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A ORIGEM DO ESCUDO DO CENTRO DE CULTURA FÍSICA REGIONAL DA BAHIA


Durante o longo período de luta pela regulamentação da capoeira pela FBP (FEDERAÇÃO BAIANA DE PUGILISMO), para enquadrar a “academia” na legislação vigente, que não permitia o uso do termo academia, bem como de escola, em entidades esportivas sugeri a substituição do nome clássico para “Centro de Cultura Física“, mais expressivo e abrangente, complementado pelo atributo de “Regional Baiano“, alusivo à luta regional baiana.
Por ocasião da formatura da minha turma (Decanio, Nilton, e Maia) o uniforme de formatura da academia de Mestre Bimba era calça branca, camisa listada azul e branca e sapato de tênis branco, como se pode observar numa fotografia publicada em vários clássicos da literatura do nosso esporte.

Nota: Nosso quadro de formatura (quadro com os retratos e os nomes dos formados, paraninfo e homenageados, de modo similar ao costume das escolas superiores. Nem sempre correspondem ao ano da graduação, pois esperávamos juntar 4 a 5 para completar o elenco, deste modo num mesmo quadro podemos encontrar alunos de diversas turmas) incluiu o meu compadre Luizinho, servente de pedreiro, com a mão esquerda esmagada por acidente de trabalho, pertencente ao grupo de alunos do mato (que não pertenciam a escolas superiores), mais antigo, formado sem solenidade.
Escolhemos como padrinho o nosso contramestre, Ruy Gouveia.
Compadre Luizinho era um testemunho vivo de que os defeitos físicos não impedem a prática da capoeira desde que podem ser contornados pela vontade do praticante.
Morreu tragicamente em acidente de trabalho, durante pintura do Elevador Lacerda, ao cair do andaime sem a proteção do cinto de segurança. Na tentativa desesperada para se agarrar às paredes ásperas da construção desgastou os dedos e o carpo. Chegou à marquise onde encerrou sua carreira, de operário e de atleta, sem as mãos, cujos fragmentos marcaram, com sangue e pedaços de carne, seu protesto no concreto do edifício.

A dificuldade em aquisição das camisas listadas; vendidas em lotes de 11 jogadores, alguns reservas e goleiros, sem opção de escolha de tamanho por serem usadas pelos times de futebol, nos obrigou a procurar uma solução menos penosa.
Em torno de 1945 Mestre Bimba, atendendo a sugestão que lhe fiz, decidiu adotar a camisa de malha de algodão branca para os formados, conservando a antiga camisa listada azul e branca como distintivo para o mestre.
Para completar o uniforme e quebrar a monotonia da camisa branca, desenhei então um escudo com o signo de São Salomão consoante a tradição dos capoeiristas, que me acostumei a ver gravado pelos carroceiros na estrutura dos seus veículos de carga, com a troca da estrela de cinco pontas pela de seis pontas, para melhorar o efeito estético, acrescentando na área central, um pequeno círculo contendo a letra R, abreviação de Regional.

Optei pela estrela de seis pontos, formada pela superposição de triângulos eqüiláteros, pela simetria dentro do campo circunscrito pelo escudo ogival, forma que melhor se prestava ao efeito estético desejado.
Nos intervalos entre as pontas das estrelas apliquei traços arciformes azuis, circunscrevendo a estrela central e, na parte superior da ogiva, dois traços verticais para quebrar a monotonia do fundo branco.
Naquela ocasião desenhei vários modelos, com molduras diferentes, bem como símbolos e siglas, dos quais as mãos habilidosas de Da. Berenice, minha Mãe Bena (então Rainha e Senhora da Casa de Bimba) confeccionou os protótipos; modelos em tamanho natural, bordados em azul à mão, sobre tecido branco; dentre os quais a escolha do Mestre, e dos alunos consultados, recaiu, por unanimidade, no atual escudo.

Reforçava a escolha do signo de São Salomão como símbolo da regional o desenrolar da lenda da capoeira conforme Sisnando.
Para melhor efeito estético o escudo deve ser usado na região peitoral, e à esquerda, “do lado do coração”, pelo simbolismo sentimental!
A cruz desenhada acima da imagem estelar é a demonstração da aptidão inata da cultura africana para aceitar os conceitos estranhos sem perder sua autenticidade e assim sobreviver dentro dum ambiente hostil!
Cristianizando a Sabedoria de Salomão pela coroação crucial, o povo brasileiro criou um símbolo, a “Estrela de São Salomão“, capaz de pacificar o encontro de duas culturas conflitantes e que pode unir todos os capoeiristas do mundo!



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AS AFIRMAÇÕES CONTRADITÓRIAS DOS ALUNOS DE BIMBA

Todos estão certos!
Todos estão errados!

As palavras de Bimba devem sempre serem analisadas dentro do contexto, com seus componentes temporal (do momento), social (as pessoas envolvidas) e pessoais de Bimba (humor, antipatia, dissimulação, engodo, etc.).

Os conceitos, definições e nomenclatura usados pelo Mestre variaram muito no tempo e no espaço.

Para entender Bimba é indispensável a convivência com os acontecimentos, se possível, além de estudar e situar o fato no ambiente do momento em que ocorreu, raciocinar e então concluir…

Quando mal humorado, por antipatia ao interlocutor, por pressa ou ou simplesmente desatenção, o Mestre truncava ou trocava a resposta, além de que muitas vezes respondia propositadamente de modo incorreto, para não revelar o que não queria, ou não devia, a quem não merecia ou não convinha.

Só assim podemos entender a informação de que o toque de Santa Maria fosse o hino da capoeira, como se acaso houvesse algum…. ou a negação do uso da Cavalaria como toque de jogo duro e restrição do seu emprego a um toque de alerta…

As listas de golpes e as regras de prática afixadas nas paredes da "academia" também mudavam muito…

Profundamente interessado na origem da capoeira, como todos iniciantes da sua prática, sempre ouvi de Bimba que esta era uma luta guerreira africana, especificamente dos escravos provenientes de Angola, dada a tradição de valentia dos mesmos.

Desde meus primeiros tempos na roda de Bimba comecei a pesquisar a relação entre o candomblé e outros fenômenos culturais africanos, porquanto aquele me parecia a origem dos demais.

A grandiosidade da Natureza, a extrema dependência do Homem dos seus recursos e de suas mutações, levam ao culto dos fenômenos naturais e dos integrantes das paisagens, animais, vegetais e seres inanimados, aos quais a humanidade empresta poderes, inteligência e vontade à sua semelhança.

É notória a associação da religião com todas as atividades humanas nas sociedades primitivas, sobretudo com a música, o ritmo e a dança, manifestações primárias da Personalidade.

Entre os africanos, a unidade social repousa sobre ritmo e melodia.
A percussão e o canto unem os indivíduos e criam a unidade do grupo, coordenando os trabalhos comunitários, as festas e o culto dos Senhores Invisíveis, aos quais a Humanidade atribui o comando dos fenômenos naturais.

Assim o Homem reflete na Natureza os mesmos sentimentos e poderes que esta lhe impõe pela grandiosidade de suas forças.
Nos sistemas culturais africanos, talvez os mais antigos do atual ciclo vital, o candomblé é o fulcro em torno do qual giram as demais atividades humanas, religiosas, produtivas e sentimentais (festivas ou funerárias), não cabendo exceção à capoeira.

Bimba acreditava e propagava, com o apoio de Sisnando, a origem guerreira da capoeira, reflexo da belicosidade de ambos, porém estranhamente não conhecia terminologia africana específica da capoeira.
Durante todos os anos em que gozei da intimidade familiar e acadêmica do Mestre não observei aproximação da prática da capoeira com os rituais religiosos, sendo a mesma uma atividade profana mais associada às libações alcoólicas que aos cultos religiosos, como o candomblé.

Até à festa da casa de Camilo, em novembro de 1946, não houve exibição conjunta de candomblé, samba e capoeira; porém o lucro propiciada pela demonstração para os neurologistas e psiquiatras em congresso "encheu os olhos"(e os bolsos…) do Mestre, que adotou prazerosamente a nova fonte de renda.
Esta é a origem da associação desenvolvida posteriormente pelo Mestre no Sul da capoeira com os costumes de terreiro de candomblé… para atrair os turistas…

Como o Mestre pretendia usar o candomblé como fonte de renda adicional começou a introduzir a prática de seus rituais em associação com a capoeira, como o ato de incensar do ambiente antes de jogar capoeira. Provavelmente procurando trazer os assistentes para a consulta de Ifá, a adivinhatória pelos búzios…

O Salve introduzido por Mestre Senna como saudação foi adotado, apesar do Mestre me haver sugerido os termos "Xuba" ou "Axé" de origem africanas quando da ocasião dos estudos para o ante-projeto de regulamentação esportiva da capoeira.
A propósito, Itapoan informa que o "salve" foi sugerido por André Lacé

Os exemplos são muitos e se repetem através o decorrer das gerações que se sucederam e das múltiplas oportunidades de convívio.
Jesus Assuero me informou que Bimba lhe dissera que seu pai (do Mestre) era quem dava "sartu " na boca de caixote de sabão, enquanto a mim fora dito pelo próprio, em ocasião anterior, que esta habilidade pertencera ao Mestre Bentinho!
Ezequiel afirma que Bimba intitulo o toque de "Sta.Maria" como o "hino" da regional e que "cavalaria" não se prestava para o jogo … usava-se apenas como aviso…

Os exemplos e citações seriam infinitos e enfadonhos… resta apenas apreciar e selecionar cuidadosamente os que nos parecerem consentâneos e coerentes com a lógica, a história, a tradição e se enquadram no contexto atual, abandonando as questiúnculas e discussões estéreis.


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O PAPEL DA LUTA REGIONAL BAIANA

Em lugar do "Cinturão de Campeão"… o título de Doutor!

Durante a terceira década deste século, isto é, em torno dos 7 anos de idade, comecei a tomar conhecimento das dificuldades encontradas pelas atividades culturais africanas em Salvador.
Apesar da mestiçagem da minha origem sangüínea (indígena, africana, portuguesa e italiana) a linhagem cultural era nitidamente branca e pude perceber a repulsa sutil dos mais velhos aos costumes populares afro-brasileiros.

Os baianos aceitavam de bom grado a presença dos quitutes africanos na dieta e o trabalho humilde dos descendentes dos africanos, porém olhavam enviesado as suas manifestações culturais.
A proscrição à prática dos costumes e religiões africanas era evidente no samba, considerado como prática de malandros, marginais e desocupados e, sobretudo, na perseguição feroz ao candomblé e à capoeira.
Na revolução de 30 tomei conhecimento da fuga do temido Pedro Gordilho, feito temeroso pelo seu afastamento de cargo de Chefe de Polícia pelos revolucionários e pela consciência da injusta e desumana perseguição aos populares de Salvador e às suas manifestações culturais.

O fato foi mais notável aos meus olhos porque ouvi os fuxicos de haver o Comando da Região Militar encarregado meu pai da guarda, proteção e remoção do assustado ex-algoz do alcance da justa represália almejada pelas vítimas dos seus abusos de poder.
As referências desairosas Lídio, por ser tocador de pandeiro e sambador do largo da Saúde e a outros "malandros, desordeiros e desocupados", boêmios.

E as restrições se estendiam ao genial Dorival Caymi, cuja paixão pela música do nosso povo, à falta de transporte mais cômodo, o conduzia à pé para Itapoan a fim de cantar e tocar com os pescadores, donde surgiram suas maravilhosas criações de tonalidade iorubana, que era considerado companhia inconveniente ("mau exemplo", capaz de desencaminhar os mais jovens…) até para seu irmão mais moço Osvaldo, meu vizinho e companheiro de infância, em face da boêmia e intimidade com os costumes afro-brasileiros.
Ainda hoje oiço a vendedora apregoando, "mercando" dizíamos então, pontualmente às dez horas da noite pelas ruas da Saúde e do Godinho, seu canto de venda "Iê-êêê… acarajé…" com seu sotaque iorubano…

Este contraste entre a aceitação da culinária e recusa das manifestações culturais africanas modificou-se após a revolução de 30, graça à chegada a Salvador de dois cearenses, transformados em admiradores dos costumes africanos graças à capoeira e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Bimba.
Cisnando Lima, apaixonado pelas artes marciais, veio para Salvador a fim de estudar medicina, trazendo o desejo de aprender capoeira, cantada em verso e prosa nas lendas em sua terra natal. Aqui chegando permaneceu na vizinhança do Interventor Ten. Juracy Montenegro Magalhães, a quem devemos a grande revolução social que reconheceu a cultura africana como legítima em todas as suas manifestações, especialmente a capoeira e candomblé.

Cisnando que privava da intimidade do Interventor Juracy Magalhães, de cuja guarda pessoal tomava parte, propiciou uma demonstração privada de capoeira de Bimba e seus alunos ("brancos" , os acadêmicos e "do mato") que provocou a admiração, o respeito e a consideração da autoridade máxima do nosso estado pelo nosso Mestre e pela Capoeira, abrindo o caminho para a demonstração posterior para o Pres. Getúlio Vargas, a qual iniciou a fase final da integração da cultura africana em nosso país.
Assim é que Bimba, através Cisnando chegou a Juracy, que conduziu Bimba e seus alunos a Getúlio, que legalizou a capoeira, reconhecendo-a como a luta nacional brasileira, oficializando posteriormente a sua prática através o Ministério da Educação.
A aceitação da capoeira como prática legal deve-se portanto ao trabalho e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, o instrumento que iniciou a derrubada dos preceitos e preconceitos contra as manifestações culturais negras.

E pela entrada aberta pelo nosso Mestre com a ferramenta social da capoeira saíram da ilegalidade todas as demais práticas festivas, religiosas, profanas e desportivas afro-brasileiras. Inicialmente a liberação, mediante permissão da autoridade policial das manifestações culturais festivas e religiosas, ainda com limitação de horário (encerramento até às 22:00 horas) para o candomblé sob pretexto da perturbação do silêncio, sendo incluídas nesta mesma categoria todas as demais atividades similares.
Um passo importante na implantação da democracia em nosso país. Desde que a verdadeira democracia é baseada na igualdade de direitos e deveres entre homens unidos pelo respeito mútuo e amor fraterno.
Deste modo Bimba é um marco histórico tão importante quanto o Zumbi dos Palmares na evolução social da cultura negra na sociedade brasileira e da modernização da sociedade brasileira iniciada com a revolução de 1930.
Estes importantes fatos sofreram modernamente uma multiplicação pela atividade dos mestres contemporâneos que levaram a todos os recantos do nosso país e ao resto do mundo a mensagem libertadora e democratizante da capoeira.

É importante enfatizar que a despeito da evolução da dinâmica da "regional", acompanhada lenta e progressivamente pela turma de angoleiros, ao lado da modificação do conteúdo literofilosófico dos cânticos pela adaptação aos meios culturais em que foi implantada, à própria personalidade dos mestres contemporâneos e ao momento histórico atual do país e do mundo, o toque de berimbau mantém constante o axé da capoeira fazendo de cada capoeirista uma unidade no conjunto harmonioso da Capoeira.
Deste modo cada canto de capoeira é um hino de liberdade, de igualdade e de fraternidade, diriam os revolucionários franceses.

Salve Bimba!
Paladino da raça negra!
Libertador da cultura africana!


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