser boa, gostosa e bonita, bicho bom é mulher". Na maioria das vezes este tipo de música só é cantada quando há meninas jogando na roda.
Isso está sendo recriminado por muitos mestres, principalmente, mestre Nô. Ele também recrimina a diferenciação no estilo de jogo que há no jogo de "um casal" na roda de capoeira. São atitudes paternalistas de proteção descabidas, pelos mestres/instrutores/alunos que ao jogarem com elas fazem um jogo cuidadoso e diferenciado do que fazem entre eles, achando sempre que por serem mais fortes fisicamente também o são capoeiristicamente, o que às vezes não corresponde a verdade.
Todo Bom capoeirista tem o dever de aprender e tocar os instrumentos que compõem a bateria da roda : berimbau,  atabaque, agogô-cantar e, principalmente, desenvolver seu jogo a fim de aprimorar a luta, o jogo, a dança brasileira. Por tudo isso a capoeira mulher tem que buscar seu espaço, caso contrário continuará sendo dito que "quem toca pandeiro é homem e quem bate palma é mulher" e elas não são enfeites de roda.
Outro problema em discussão é o relacionamento mestres/capoeiristas homens e alunas. "A abordagem sexual às vezes, verdadeiros estupros de dignidade (também físico) ocorre tanto em academias/grupos do Brasil como de outros países. Mestres que não estão preparados e vindos de condições onde não tiveram oportunidade de projeção artística/cultural/social (às vezes também financeiras) sentem-se no direito de pensar, e agir, como se todas as alunas estivessem a sua disposição, causando com isso embaraços, traumas e revoltas que, muitas vezes levam boas promessas de capoeiristas a abandonarem a arte.
Mas isto não descarta, também, a necessidade que tem algumas alunas de cortejarem o mestre e/ou capoeirista do grupo ou academ ia. Isto se torna comum sob o ponto de vista humano, onde sabemos que a tendência é do homem e da mulher se unirem.
A realidade diverge muito dos fundamentos. Não há respeito, critérios e discrição nos relacionamentos, da mesma forma que um aluno, instrutor ou mestre vai a outros grupos/academias assediar as alunas, muitas delas entram na capoeira atraída pelo encanto de seus praticantes. Outras são verdadeiras caçadoras em eventos, assediando os capoeiristas visitantes, tonando-se vulgares.
"A mulher á buscando conquistar seus espaços mesmo porque é muito bom ter uma rosa no jardim-agora, também, precisa fazer com que haja uma disciplina, haja uma informação para ambos os sexos, para que não venham confundir as coisas", disse mestre Nô.
Sabemos que este tipo de comportamento não será modificado do "dia pra noite", mas cabe aos instrutores, professores e mestres disciplinar e orientar seus alunos (as) em relação a este tipo de fato e direcionar suas aulas de forma educativa e profissional, a fim de que a capoeira não perca tantos adeptos por causa de pessoas mal intencionadas que não buscam o exercício e conhecimento da cultura brasileira mas sim, denegrir sua imagem por meio de atos sem respeito a toda uma filosofia cultural e fundamentos básicos.
Porém, é importante lembrar que os grandes mestres como: Bimba, Pastinha, Cobrinha Verde, Valdemar, Maré, Noronha, entre outros, jamais fizeram músicas achincalhando qualquer mulher, muito pelo contrário, elogiam sempre.

  • http://www.bahianet.com.br/gunga/
  • ALMEIDA, Raimundo Cesar Alves de- A Saga do Mestre Bimba-Salvador – Ginga Associação de Capoeira, 1994.
  • Durkheim, Émile: Sociologia:Organizador: José Albertino Rodrigues-7a edição-São Paulo-SP-1995.
  • MOURA, Jair Mestre Bimba: A Crônica da Capoeiragem – Fundação Mestre Bimba, Salvador; 1991
  • QUEIROZ , Suely Robles Reis de. Escravidão Negra no Brasil. Série Princípios, Ed. Ática, 1987.
  • VALLS, Álvaro L.M. O que é Ética. Ed. Brasiliense, 8a edição, 1994.
  • OUTROS:
 
Patricia Morais – João Pessoa/PB – Outubro/97

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A RASTEIRA NA CAPOEIRA

Ultimamente, na capoeira no São Paulo e ainda mais na Europa, lamento a quase-disaparição da rasteira.
A rasteira foi um símbolo de perícia dos capoeiristas.
Era motivo de horas de treinamento na academia.
Para conseguir o sucesso de colocar uma rasteira certeira, os capoeiristas trabalhavam o parceiro; existia o floreio, a ginga, as "enganações" que fazem parte da capoeira.
Não devemos deixar sumir coisa tão importante da capoeira.
Lembro de um caso que demonstra como considerada era a rasteira, no tempo ainda recente que eu treinava na academia de Mestre Nô.
Um certo aluno, formado depois de anos de aprendizagem, considerou que, com a sua forma física e sua experiência, superava o seu mestre. Desafiou o mestre Nô num sábado a frente de todos os alunos e de diversas visitas. Nô foi para a roda, dizendo que se perdia, ia embora, deixando o aluno senhor da academia.

Começou o jogo, num compasso médio, sem cantiga, e demorou bastante tempo. Havia muita tensão; quem tocava, tocava, os demais permaneciam silenciosos.
Havia momentos de superioridade de um sobre outro, e depois virava a vantagem.
ô cozinhou o aluno até dar uma rasteira fantástica que pegou nas duas pernas e mandou o aluno com as nádegas no chão.
O aluno com raiva tentou partir para murros, mas os outros impediram. Ele, no final, ficou tão desgostoso que abandonou a capoeira.
É um caso entre muitos que eu vi, que dá para comprovar a importância simbólica da rasteira na capoeira.
Quem não lembra do talento do mestre Canjiquinha, de Um-por-Um (da Massaranduba), de Marcos "Alabama", na rasteira?
Nos batizados, a conclusão do jogo do novato era a derrubada com rasteira, excluindo outras formas de desequilibrantes.

Hoje vemos capoeiras que se dizem excepcionais não conseguirem dar uma rasteira nos alunos que se batizam. Vemos as intimidações dos capoeiras aos novatos, e golpes traumatizantes e balões efetuados sem técnica para derrubá-los. É lamentável ver que a nova geração de capoeiras tem elementos que não se orgulham numa técnica, e ficam tão inseguros na sua arte, que não abrem o jogo (mesmo que fosse no intuito de derrubar) para principiantes de uns meses de treinamento. Quem está assistindo de longe, vê as oportunidades que eles tem de fazer. Eles não o fazem, preferindo os movimentos violentos, para tristeza dos presentes, sejam eles alunos, parentes ou espectadores que conhecem a arte.

Parece, então, que a rasteira saiu do cardápio de muitos capoeiristas.

Por que?

Será que novos métodos de treinamento excluíram a rasteira? Será que não faz parte da capoeira moderna? Será que a rasteira exige demais destes novos donos da capoeira?
A rasteira pede muita consciência do outro. Assim que já notei, é preciso trabalhar, cozinhar bastante o oponente para que este se jogue num golpe decisivo… que acaba na própria derrubada. É o parecer de um mestre; mas precisa de cabeça, e de tempo.
Os jogos que assistimos tem por objetivo principal de mostrar movimentos. Sejam agressivos ou acrobáticos, não importa, os movimentos superam na mente dos jogadores a tática, a perícia na arte de manobrar o outro.
Em geral, concordamos com os que acham, como mestre Decanio, que o compasso rápido demais e a vontade de se impor num "vale tudo" prejudicam o jogo da capoeira, tirando a ginga, a rasteira, tudo que faz a beleza da nossa arte.
Se, como suponho, a capoeira da Bahia tem alguma coisa para ensinar ao mundo, (em prática para os nossos alunos europeus), é justamente esta coisa original. Por isso, não podemos aceitar ver um elemento fundamental como a rasteira desprezado.

Por isso, desenvolvemos um trabalho básico com nossos alunos, sejam homens ou mulheres, fracos ou fortes, novos ou velhos, no sentido de uma capoeira que se importa com o outro, parceiro e adversário no mesmo tempo.

Lúcia Palmares é enfermeira, baiana, nascida em Salvador em 15/5/1955. Foi aluna de capoeira de Norival Moreira de Oliveira, o Mestre Nô, na Academia Orixás da Bahia na Maçaranduba/Salvador/BA, a partir de 1971. Recebeu o cordão de professora em 1979. Ensinou na academia Centro Suburbano de Capoeira (rua 2 de Julho, 19, Alto de Coutos) do Mestre Dinelson, de 1980 a 1990. Em 1987 recebeu o cordel de Contra-Mestre entregue pelo Mestre Nô. Em 1992 saiu de Salvador, foi para Santos (SP) continuou ensinando a capoeira trabalhando numa ONG. Em 1995  mudou se para a França. Hoje está começando novo grupo em Paris e pesquisando os aspectos culturais da capoeira. Poderá ser contatada pelo e-mail: polbrian@worldnet.fr

 

Lúcia Palmares – Paris/França


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escudo_ccfr

A ORIGEM DO ESCUDO DO CENTRO DE CULTURA FÍSICA REGIONAL DA BAHIA

Durante o longo período de luta pela regulamentação da capoeira pela FBP (FEDERAÇÃO BAIANA DE PUGILISMO), para enquadrar a “academia” na legislação vigente, que não permitia o uso do termo academia, bem como de escola, em entidades esportivas sugeri a substituição do nome clássico para “Centro de Cultura Física“, mais expressivo e abrangente, complementado pelo atributo de “Regional Baiano“, alusivo à luta regional baiana.
Por ocasião da formatura da minha turma (Decanio, Nilton, e Maia) o uniforme de formatura da academia de Mestre Bimba era calça branca, camisa listada azul e branca e sapato de tênis branco, como se pode observar numa fotografia publicada em vários clássicos da literatura do nosso esporte.

Nota: Nosso quadro de formatura (quadro com os retratos e os nomes dos formados, paraninfo e homenageados, de modo similar ao costume das escolas superiores. Nem sempre correspondem ao ano da graduação, pois esperávamos juntar 4 a 5 para completar o elenco, deste modo num mesmo quadro podemos encontrar alunos de diversas turmas) incluiu o meu compadre Luizinho, servente de pedreiro, com a mão esquerda esmagada por acidente de trabalho, pertencente ao grupo de alunos do mato (que não pertenciam a escolas superiores), mais antigo, formado sem solenidade.
Escolhemos como padrinho o nosso contramestre, Ruy Gouveia.
Compadre Luizinho era um testemunho vivo de que os defeitos físicos não impedem a prática da capoeira desde que podem ser contornados pela vontade do praticante.
Morreu tragicamente em acidente de trabalho, durante pintura do Elevador Lacerda, ao cair do andaime sem a proteção do cinto de segurança. Na tentativa desesperada para se agarrar às paredes ásperas da construção desgastou os dedos e o carpo. Chegou à marquise onde encerrou sua carreira, de operário e de atleta, sem as mãos, cujos fragmentos marcaram, com sangue e pedaços de carne, seu protesto no concreto do edifício.

A dificuldade em aquisição das camisas listadas; vendidas em lotes de 11 jogadores, alguns reservas e goleiros, sem opção de escolha de tamanho por serem usadas pelos times de futebol, nos obrigou a procurar uma solução menos penosa.
Em torno de 1945 Mestre Bimba, atendendo a sugestão que lhe fiz, decidiu adotar a camisa de malha de algodão branca para os formados, conservando a antiga camisa listada azul e branca como distintivo para o mestre.
Para completar o uniforme e quebrar a monotonia da camisa branca, desenhei então um escudo com o signo de São Salomão consoante a tradição dos capoeiristas, que me acostumei a ver gravado pelos carroceiros na estrutura dos seus veículos de carga, com a troca da estrela de cinco pontas pela de seis pontas, para melhorar o efeito estético, acrescentando na área central, um pequeno círculo contendo a letra R, abreviação de Regional.

Optei pela estrela de seis pontos, formada pela superposição de triângulos eqüiláteros, pela simetria dentro do campo circunscrito pelo escudo ogival, forma que melhor se prestava ao efeito estético desejado.
Nos intervalos entre as pontas das estrelas apliquei traços arciformes azuis, circunscrevendo a estrela central e, na parte superior da ogiva, dois traços verticais para quebrar a monotonia do fundo branco.
Naquela ocasião desenhei vários modelos, com molduras diferentes, bem como símbolos e siglas, dos quais as mãos habilidosas de Da. Berenice, minha Mãe Bena (então Rainha e Senhora da Casa de Bimba) confeccionou os protótipos; modelos em tamanho natural, bordados em azul à mão, sobre tecido branco; dentre os quais a escolha do Mestre, e dos alunos consultados, recaiu, por unanimidade, no atual escudo.

Reforçava a escolha do signo de São Salomão como símbolo da regional o desenrolar da lenda da capoeira conforme Sisnando.
Para melhor efeito estético o escudo deve ser usado na região peitoral, e à esquerda, “do lado do coração”, pelo simbolismo sentimental!
A cruz desenhada acima da imagem estelar é a demonstração da aptidão inata da cultura africana para aceitar os conceitos estranhos sem perder sua autenticidade e assim sobreviver dentro dum ambiente hostil!
Cristianizando a Sabedoria de Salomão pela coroação crucial, o povo brasileiro criou um símbolo, a “Estrela de São Salomão“, capaz de pacificar o encontro de duas culturas conflitantes e que pode unir todos os capoeiristas do mundo!


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POTENCIAL EVOLUTIVO DO GINGADO

A partir do gingado poderemos realizar movimentos, manobras, exercícios, evoluções consoante o ritmo, o objetivo ou o contexto a partir cada um dos segmentos e das múltiplas posturas do corpo.
A
ssim os padrões e variações tendem ao infinito, desde que um só movimento pode ser iniciado de posições e naturesas diferentes, tais como vertical, horizontal, agachada em várias alturas, de frente, de costas, em salto, em giro, etc, sem esquecer o número avantajado de partes anatômicas envolvidas (cada qual com sua posição inicial variável) nem as posições relativas dos diversos segmentos do corpo entre si.
As estas varáveis devemos acrescentar os movimentos e posturas dos componentes de cada segmento em atividade, a velocidade, aceleração, seqüência, simultaneidade e sincronia, entre outros fatores.
A classificação dos movimentos na capoeira pode ser feita:

  • quanto à origem:
    • básicos e derivados;
  • quanto ao objetivo ou à natureza:
    • defesa, esquivas, projeções, desequilíbrios, traumatizantes;
  • quanto à postura:
    • altos e baixos;
  • quanto ao segmento corpóreo envolvido:
    • cabeça, tronco, membros superior e inferior;
  • quanto ao eixo principal:
    • linear, circular, ceifante, giratório, helicóide, complexo;
  • quanto à velocidade:
    • lentos e rápidos.

A partir dos movimentos característicos da capoeira podemos evoluir para diferentes modalidades esportivas, consoante a predominância de movimentos ou manobras:

  • projeções, emprestando uma tonalidade semelhante ao Judô ou ao Aikidô;
  • golpes traumatizantes, assemelhando-se então ao Karatê, savate ou boxe;
  • agarramentos, chaves articulares e estrangulamentos ao modo de luta livre, greco-romana, olímpica, grappling ou Jiu-jitsu;
  • coreografias, de maneira similar ao balé ou samba;
  • acrobacias, lembrando a ginástica olímpica, de solo ou exibições de habilidades circenses;
  • defesa pessoal;
  • exercícios de carga respiratória e circulatória em busca de aptidão física.

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ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da regional o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras.
A preocupação em "soltar os golpes" em detrimento das esquivas, do gingado e da sincronia com toque do berimbau vem deturpando os fundamentos do jogo de capoeira e gerando um estilo violento e potencialmente muito perigoso para os seus praticantes.
Além dos acidentes de maior ou menor gravidade durante a prática da regional, hoje infelizmente tão freqüentes, encontramos algumas falhas de caráter técnico associadas que tentaremos enumerar e discutir.

O afastamento excessivo entre os pés, o movimento de balanceio maciço do tronco e fuga para traz, impedem a distribuição do peso do corpo entre os dois pontos de apoio, impedindo os giros de cintura nas esquivas e descidas defensivas durante o gingado.
A falta dos movimentos de esquiva para baixo, negativa e cocorinha, possibilita o emprego dos movimentos de ataque de contra-ataque de membros superiores (socos. galopantes, asfixiantes, bochechos, telefone, etc.), mais fáceis e mais violentos, porém contrários à natureza e aos princípios éticos da capoeira.
A violência é decorrente da falta do gingado, da disposição mental para o ataque em lugar da predisposição à esquiva, subseqüentes ao ritmo excessivamente rápido dos toque de berimbau e predominância da atitude belicosa, levam a um jogo a extremamente agressivo, impedindo o floreio e as esquivas típicas da capoeira.
Dentre os movimentos de esquiva destacamos a falta da cocorinha, movimento muito apropriado para a prática da rasteira, outro elemento pouco encontradiço nos jogos atuais.

Um defeito que estamos observando na cocorinha é aquele do apoio nas pontas dos pés, em lugar do assentamento das suas plantas no solo, como recomendava Bimba, que além de melhor apoio, produz o alongamento dos músculos das panturrilhas melhorando a flexibilidade dos movimentos e a agilidade.
Outro defeito é a queda para traz durante a cocorinha, em queda de quatro ou movimento de aranha, sempre condenado pelo Mestre, que além de tornar os deslocamentos e esquivas lentos, expõe o peito e ventre indefesos aos ataques mais violentos do parceiro.
A defesa por bloqueio, adquirida do karatê e jiu-jitsu, em lugar da defensiva por esquiva acompanhando a direção do ataque e proteção do alvo pela mão em movimento, enrijece o corpo, diminui a agilidade, quebra o fluxo do jogo e propicia maior impacto ao receber o golpe traumático. O bloqueio reflete a falta de golpe de vista e do reflexo de esquiva característico do capoeirista, traduzindo deficiência do treinamento e antecipando a possibilidade de acidente mais grave.

O afastamento excessivo entre os parceiros do jogo de capoeira permite movimentos violentos, descontrolados, despropositados, inócuos, por não poderem atingir o alvo dada o distanciamento, porém que ao alcançarem acidentalmente pontos vitais do parceiro podem causar lesões graves ou morte.
Perdemos assim o caráter festivo da capoeira antiga e evoluímos (?) para estilo mórbido capaz de gerar a morte de parceiros que deviam estar irmanados por esporte tão belo e pacífico.
A propósito da prevenção dos acidentes e óbitos, devemos lembrar os conselhos encontrados em "A herança de Pastinha" (Decanio Filho, A. A. – Coleção S. Salomão 3) que transcrevemos a seguir:

1.4.21 – … "aprender municiosamente ás regras da capoeira"… 

"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar municiosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,"… (8a,15-23;8a,20-23;8b,1-2)

Pastinha sabiamente reitera…
… é indispensável o código de honra…
… a ser obedecido pelos capoeiristas…
… "é o controle do jogo"…
… pelo juiz… pelas regras… regulamentos…
… e pelo ritmo da orquestra…
… "que evita a violência e os acidentes"…
… vale a repetição!

1.4.22 – …"a capoeira vem amofinando-se"
… "e a capoeira vem amofinando-se quando no passado ela era violenta, muitos mestres, e outros nos chamavam atensão, quando não estava no ritimo, esplicava com decencia, e dava-nos educação dentro do esporte da capoeira, esta é arazão que todos que vieram do passado tem jogo de corpo e ritimo."… (9a,1-9)

… continua a insistência na presença dum juiz…

… árbitro ou mestre de cerimônia …

… para acompanhar a evolução do jogo…

  • … advertir ou interromper a prática…
    • … ante manobras proibidas ou perigosas…
    • … desobediência ao ritmo do toque…
    • … ao cansaço do atleta…
  • … garantir a segurança física…
    • … dos praticantes…
    • … da assistência…
  • … assegurar a beleza do espetáculo…

1.4.38 – …"todos os capoeiristass são maus"… ?
…"todos os capoeiristas são maus para seus camaradas? Mais não são todos, sim, no meu Centro tenho, e como conheço muitos que são educado; e não procura irritar ao companheiro: sim, é porque o mestre não interessa a irritação, e o procura o jeito que favoresse a prendizagem, o quer aprender rapido, e não tem enfluensia." (11b,6-13)

Na capoeira, como em todos os grupos sociais, encontramos os que semeiam a discórdia,
a violência. Alguns por falta de educação, outros por doença mental … ou espiritual?
Coitados!
A maioria da juventude é sempre boa, generosa… … não sofre as "influências" dos maus…
… disse o Mestre!

1.4.39 – …"Não é permitido"…

… ", por mestre nenhum, se ele mestre for conhecedor das regras da capoeira, não consentir jogar em roda, ou grupo sem fiscal, se não tem como pode ter controle, quem ajuda o campo? não pode entra em combate sem chegar sua vez. Todos os capoeiristas tem por dever obder <obedecer> as regras do seu esporte, cooperando para valorizar, porque, somos responsavel pelos erros, no causo de disputa, ou dezafio, procurar as autoridade é um juiz." (11b,13-23; 12a,1)

A insistência do Velho Mestre, na obediência aos regulamentos e regras, na submissão ao árbitro, durante o desenrolar do jogo. Coibindo os abusos, frutos do entusiasmo, do calor da disputa, de diferenças pessoais, atinge aqui o seu ponto mais alto!

1.4.40 – …"Não deve ser aplicado"…

"Não deve ser aplicado <movimento proibido> e nem forçar o seu companheiro para obter recursos <vantagens> é erros gravissimo, esta sujeito o fiscal suspender o jogo." (12a,1-4)

O reforço da autoridade do juiz, aqui chamado de fiscal, permite a interrupção do jogo para proteger a integridade física dos participantes.

…"é fau"!
disse o Mestre…

1.4.41 – …"É proibido no jogo"…

…"É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional <aplicar, usar, empregar> golpes, ou truque, não por, é fau.Os golpes que não pode ser fonsionado em Demonstração; golpes de pescoço", dedo nos olhos," cabeçada solta," cabeçada presa," meia lua baixa," Balão a coitado," rabo de arraia," Tesoura fechada," chibata de clacanhar," chibata de peito de pé," meia lua virada," duas meia lua num lugar só," pulo mortal," virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura," Balão na boca da calça," golpes de joelho e nem truques." (12a,4-16)

Aqui está o rol dos golpes proibidos, especialmente em demonstrações ou jogos públicos, pelo risco do entusiasmo dos oponentes ou por tradição…

1.4.42 – …"é falta usar as mãos"…

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo." (12b,1-10)

Aparece aqui a única diferença, entre os estilos de Bimba e Pastinha. Bimba ao criar um sistema de ensino da capoeira, instrumento de luta, abandonou a tradição de não usar golpes traumáticos de mão. Permissão estendida aos balões e projeções, bem aceitos, estimulados pela difusão das técnica orientaisno meio social em que pontificava.

1.4.31 – …"para valentia"…

"Não queiram a prender a capoeira para valentia, mais sim, para a defeza de sua intregridade fisica, pois um dia, pode ter necessidade de usa-la para sua defeza. Cuja defeza é contra a qualquer agressor, que venha-lhe ao encontro com navalha, faca, foice e outras armas." (10b,17-23)
A defesa pessoal resulta dos reflexos desenvolvidos ao longo dos treinamentos diários, depende de tempo e persistência… como a sabedoria dos mais velhos, escondida sob o branco dos cabelos, surge não se sabe donde… nem como… e nos surpreende na hora certa!

… não se aprende com violência e descontrole…
… "a pressa é inimiga da perfeição"…

1.5.6 – …"a capoeira está dividida em trez parte"…

… "note bem, amigo… a capoeira está dividida em trez parte, a primeira é a comum, é esta que vêr ao publico, a segunda e a terceira, é rezervada no eu de quem aprendeu, e é rezervada com segredo, e depende de p tempo para aprender. a prova está no conhecimento da capoeira do passado, e do prezente, a do passado era violenta era violenta, para malandragem, e a de hoje, é como todos verem, rezevamos a mizeria, pela Democracia. nos queremos divirtimento. E tudo mas depende da raça, de quem aprende a capoeira; e a minha raça ja envelec.ceu, tambem sou tradicional, vivo na Historia da capoeira; e amo ela,"… (14b,8-23
As três faces da capoeira, aqui referidas são:

  • a manifestação exterior, o jogo.

Aparente, exposta a todos presentes, visível

  • nos treinos (mesmo nos chamados secretos)…
  • nas exibições…
  • nas demonstrações…

… a parte física… corporal… … Yin, diriam os orientais!

… as duas restantes são invisíveis, sutis, subjetivas..

… escondidas "no eu de quem aprendeu"… Yang na linguagem oriental!

… o inconsciente e o subconsciente capoeirano…

"istinto" nas palavras de Bimba…

… as partes secretas, " rezervadas" disse Pastinha…

… e assim devem ser preservadas!.

Uma é mais superficial, psicomotora, os reflexos de defesa…… a manha… a malícia

A outra é mais profunda, filosófica, mística…a modificação do modo de viver…

… o Axé da Capoeira!
diria minha Ialorixá Konderenê!
… Taoista!… diria LaoTsé!

2.2.4 – …"destruir os falsos principios"…

"Eu nada aceito, que me venha destruir a teorias arquitetadas, é dever destruir os falsos principios que não constituiram ensinamento: …" (69a,6-10)

Sábia advertência, aos que procuram inovar sem respeitar as tradições, sem conhecer a razão dos rituais, sem conhecer a cultura dos povos que trouxeram os fundamentos musicais e místicos da capoeira. É indispensável estudar a evolução da capoeira, desde as tradições orais africanas preservadas em nossa cultura pelos seus descendentes até nossos dias, para resguardar o seu precioso valor!

2.2.5 – …"procure os bons mestres"…

"Todo ser sabio, procure os bons mestres, e va igualar a esse, porque não é aprendiz dos falso ensino; nào possuem em compensação a vaidade, nem orgulho, porque tudo que ele ensina; não é errado: eles tem experiença, e esta observando." (69a,13-17)

Procurar bons mestres, para não aprender falsos princípios, nem servir de pasto ao orgulho e à vaidade dos falsos mestres!

Sábias palavras!
Capazes de impedir o retorno à barbaria do circo romano, dando a volta por cima do mundo que Deus quis fosse belo e amoroso, diria nosso Mestre Pastinha.
"Eu tirei a capoeira de baixo da pata do boi e vocês estão jogando fora de novo! Não foi para isso que eu criei a regional e deixei de herança para vocês!" – exclamaria nosso Mestre Bimba, triste e inconformado!


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O OLHAR DO CAPOEIRISTA

"No acto da lucta, toda a atenção se concentrava no olhar dos contendores; pois que, um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa, poderiam dar ganho de causa a um dos dois."

Querino, Manoel – "A Capoeira" in "Costumes Africanos no Brasil", Biblioteca de Divulgação Scientifica, vol. xv, pág. 272. Civilização Brasileira, S.A. – Editora. Rio de Janeiro,1928.

"No ato da luta, a atenção se concentrava no olhar dos contendores pois que, um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa poderiam dar ganho de causa a um dos dois."

Querino, Manoel – A Capoeira"in "A Bahia de Outrora", "editorado por Frederico Edelweiss". Livraria Progresso – Editora, Praça da Sé, 26,l955, Salvador, Bahia, pág.73.

Introdução

Quando iniciei a prática da regional fui advertido pelo Mestre Bimba para manter o "adversário" sob o controle visual, procurando evitar encarar diretamente os seus olhos ou alguma outra região em particular, observando sempre disfarçadamente, de soslaio, evitando deste modo que o objetivo do movimento de ataque fosse denunciado pela direção do olhar.
Em linguagem acadêmica, fui aconselhado a usar a visão periférica, única capaz de abranger o parceiro como um todo e o ambiente imediatamente vizinho.
A compreensão e a aplicação dos princípios acima enunciados exige noções básicas sobre visão e seus mecanismos.

Campo visual

Campo visual é todo o espaço visível pelo olho em um dado momento.
Determinamos o limite horizontal do campo visual por meio de manobra simples:

  • fixando o olhar diretamente para a frente, focalizando um ponto imaginário no infinito;
  • colocando um dedo diretamente ante o olho, com o braço estendido, deslocamos o dedo lateralmente na horizontal até o desaparecimento do mesmo no limite exterior do campo visual;
  • a repetição da manobra do lado oposto determina o ângulo abrangido pelos dois olhos.

Visão central e periférica

A atenção do observador pode ser focalizada na área central do campo visual ou procurar abranger o campo em sua totalidade.
A fixação da visão numa determinada área acarreta aumento da nitidez da mesma e redução evidente da percepção do espaço restante.
Controlando a tendência natural de fixação do olhar em algum objeto, principalmente luminoso, é possível manter a percepção de todo o campo visual periférico e deixar operar os reflexos de acompanhamento dos objetos em movimento selecionados inconscientemente por um ordem da vontade (a postura mental do jogador ou lutador), apesar da redução aparente da nitidez dos objetos.
Esta seleção, inconsciente, dos objetos em movimento no campo visual periférico é fruto da atitude mental do capoeirista, que deve ser defensiva ou de esquiva para usar as oportunidades de contra-ataque durante os ataques frustados do adversário.
A visão periférica é usada pelos espiritualistas e parapsicólogos no treinamento para visualização da aura energética que envolve todos os seres, vivos e inanimados.
A possibilidade de antever a intenção do adversário é uma vantagem adicional do uso da visão periférica, uma vez que os fenômenos mentais acarretam modificações da aura, que podem deste modo serem percebidos inconscientemente pelo capoeirista, desencadeando instantaneamente os movimentos de esquiva, defesa ou contra-ataques.
A concentração voluntária da visão no campo central dificulta os reflexos de acompanhamento dos objetos que se deslocam no campo visual periférico.
O olhar manhoso do capoeirista, esguelhado, de soslaio, de través, de lado, oblíquo, que evita olhar diretamente para o objeto interessado (visão central) é a aplicação prática da visão periférica na capoeira.

Movimentos oculares

Pelo interesse para os capoeiristas, destacamos entre os movimentos oculares aqueles que permitem a fixação do olhar, voluntária ou involuntariamente, em determinada área do campo visual.
Os pontos luminosos atraem involuntariamente a visão focal (central), o que dificulta bastante a visão da estrada no cruzamento de veículos à noite.
O objetos em movimento no campo visual, sobretudo os luminosos, provocam "movimentos de perseguição" que acompanham automaticamente o trajeto dos mesmos.
Estes movimentos de perseguição inconsciente de objetos em movimento no campo visual periférico permitem o verdadeiro olhar do capoeirista… desconfiado… manhoso… suspeitoso… oblíquo… de través… de soslaio… porém alerta, pronto para esquiva ou contra-ataque!
A expectativa de esquiva, predominanteno comportamento dos capoeiristas, predispõe à instalação de reflexos defensivos, de esquiva ou fuga, ante movimentos capazes de ameaçar sua estabilidade ou integridade física, complementados por contra-ataques, adequados à abertura na defesa do adversário.
Daí a importância fundamental da esquiva no jogo de capoeira, contrariamente à predisposição belicosa que atribui relevância aos movimentos e golpes de ataque.
No jogo em atitude de esquiva o contra-ataque é natural, inconsciente e instantâneo, sem que necessitemos escolher o alvo, infalível.

Considerações técnicas e táticas finais

Durante o jogo de capoeira devemos obedecer à recomendação de Pantajali aos praticantes de Ioga: manter os olhos desfocado e dirigidos diretamente para o infinito.
Os corredores também adotam olhar semelhante para manter a passada larga, desde que o olhar focalizado no solo em ponto muito próxima acarreta um passo muito curto. O ideal é mirar o infinito com o olhar paralelo ao horizonte.
Fitar um ponto imediatamente adiante do capô ao dirigir um veículo prejudica os reflexos de adaptação ao rumo.
O capoeirista precisa ter noção do adversário como um todo, desde que os ataques poderão partir de qualquer segmento corpóreo, em qualquer movimento ou atitude e qualquer momento.
A focalização da visão em um determinada região, mesmo que seja nos olhos do oponente, impede a visão global (periférica), única capaz de perceber simultaneamente o corpo inteiro do adversário, seu deslocamento, os movimentos dos seus vários segmentos e o espaço circunvizinho.
A concentração da atenção num ponto fixo desencadeia um reflexo de imobilização do pescoço na direção do objeto mirado, incompatível com a mobilidade permanente do capoeirista, retardando o desenvolvimento dos movimentos de esquiva e contra-ataque, além de prejudicar a espontaneidade dos movimentos e manobras inconscientes que ocorrem e embelezam o jogo de capoeira.
Um capoeirista mais experiente pode enganar um parceiro simulando, com o olhar, interesse num determinado ponto (alvo falso) para desviar a atenção do verdadeiro objetivo (alvo verdadeiro) em mente.
A área central da retina é responsável pela "visão tubular" e a permanência no seu emprego acarreta o bloqueio dos reflexos de perseguição dos objetos em movimento no campo visual do observador.
A prática quotidiana, contínua, em ritmo lento, dos movimentos de capoeira desenvolve complexas manobras reflexas de esquiva, defesa, contra-ataque, iniciadas pela captação inconsciente dos deslocamentos de membros ou do corpo do adversário no campo visual do atleta. Manobras que formam a estrutura fundamental, o esqueleto digamos, da defesa pessoal do capoeirista e só ocorrem em ausência da fixação permanente e voluntária da atenção em ponto fixo.
O exercício da capoeira evidentemente aumenta o trânsito de influxos pelas vias de conexões intraencefálicas e logicamente melhora as funções do cérebro como um todo, vez quefacilitando a transmissão de informações como efeito do treinamento a capoeira melhora obviamente o rendimento cerebral.
A observação dos treinamentos nos ensina que a repetição freqüente dos gestos facilita da execução dos movimentos, tornando-os ágeis, leves e elegantes, aumentando a velocidade da resposta reflexa e da execução do movimento propriamente dito.
Um fenômeno corriqueiro e que freqüentemente passa desapercebido, de modo semelhante ao amaciamento dos motores, que no inicio é meio emperrado e subitamente alcança o rendimento pleno.
A capoeira transforma-se assim num instrumento de aperfeiçoamento das funções cerebrais que fazem do Homem a mais bela criação de Deus em nosso mundo animal!

"Num mundo que Deus queria que fosse belo !"
diria nosso Mestre Pastinha…

As considerações acima comprovam sobejamente as vantagens do uso do jogo de capoeira no tratamento dos excepcionais, podendo se estender ao preparo físico dos pilotos para melhor acompanhamento dos enormes e complexos painéis de controle dos modernos aviões, como preconiza o Ten. Esdra Magalhães , "Mestre Damião", aeronauta por conveniência e capoeirista por vocação…
Aliás, durante a segunda grande guerra mundial, os pilotos dos aviões "North America" sediados na Base Aérea de Salvador usaram a prática da regional como terapia contra o estresse e recuperação física.
Nesta ocasião auxiliei, como contra-mestre do nosso Mestre Bimba, o treinamento dos aviadores brasileiros que patrulhavam o nosso litoral, no terraço do Edífício Oceania, onde se hospedavam.


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PRÁ BATÊ NOS OTARU!

(Para bater nos otários)

Bimba ao falar sobre a eficiência da regional sempre enfatizou o elemento surpresa como fator decisivo, evidenciado na sua expressão:

"A regioná num seuve pa brigá c’us companhêro… é prá batê nos otaru!"
(A regional não serve para brigar com os companheiros… é para bater nos otários!)

PORQUE …

  • todos os capoeristas conhecem seus recursos e limitações, tão bem quanto as esquiva e defesas,
  • enquanto os que desconhecem a sua prática (os leigos ou otários) podem ser surpreendidos pelos seus movimentos.
  • A primeira parte da frase acentua a importância do companheirismo que deve existir entre seus alunos, mais evidente noutras recomendações corriqueiras no meu tempo:
    • "A luta regioná num seuve p’a brigá cum ôtru regioná, é bom prús otáru… cúns colega a gente joga regioná…" (A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional…)
    • ou ainda "A genti num deve lutá nu berimbau, deve jogá!" (Não devemos lutar no berimbau, devemos jogar!)

Deste modo verificamos que o Mestre Bimba não preconisava "lutas" entre os seus alunos…
O "esquenta-banho" servia para treinamento de defesa pessoal, de movimentos proibidos sob o ritmo de berimbau, para treinamento de manobras novas, como "tira-teima", drenagem da agressividade ou diferenças pessoais, logo arrefecidas pelo banho frio sob o jato d’água do cano do banheiro, especialmente quando alguém "entrava pelo cano" durante o "esquentamente"…
Acredito que em vida o Mestre jamais aceitaria a desunião e o enfrentamento dos irmãos que deveriam formar uma única família, a dos filhos de Bimba!


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OS AGARRAMENTOS NA CAPOEIRA

Os agarramentos são, como sempre foram, proibidos durante a prática da capoeira, especialmente por impedirem a sintonia com o rimo musical, condição sem a qual não podemos conceber a capoeira baiana.
As palavras manuscritas de Mestre Pastinha, abaixo reproduzida em imagem escaneada e transcritas da página 43, do vol.3, da "Coleção S. Salomão", "A herança de Pastinha", editado por Decanio, demonstram esta tradição ainda conservada pelos atuais praticantes do estilo "angola".
 
Image

1.4.42 – …"é falta usar as mãos"…

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo."
(12b, 1-10)

… aparece aqui a única diferença…
… entre os estilos de Bimba e Pastinha…

… Bimba…
… ao criar um sistema de ensino da capoeira…
… instrumento de luta…
… abandonou a tradição…
… de não usar golpes traumáticos de mão…
… permissão estendida aos balões e projeções…
… bem aceitos e estimulados…
… pela difusão das técnica orientais…z
.. no meio social em que pontificava…

Embora a Luta Regional Baiana permitisse o emprego das mãos durante a sua prática, Mestre Bimba não admitia que o capoeira permanecesse imobilizado, parado ou agarrado porque nesta condição estaria desprotegido e exposto como alvo às armas, branca ou de fogo, bem como a outros tipos de ataque.
Os chamados treinos de agarramento, secretos, na verdade eram treinos para não se deixar agarrar, prática de manobras para se desvencilhar dos adversário, adequada para a defesa pessoal ou eventual confronto físico com adversário conhecedor destas técnicas.
Enquanto um praticante ficava em posição vulnerável, habitualmente sentado ou deitado no chão, um ou mais parceiros tentavam segurá-lo e mantê-lo imobilizado.
O objetivo do treino era desenvolver os reflexos, a resistência, a potência e calma indispensáveis à libertação da imobilização, estrangulamento, agarramento, presa, presilha ou chave, recuperando a plena mobilidade para a defesa pessoal.
A instrução genérica era pegar o adversário e jogar no chão (… com força naturalmente) ou sacudi-lo instantaneamente, com violência, ante o menor esboço de tentativa de apresamento, sem deixar "fechar" o golpe.
Como dizia o Mestre: "Gorpe ligadu só funciona se você deixá garrá."<golpe ligado só funciona se você deixar agarrar>
O capoeirista se caracteriza pela agilidade e intangibilidade quase mágicas, tem que ser como o vento, parece que está em toda parte e ao mesmo tempo em lugar algum, sacode, agita, derruba, destrói.. mas não se deixa pegar!
Quem gosta de se agarrar é ‘ganhamun’ e siri, por isso se deixam pegar… e terminam na panela, diziam os antigos.
O capoeirista não carrega para derrubar, pois seu ancestral direto, o carregador não deve deixar cair sua carga… só se escapulir…
Entre os antigos, aqueles menos eficientes, tecnicamente deficientes, porém dotados de maior corpulência, eram os que procuravam agarrar os melhores de técnica e mais franzinos, na esperança de imobilizá-los…

… com medo de apanharem ou caírem…

Mesmo durante as projeções em jogo de capoeira do estilo regional, não se pode parar para pegar, nem tampouco "carregar" o parceiro… "é pegar e jogar"!
Um bom capoeirista, por definição e princípio;deve possuir técnica e manha, indispensáveis para conduzir seus alunos e parceiros, à armadilha em que se enredarão!
Cumprindo assim o triste destino que os aguarda ao final de cada volta do mundo!

Capoeirista não derruba!
… só faz armar o laço…
… o bobo é que cai!


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ARPÃO-DE-CABEÇA

… um estranho giro vertical sobre os pés…
… com os braços abertos…
… aguardando uma cabeçada…
… anulada com uma joelhada na face do colega…
… que já entrava com as mãos cruzadas…
… em defesa do joelho hostil!
…!? ARPÃO?!…
…!? de CABEÇA !!!???…

No "Aurélio" encontramos…
ARPÃO: ferro em feitio de seta
fixado a um cabo para ser cravado na presa.
… entendemos!
… " a seta é a cabeça"…
… "o cabo é o tronco encurvado"…
… "as pernas são a força propulsora…
… procurando cravar o arpão <a cabeça>…
… no peito exposto <braços abertos>…
… de quem pede"…
… assim é o "pedido de arpão de cabeça"!


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