A IMPORTÂNCIA DAS CADEIRAS NO DESENVOLVIMENTO DO GOLPE DE VISTA E NA SEGURANÇA DO JOGO DE CAPOEIRA

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A IMPORTÂNCIA DAS CADEIRAS NO DESENVOLVIMENTO DO GOLPE DE VISTA E NA SEGURANÇA DO JOGO DE CAPOEIRA


 
Dedicado a Guanais e Lemos, que me fizeram aprender o mecanismo de perda de consciência, desmaio, pela hipertensão intracraniana por compressão das veias jugulares no colar-de-força.[1]

Mestre Pastinha escreveu:

2.2.31 – …"eu não enventei[2]"…

… "eu não enventei;”…

…”eu vi e achei bom”…

… “e aprendi no circo[3] de cadeiras,”…

… “para aprender o jogo de dentro…"
(77a,11-b13)

… Nós todos vimos…

… achamos bom…

… aprendemos com os mais velhos!
 

… Pastinha acentua a importância…

… da proximidade entre os parceiros no jogo de capoeira…

… os antigos mestres usavam obstáculos…

…. círculo de cadeiras…

…  mesas…

… ou de ambos…

… para desenvolver a agilidade…

… e “golpe de vista”

.. indispensáveis à pratica da capoeira…

… especialmente no jogo de dentro..

… que simula a luta com arma branca!

HerPast p.77

Pastinha sabiamente acentua importância da proximidade entre os parceiros no jogo de capoeira e afirma que os antigos MESTRES usavam obstáculos periféricos, circundantes, circunvizinhos…

círculos de cadeiras

mesas …

luzes apagadas…

como usávamos eu e Guamais[4] em nossos treinos secretos…

olhos vendados, além  das luzes apagadas…

como fazíamos eu e Jose Sobrinho “Zezinho” em nossos treinos de Judô!

ou ambos meios…
 

Para desenvolver as percepções extra-sensoriais como em Ioga e Artes Marciais!

Esta referência de Vicente Ferreira Pastinha ao uso de seu Mestre das cadeiras para delimitar a área de movimento ou jogo e assim desenvolver a noção de localização espacial durante o preparo técnico do capoeirista é muito importante por que revela preocupação desde os tempos antigos com a localização espacial do capoeirista dentro do ambiente do jogo.

Desta maneira o capoeirista desenvolve um sexto – sentido e adquire noção e domínio do espaço restrito de jogo, perde o medo de se aproximar do parceiro-adversário, especialmente útil no jogo-de-dentro, e extremamente importante na criação de oportunidades de contra-ataque e ou bloqueio do uso de arma-branca, seja faca, punhal, estoque, facão, navalha, tesoura ou mesmo guarda-chuva, borduna, sombrinha, cadeira, banco, cacete, cassetete, quiçá garrafa de vidro ou panela.

 Reflexo utilíssimo no corpo-a-corpo, na prevenção de impacto sobre os assistentes ou circundantes e origem da sensação de coragem, segurança, autodomínio, autoestima, calma e autoconfiança tão característica do capoeirista.

O treino individual cercado por 4, 6 ou 8 cadeiras simulando outros tantos adversários aperfeiçoa o sentido de localização espacial, avaliação de distância e golpe-vista, extremamente importantes no jogo, na luta, no trabalho, no transito e no cotidiano.
 

Nos anos quarenta (do século passado…), depois das aulas e treinos currículo, Bimba me entregava a chave para abrir a Academia no dia seguinte às 5 horas da manhã e o nosso grupo (Guanais, cabo Néri, Lemos) para um treino de briga (vale-tudo) em ambiente fechado com cacetes e armas-brancas[5].

Treino com luz  apagada, cadeiras, mesas e bancos espalhados aleatoriamente pela sala, grupo de 3 amigos íntimos…

testados pelo Tempo…

verdadeiros…

confiáveis reciprocamente,

grupo excelente para aperfeiçoamento dos reflexos de esquiva e contra-ataque…

sem acidentes… nem incidentes

pelo dominância da esquiva sobre o ataque…

sem soltar golpes a esmo…

E a lembrança de Hector Caribé a recomendar…

A saída de salto mortal para trás..

Pela janela…

Quando acuado contra a parede…

Sem outra saída…

No andar térreo…

Naturalmente!

 Lembrando também…

Os treinos de Judô como Zezinho Sobrinho para adivinhar o que outro iria fazer…

Sem a proteção do tatami

No chão de cimento do pátio da casa de

Olhos vendados…

Sem lâmpadas acesas…

E Um sempre percebia…

O que o Outro ia fazer

Era o SEXTO-SENTIDO!


 

[1] Quando eu acordava já estava deitado no chão e aprendi a sacudir o corpo e jogar o agarrador à distância… Quanta saudade, amigos!

[2] Inventei

[3] Circulo

[4] Filho de índios, meu colega de curso ginasial, órfão de pai. Deixou de estudar para trabalhar para educar os seus irmãos mais jovens. dentre os quais destaco o docente de medicina Dr. Sócrates Guanais um dos fundadores do Hospital Cardio-Pulmonar. Grande homem! Maior e Melhor Amigo! Grande Professor!

[5] Navalhas, punhais, estoques, facas e facões.



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POR QUE RAMPA DO MERCADO MODELO?

Uma homenagem a Mestre Ezequiel “Ziquié”

10/04/05

Estudando e meditando sobre as riquezas históricas encerradas nos cânticos e tradições orais populares que consegui guardar na memória e no coração, os pensamentos foram se cristalizando em torno de perguntas que me afloravam ao foco da consciência…

Por que Rampa do Mercado Modelo?

Por que estivadores?

Por que marinheiros?

Por que carregadores?

Por que carroceiros?

Por que Recôncavo Baiano?

E respostas…

Os Por Quês

E outros Por Quês

Foram aos poucos despontando

E sucedendo

Como os  raios do Sol

No Amanhecer!

Os saveiros conduziam diariamente a produção do Recôncavo entre as cidades litorâneas e ribeirinhas e destas para Salvador, o porto de exportação, onde aportavam na Rampa do Mercado Modelo, na enseada de Água dos Meninos, com paradas obrigatórias ou facultativas em portos da Ilha de Itaparica e de Maré, consoante os ventos e as marés… a necessidade de descanso ou reabastecimento de água ou mantimento… outros alguma motivação imprevista…

E outras questões foram surgindo nos vai-e-vens dos pensamentos… nas gingas e nos floreios da meditação…

Por que encontramos capoeira em Nazaré das Farinhas, Cachoeira e São Felix, porém não em Muritiba?[1]

Os saveiros nas viagens para o Rio de Janeiro alcançavam Morro de São Paulo e São Jorge dos Ilhéus… Por que encontramos capoeira em Ilhéus e não em Morro de São Paulo?

Por que não localizamos capoeira em Jaguaripe,Jeribatuba (Catu)[2], São Roque, Itaparica e Ilha de Maré… Desapareceu ou não existiu?

Por que não detectamos capoeira nos resíduos de quilombo, especialmente se considerarmos a capoeira como um luta de resistência?

Por que não descobrimos capoeira em Cruz das Almas e no sertão baiano?

Mestre Ezequiel

“Ziquié” no falar do Mestre…

Angoleiro convertido á Regioná, declama ostensivamente:

Eu aprendi capoeira

Na Rampa e no Cais da Bahia[3]

Eu vim de Maré…

No saveiro de Mestre João…[4]


Das histórias que ouvi em Santo Amaro da Purificação, Cachoeira de São Felix, Jaguaripe, Itaparica e das conversas pessoais com Mestre Tiburcinho, cliente, mestre e amigo…

E…

Pela observação das rodas onde passei…

Concluí que a capoeira baiana surge inicialmente no Recôncavo Salvadorenho, provavelmente em Santo Amaro da Purificação ou Cachoeira de S. Felix, entre os trabalhadores do cais.

Nos portos encontramos embarcadiços, estivadores, carregadores, condutores de cargas em animais e veículos de tração animal, que denominamos população portuária.

Trabalhadores fortes, atléticos, afeitos a trabalhos pesados, com intervalos livres entre as tarefas, durantes os quais podem se entregarem brincadeiras, chistes, jogos, danças e folguedos similares, naturalmente acompanhados de bebericações… marafa[5]fubuia[6]que geram alegria e ousadia pela desinibição que produzem.

Pela própria natureza e cultura, os africanos e seus descendentes são propensos aos cantos e danças nos ritmos oriundos dos atabaques, acompanhados por exibições de habilidades físicas e coreográficas em que cada um procura superar os demais…

As brincadeiras assumem naturalmente o caráter de competição, cada qual buscando demonstrar superioridade de força, criatividade e inteligência sob o comando da musica a que estão habituados, envolvendo manobras e movimentos típicos do ambiente cultural da terra natal.

Acredito, portanto, que a capoeira da Bahia tenha surgido das brincadeiras, vadiações, folguedos em momentos de lazer de homens fortes, alegres, autoconfiantes e bebericantes[7]sob o signo da fraternidade e  do respeito mútuo.

A sua propagação ocorreu e continua ocorrendo espontaneamente pelo fascínio de seu ritmo, de sua musicalidade e pela impressão de vivacidade, alegria, saúde, autodomínio, habilidade, autocontrole, felicidade, autoconfiança, força, segurança e sensação de felicidade, beatitude[8], bem-aventurança transmitidas pela sua coreografia.

Ainda hoje é praticamente impossível resistir ao ritmo dos “Filhos de Gandhi”, o Ijexá, o mesmo da capoeira ou assistir uma exibição de Capoeira sem deixar de se sintonizar com o toque do berimbau, o compasso ijexá do pandeiro e de ser envolvido pela magia da melopéia da orquestra (charanga como preferia  Mestre Pastinha) e coro, deixando se transfigurar pela beleza daqueles movimentos tão naturais e ágeis, acender no imo do coração a chama do desejo de imitá-los…  procurar um Mestre e.aprender capoeira…

Por isto Pastinha cantou….

Todos pode aprendê

Generá i tambeim douto![9]

Capoeira é pior do que bexiga…

Diabolicamente contagiante[10]

A bexiga pega até pelo ar vizinho…

A Capoeira contamina à distância…

Pelas ondas sonoras do berimbau…

Que vão muito longe e…

Explodem no coração!


Aqueles mestiços culturais voltavam às senzalas… visitavam portos vizinhos… freqüentavam festas populares e até organizavam suas próprias festas e encontros, onde contaminavam os assistentes…

Assim a Capoeira se espalhou…

Como mancha de óleo pelos mares, rios e portos!

Como o vento pelas matas circundantes!

Pelas povoações!

Pelas cidades vizinhas!

Por onde houvesse gente para encantar!

E…

Finalmente surgiram as perguntas mais importantes.

Ø      Por que nas referências históricas da Capoeira do Rio de Janeiro não se descreve, nem cita a presença do berimbau, da orquestra, dos cânticos, das palmas e das rodas de capoeira?

Ø      Existe capoeira sem música?

Ø      Podemos admitir mais de um significado para capoeira?

o        Sensu latu: Movimentos e manobras de luta simulada baseados em cultura africana sem acompanhamento musical?

§         A Capoeira do Rio de Janeiro?

o        Sensu strictu: O Jogo de Capoeira propriamente dito, i.e.: Movimentos e manobras de luta simulada sob a regência de orquestra, com o berimbau como determinante da ginga, o pandeiro (com poucas soalhas[11]) como marcador do ritmo e do andamento[12] e os cânticos com versos com rima tonal ao modo iorubano.

§         A Capoeira como conhecemos e reconhecemos nos dias atuais, a Capoeira Baiana, espalhada pelo Mundo.

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Questões que merecem consideração, reflexões profundas, análise, pesquisas e estudos de parte de estudiosos de história e origem da Capoeira por abrirem mais uma área de trabalho.


[1] Zona fumageira, fonte de produto de exportação e apenas a cerca de 10 Km acima de Cachoeira de São Felix

[2] Onde existem estaleiros para saveiros.

[3] Bahia aqui é usado como sinônimo de Salvador/BA.

[4] Mestre ou Capitão é o comandante dos saveiros, no linguajar dos saveiristas baianos, haja visto Capitão Bentinho, o Mestre do Mestre tido e cantado como Capitão (Comandante) da Cia. De Navegação Bahiana no imaginário capoeirano popular baianês.

[5] Aguardente, cachaça

[6] Idem

[7] De beber + -icar.] V. t. d.   1.   Beber a goles, aos poucos: &   V. int.  2.          Beber pouco, mas freqüentemente. Dic. Aurélio

[8] [Do lat. beatitudine.]S. f.  1.     Felicidade eterna e suprema; bem-aventurança.  2.        Gozo da alma dos que se absorvem em contemplações místicas.  3. Felicidade tranqüila e serena; bem-estar. Dic. Aurélio

[9] Todos podem aprender… General e também doutor…

[10] Varíola

[11] [Do lat. vulg. *sonacula, ‘coisinhas soantes’.] S. f.  1.   Cada uma das chapas metálicas do pandeiro. Dic. Aurélio

[12] Bimba me ensinou que o pandeiro (com poucas soalhas) é o atabaque dos capoeiristas.


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ASSINATURA DE MESTRE BIMBA (MANOEL DOS REIS MACHADO)

O detalhe abaixo foi retirado de um dos diplomas de Mestre de Luta Regional Baiana, emitidos pela Federação Baiana de Pugilismo e assinados por Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba), para outorga deste título aos sete (7) membros do futuro Conselho de Mestres, o qual deveria ser criado após a homologação pela Confederação Brasileira de Pugilismo do anteprojeto de regulamentação e regras esportivas da capoeira, elaborado pelo Dr. Angelo A. Decanio Filho com o aval do Mestre Bimba.

O Mestre assinando no campo de "secretário geral", em falta de local mais adequado por ser este o único modelo existente de diploma naquela FBP.

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Em decorrência de modificações feitas pela Comissão Técnica d C.B.P. Mestre Bimba decidiu sustar as providências citadas e estes documento perderam sua indicação primordial, passando a ter valor puramente histórico e foram distribuídos pelo Dr. Decanio a alunos diretos do Mestre que desempenharam papel destacado no crescimento e difusão da regional.


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O DIPLOMA DE MESTRE BIMBA

Diploma da Federação Bahiana de Pugilismo emitido por ocasião da elaboração do anteprojeto de de regulamentação da capoeira como desporto pelo Dr. A. A. Decanio Filho (por determinação do Sr. Pachoal Segretto Sobrinho, então Presidente da Confederação Brasileira de Pugilismo) e assinado respectivamente pelo Mestre Bimba (no campo de "Secretário Geral", à falta de campo mais adequado neste modelo padronizado da Federação Baiana de Pugilismo), pelo Dr. Angelo Augusto Decanio Filho (na qualidade de Diretor do recéncriado Departamento de Capoeira da mesma Federação e pelo Sr. Fauzi Abdala João, na qualidade de Presidente da F.B.P.

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Foram 8 (oito) os diplomas assinados pelo Mestre Bimba, para serem outorgados como Título de Mestre de Capoeira aos primeiros componentes dos futuros Quadro de Arbitros e Conselho Superior de Mestres de Capoeira, a serem escolhidos pelo Dr. A. A. Decanio Filho dentre os componentes indicados pelo Mestre Bimba como integrantes do grupo de trabalho para as pesquisas e experimentação prática indispensáveis à elaboração do mesmo.

“Read More”

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GRAVAÇÕES HISTÓRICAS DE MESTRE BIMBA

O amigo Matthias, da Universidade de Essex (Inglaterra), disponibilizou gravações históricas feitas por Mestre Bimba nos idos de 1940. As 10 faixas, pertencentes ao acervo da Universidade de Indiana (EUA), trazem 4 faixas com "Bimba e seu conjunto", como o apresentador se refere, e 6 faixas gravadas por Cabecinha (e seu conjunto, "Esperança Angola"). As gravações mostram um canto cheio de improvisos, extremamente rico quanto à musicalidade, e são um documento importante sobre a capoeira naquela época.

Caso você deseje uma cópia do album original, sem edição, favor contactar o Teimosia. Os CDs serão enviados mediante pagamento do preço da mídia (CD virgem) e das despesas de gravação e postais.


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DR. JOSÉ “CISNANDO” LIMA, A PEDRA FUNDAMENTAL DA REGIONAL

DR. JOSÉ “CISNANDO” LIMA

Tudo começou com ele!

Cisnando trazia no coração um sonho…
aprender capoeira enquanto estudava medicina em Salvador…
Cisnando trazia no bolso uma senha…
o acesso ao Palácio e ao Interventor da Bahia, o Ten.Juracy Magalhães…
Cisnando encontrou Bimba no Curuzú – bairro da Liberdade…
Bimba ensinou o jogo de capoeira a Cisnando…
Cisnando ensinou a Bimba a nomenclatura acadêmica  e a pedagogia da capoeira…
Bimba aprovou a sistematização do ensino da capoeira…
Cisnando sugeriu a Bimba a criação da Luta Regional Baiana…
um passo adiante do jogo da capoeira…
no rumo da defesa pessoal…
Cisnando levou Bimba ao Palácio…
para mostrar a luta regional baiana ao Ten. Juracy Magalhães…
Juracy facilitou o ensino da capoeira sob o rótulo de luta regional…
autorizou o funcionamento do “Clube de União em Apuros”…
na Roça do Lobo…
a primeira academia de capoeira do mundo!
Juracy conduziu Cisnando e Bimba ao Presidente Getúlio Vargas…
Getúlio acreditou na Luta Regional Brasileira como esporte e cultura…
Getúlio abriu as portas do mundo para Bimba…
Bimba abriu os olhos do mundo…
para as manifestações culturais áfrico-brasileiras!


DADOS BIOGRÁFICOS
gentileza de seu filho Hildebrando “Kimura”

José Cisnando Lima nasceu em 9 de Outubro de 1914, no Sítio Santa Rosa, Crato/CE.
Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1932 , formando-se em 1937.
Iniciou suas atividades profissionais em Sta. Bárbara/Ba.
Regressou à sua terra natal, em 1943, clinicando em varias cidades do sul do estado até 1950, quando retornou a Sta. Bárbara/BA.
Sonhador, empreendedor, apaixonado pela agricultura, trouxe colonos japoneses para incrementar as técnicas agrícolas em sua propriedade e foi pioneiro na irrigação das suas culturas, o que o conduziu à presidência do Sindicato Rural de Feira de Santana/BA.
Eleito vereador em Feira de Santana, foi líder do partido situacionista neste município.
Nomeado médico da Secretaria de Agricultura, foi requisitado paras a função de legista da Secretaria de Segurança Pública.
Exerceu os cargos de Supervisor Estadual da Merenda Escolar e representante federal da Campanha Nacional para a Merenda Escolar.
Eleito Presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana, assumiu a Prefeitura local durante 4 meses por motivo de saúde do prefeito em exercício.
Dois anos depois dedicou-se inteiramente à psiquiatria, fundando duas clínicas particulares para doentes mentais.
Ensinou biologia no Colégio Santanópolis, no Instituto Guimarães e no Educandário da Casa São José.
Aprendeu Jiu-jitsu com Takeo Yano antes de chegar a Salvador.
Com Takamatsu, 5o dan da Shotokan e 2o da Kodokan, praticou e estudou o karatê.
Um dos seus colonos japoneses o iniciou em Kendô e Bojitsu.
A sua equipe de japoneses, oriunda da TakuDai, incluía Saito Masahiro, 2o dan pela Kodokan e 1o dan pela Shotokan,  que ensinou Judô e Karatê no Spartan Gym de Dr. Geraldo Blandy Motta e no Gremio da Escola de Politécnica, com o qual também pratiquei as duas artes marciais.


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mestre-bimba-ginga

BIMBA, DA CAPOEIRA O GRANDE MESTRE

Você sabia que a Capoeira que tanto se vê nas esquinas de Salvador já foi um crime previsto pelo Código penal da República? Pois isso aconteceu entre os anos de 1890 a 1937, quando quaisquer exercícios na rua poderiam ser punidos com até seis meses de prisão. Sendo uma das manifestações culturais dos afro-descendentes, a luta era vista pelas autoridades como uma modalidade para identificar marginais. Nessa época, a solução encontrada pelas escolas de capoeira, que proliferavam principalmente nos subúrbios, foi a clandestinidade. Assim foi até que o baiano Manoel dos Reis Machado, um angoleiro valente conhecido como Mestre Bimba, inventou a nova capoeira. Com muito molejo, ele tirou a palavra proibida do nome da academia que fundou em 1932, em Salvador, o Centro de Cultura Física e Regional. Depois dele a capoeira nunca mais foi a mesma.

Filho de escravos, Bimba tinha a luta no sangue e aos 12 anos aprendeu as artes da capoeira africana com o mestre Bentinho. Era filho de Luis Cândido Machado, um campeão de batuque, uma espécie de luta-livre comum na Bahia do século XIX. No Centro, o mestre afinou técnicas de boxe com as de jiu-jítsu e criou um método de ensino para a primeira escola brasileira. Outras estratégias foram adotadas para fugir de qualquer lembrança da origem da capoeira, como a mudança de alguns movimentos. O capoeirista perdeu um pouco da malícia, passou a ficar mais tempo na postura em pé, tinha que usar um uniforme branco.

Bimba criou um código de ética rígido e a partir daí a capoeira começou a conquistar alunos na classe média branca. Segundo registros, para ser aluno do Centro era exigido ter autorização da família e estar trabalhando ou estudando. Passaram pelas aulas do mestre desembargadores, juizes e médicos. Não só eles: ao dar ares de atléticos ao jogo, o mestre atraiu também as mulheres, até então excluídas das rodas. O estilo foi exportado para o mundo e ficou conhecido, mais tarde, como Capoeira Regional.

De tudo um pouco

Nascido no Engenho Velho de Brotas, em Salvador a 23 de novembro de 1899, o Rei Negro, como também ficou conhecido, viveu até o dia 5 de fevereiro de 1974, quando faleceu em Goiânia, Goiás, onde morou por apenas um ano. Alguns dizem que ele tinha acabado de comandar mais uma roda de capoeira, quando passou mal e teve um infarto fulminante. Outros contam que ele se contrariou e não resistiu. Quase aos 75 anos, Bimba ainda lutava pela valorização de uma prática ligada à história do negro no Brasil. Pai de 12 filhos (registrados, fora outros tantos sem registro), foi de tudo um pouco na vida: carvoeiro, doqueiro em trapiches, carpinteiro. Morreu pobre, como indigente, mas de herança deixou uma lição de valorização das raízes brasileiras e o legado do gingado.

Os restos mortais de Bimba foram transferidos para a Bahia em 1980, por iniciativa de seus discípulos, e estão depositados, desde 1994, no ossuário da Ordem Terceira do Carmo.

Bimba é Bamba

Na década de 50, quando a Bahia foi invadida por um modismo de competições de artes marciais, contam que a imprensa articulava desafios entre Mestre Bimba e os lutadores das variadas lutas recém-chegadas. Ele topava e queria, com isso, fazer a capoeira se sobressair. Durante esses embates surgiu um grito “Bimba é bamba”, que ficou imortalizado como o chamamento do mestre.

Essa coragem é apenas uma das facetas do capoeirista. Um dos discípulos mais antigos, Angelo Augusto Decânio Filho, aos 79 anos, tem muito tem o que lembrar dos 36 anos de convivência com aquele que “foi um exemplo, um pai, um líder, um mestre”. Decânio se matriculou na escola de Mestre Bimba aos 16 anos, escondido da família, e lá foi, já desde o primeiro dia, adotado como filho. “Fui motivado pela notícia de que Bimba tinha tomado sete sabres e um revólver de um esquadrão que tentou uma emboscada contra ele. Li isso no jornal e decidi entrar no grupo”, lembra ele.

Decânio diz que Bimba mudou a vida de todo mundo que teve a oportunidade de entrar em contato com ele. “Era uma pessoa que marcou a ferro e a fogo sua presença no coração da gente”. Além dos golpes de capoeira, o mestre ensinava lições de ética, correção moral, humanidade, singeleza. Para o menino Decânio, que depois se formou em Medicina, uma lição em especial ficou para sempre, na vida e nas escolas onde deu aula depois: “Bimba não ensinava. Ele fazia e mandava a pessoa fazer. E tolerava os defeitos de cada um, dando a cada qual seu valor pessoal”.

Para a Bahia, o Brasil e o mundo, outras lições de Bimba ajudaram a fazer um planeta melhor, livre de preconceitos. “Ensinou que raça, cor, cultura não são valores, o valor é a imagem do homem ético”. O discípulo não hesita em dizer que Bimba, mais do que um exemplo, foi o maior homem que ele conheceu na vida. “Hoje eu tenho quase 80 anos, convivi com gente de toda espécie e importância, mas não tenho ninguém mais para colocar no altar ao lado Mestre Bimba”.

Capoeira Brasileira

A capoeira regional ou luta regional baiana tem origem na fusão da capoeira que hoje é conhecida como de angola, e do batuque, luta africana praticamente extinta, também conhecida como bate-coxa. Na capoeira de Mestre Bimba também estão presentes aspectos de lutas orientais outras e de artes tradicionais do Recôncavo Baiano, como o samba de viola e o maculelê.

Bimba acreditava que a capoeira deveria ser essencialmente uma luta de ataque e defesa e, por isso, via na morosidade da ginga angolana uma desvantagem para o capoeirista. Excluindo na modalidade que inventou tradições mantidas pela capoeira angola, o mestre tentava alcançar mais agilidade e competitividade na luta. Tirou, por exemplo, a moeda no centro da roda enrolada no lenço que o capoeirista pega com a boca. Outros golpes foram acrescentados, como os balões que originaram a “gravata” praticada na regional.

São três as raízes principais da capoeira nascida na Bahia. Dos africanos veio a herança dos movimentos rituais fundamentais do candomblé (dos iorubás veio o ritmo ijexá e rima tonal a cada 3 estrofes e dos bantos vieram o berimbau). Os portugueses entraram com a improvisada dança popular chula, do pandeiro e da viola. Dos nativos brasileiros, a herança foi a nomenclatura dos movimentos, os temas dos cantos, o ritual, os métodos de ensino.

A capoeira baiana é caracterizada pela associação de movimentos executados ao som do ritmo ijexá, que é regido pelo toque do berimbau. Eles simulam intenções de ataque, defesa e esquiva, exigindo do lutador habilidade, força e autoconfiança. O jogo acontece entre duas pessoas, sendo o papel de cada um demonstrar superioridade em relação ao companheiro. A coreografia tem como base o gingado, durante o qual o praticante deve ficar em movimento permanente.

Os vários toques executados, o acompanhamento do coro e compasso de palmas pelo conjunto de jogadores e dos assistentes têm papel primordial no espetáculo. Os regionais, ao contrário dos angoleiros, buscam os toques mais rápidos que acentuam a belicosidade do jogo. Hino, Cavalaria, Santa Maria, São Bento Grande, São Bento Pequeno, Banguela, Idalina, Santa Maria, Amazonas, Banguelinha, Iuna são os principais toques do estilo Regional.

Os herdeiros

Os filhos continuaram a história do pai. Manoel Nascimento Machado, conhecido como Nenel, é o presidente da Fundação Mestre Bimba, criada em 1994 para lutar para preservar a lembrança e os ensinamentos do capoeirista. Ele trabalha junto com o irmão, Demerval dos Santos Machado, o “Formiga”. Os dois se formaram juntos nas rodas de capoeira, em junho de 1967. Pelo trabalho dos herdeiros, o legado de Bimba tem ganhado reconhecimento. O mestre já recebeu o Prêmio Honoris Causa, concedido pela Ufba por serviços prestados à cultura da Bahia, dentre outros títulos.

Lá são desenvolvidos trabalhos sociais, como o Projeto Capoerê, que já deu assistência a mais de dois mil jovens carentes. “Hoje esse número está limitado a uns quarenta meninos trabalhando aqui e mais uns duzentos nas obras assistenciais de Irmã Dulce, mas queremos aumentar isso”, diz Nenel. Os planos são muitos, mas é preciso mais do que vontade para conquistar o sonho, e pelo menos um local mais adequado para as atividades que a fundação pretende desenvolver. “Temos em projeto oficinas de instrumentos musicais, biblioteca, salas de aulas e vídeo, arenas para apresentação, mas o espaço é pequeno para tanto”.

As aulas de capoeira são abertas ao público: crianças a partir dos dois anos, jovens e adultos, a preços populares (de R$15 a R$30), na sede da fundação, que funciona em um casarão antigo, localizado na Rua Gregório de Matos, no 51, Pelourinho. Existem ainda núcleos da entidade em três cidades do interior paulista – São José do Rio Preto, Araçatuba e Limeira, em Goiânia e em Newcastle, na Inglaterra.

 

http://ibahia.globo.com/sosevenabahia/bimba.asp (01/06/2004)

Redação/Formatação/Editoração modificadas por AADF


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FUNDAÇÃO DO CENTRO ESPORTIVO DE CAPOEIRA ANGOLA

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A. A. Decanio Filho (Organizador) – Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha, Edição CEPAC, Salvador/BA (pg 3b)

Seus fundadores foram:

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A. A. Decanio Filho (Organizador) – Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha, Edição CEPAC, Salvador/BA (pg 4a)

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A. A. Decanio Filho (Organizador) – Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha, Edição CEPAC, Salvador/BA (pg 4b)

Transliteração datilográfica respeitando a grafia original e comentários por A. A. Decanio Filho:

"Historico da Fundação do Centro Esportivo de Capoeira Angola"
1.3.1 – "Em principio do ano de 1941"

…"em 23 de fevereiro de 1941. Fui a esse locar como prometera a Aberrêr", e com suspresa o Snr. Armósinho dono da quela capoeira, apertando-me a mão disse-me: Há muito que o esperava para lhe entregar esta capoeira para o senhor : mestrar. Eu ainda tentei me esquivar disculpando, porem, toumando a palavra o Snr. Antonio Maré: Disse-me; não há jeito, não Pastinha, é você mesmo quem vai mestrar isto a qui. Como os camaradas dero-me o seu apoio, aceito."
(3b,12-23;4a.1)

1.3.2 – …"Em 23 de fevereiro de 1941"…

"Em 23 de fevereiro de 1941. No Jingibirra fim da Liberdade, la que naceu este Centro; porque? foi Vicente Ferreira Pastinha quem deu o nome de "Centro Esportivo de Capoeira Angola".

Fundadores

Amosinho, este era o dono do grupo, os que lhe acompanhavam, Aberrêr, Antonio Maré, Daniel Noronha, Onça Preta, Livino Diogo, Olampio, Zeir, Vitor H.D., Alemão filho de Maré, Domingo de Mlhães, Beraldo Izaque dos Santos; Pinião, José Chibata, Ricardo B. dos Santos."
(4a,7-18)

1.3.3 – …"o falicimento do Snr. Amôsinho"…

"Depois, quando ò correu o falicimento do Snr. Amôsinho: Dai em diante ficou o centro sem finalidade, porque foi abandonado por todos os mestres, hoje são disertores."
(4b,1-4)

 No longo trajeto do C. E. de Capoeira Angola encontramos vários períodos de inatividade pelo abandono dos seus participantes, suplantados sucessivamente pelo esforço e persistência do Mestre Pastinha, sempre recomeçando e prosseguindo. Exemplo de perseverança, coragem e firmeza de vontade como ele sempre recomendava aos seus discípulos.


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