MESTRE DE CAPOEIRA E COMPORTAMENTO DO ALUNO

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MESTRE DE CAPOEIRA E COMPORTAMENTO DO ALUNO


De "Decanio" para "Golfinho"

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Na apreciação da capoeira como modelador do caráter do aluno adolescente, a advertência do Dr. Benício Boida de Andrade, médico, capoeirista e pai dum jovem capoeirist, nos propõe a análise da escolha da academia ou escola de capoeira, consequentemente do mestre, professor ou instrutor, a quem delegar a responsabilidade de modelar o caráter do adolescente e avaliar o impacto desta decisão no futuro comportamento do discípulo.
A presença dos familiares, ou simplesmente de adultos sensatos, no ambiente de ensino e prática da capoeira, é um fator de suma importância no combate à violência e às drogas nos meios juvenis, com reflexo na própria sociedade a longo prazo.
O contexto social em que se insere a capoeira certamente influenciará o seu comportamento (da capoeira) naquele instante e determinará sua rumo.Obviamente o capoeirista, por estar inserido no contexto social, sofre uma pressão externa no sentido de se comportar consoante os padrões, parâmetros ou paradigmas vigentes na época.
Num período como o atual, em que as regras de comportamento estão sob o signo da violência, da vantagem pessoal imediata e inescrupulosa, da impunidade, da corrupção de costumes e valores primários, a capoeira tende a acompanhar o equacionamento genérico da sociedade e portanto, a incluir a violência e agressividade como componentes da matéria oferecida ao público.
Somente quem vivenciou, contribuindo, direta e indiretamente, como eu, a transformação do primitivo processo lúdico. capoeira como jogo, brincadeira ou vadiação de portuários no estilo de luta regional moderna, poderá apreciar a importância, num determinado momento histórico, do processo dialético que involve a sociedade, o ensino da capoeira e o comportamento,na deerminação do futuro do jovem capoeirista.
Assim é que assisti a luta regional baiana, primariamente um jogo de esquiva e aproveitamento das oportunidade de contra-ataques a curta distância, progressivamente transfigurar-se num exibição de seqüências de movimentos acrobáticos e de ataque, sem visão de objetivo ou alvo, realizados a uma distância maior que o alcance golpes ou dos movimentos executados, ao modo da exibição simultânea de dois participantes distintos sob um fundo musical ensurdecedor.
Os participantes aparentemente não têm noção do perigo envolvido nesta prática, julgando-se protegidos pelo distanciamento maior e portanto, à salvo da violência implícita dos movimentos do companheiro de luta.
Entretanto como os dois ocupantes do mesmo espaço geográfico, apesar de separados por u’a distância supostamente segura, podem entra em rota de colisão por simples coincidência temporo-espacial e consequentemente, sujeitos a lesões, de maior ou menor gravidade de acordo com a violência do impacto, variável consoante a força viva do movimento agressor, a postura inicial do atletas atingido, o local atingido, as condições dinâmicas no momento do impacto, no local atingido e no solo ao término da queda.
A ocorrência sinistra que poderá levar à morte ou produzir seqüelas, incapacitantes ou não, para as atividades desportivas ou vida civil.
Nos tempos atuais a capoeira vem sofrendo uma divulgação explosiva, sem sempre benfazeja, dada a profissionalização da figura da figura carismática do Mestre, outrora concedida pelo consenso dos seus pares e da comunidade, hoje decorrente de titulação em moldes acadêmicos ou por autodeterminação.
A figura do mestre atrelado ao carrossel do mercantilismo o conduz fatalmente:

à prolongação do aprendizado, mantendo assim a renda durante um prazo maior,
a fragmentação do ensino da capoeira (uma atividade global como a dança),
sujeitando-o aos apetites e impulsões dos alunos, regidos por normas competitivas e violentas, limitando seu poder educativo.

A sujeição do ensino da capoeira à Universidade, pela sua vinculação ao desporto oficial, trouxe a valorização excessiva do currículo, em detrimento da proficiência na pratica da nossa "arte-e-manha", exigindo mais "papo" que "pernas", travestindo um artista do "jogo de cintura" num papagaio colorido de professor, subjugando o mestre de capoeira a um regime didático pedagógico de valor discutível e historicamente inoperante em nosso país.
O título de Mestre de Capoeira só deverá ser outorgado pelo consenso duma assembléia de mestres e da comunidade onde se insere sua atividade, pois além da habilitação técnica, teremos que avaliar sua conduta moral, seu poder de liderança e potencial didático-pedagógico, resguardando assim os adolescentes de adotarem padrões éticos incompatíveis com os valores ideais do convívio social.Numa academia que prega a "valentia" e o poderio dos "golpes mortais", o adolescente adotará tais parâmetros pelo restante de sua vida.
Numa academia iluminada pela humildade do Mestre, aquecida pelo espirito da parceria e pelo bom-senso; que aconselha a esquiva antes que o confronto, a avaliação crítica da sua própria força e as conseqüências de cada movimento, o aluno só aprenderá a evitar posições e situações de risco, improvisando reflexa e instintivamente soluções e "saídas" que assegurem sua integridade física e respeitem aqueloutra do seu parceiro.
Recomenda-se portanto, que a família não entregue levianamente uma jóia preciosa como um adolescente a incúria dum propugnador de violência e belicosidade, ou mesmo a mestre de boa qualificação, sem acompanhar e apoia-lo, avaliando sempre o seu crescimento interior e as modificações de sua conduta, numa prospeção do futuro cidadão.
Convém lembrar que, por ser primariamente uma dança guerreira, o jogo da capoeira da Bahia é uma forja onde se funde o caráter em modelos de prudência, coragem, respeito mútuo, gentileza, parceria e sobretudo, de auto-estima e autoconfiança, cujo foco de irradiação é a projeção da figura do Mestre.



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