Category Archives: Perguntas/Respostas

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O GAROTO DE JULIANE


A mensagem de Juliane é linda!

"Olá ! gostei muito da sua página, e gostaria de parabenizá-lo.
Gostaria também que você dissesse que em Juiz de Fora (MG) o grupo de capoeira Oficina da Capoeiragem está fazendo um ótimo trabalho com a capoeira, com direção do mestre Ray e do professor Kamuanga.
Gostaria também de dizer e mandar uma idéia para todos os outros capoeiristas:

" Ontem, dia 26/02/00, eu presenciei um exemplo de força de vontade para todos, principalmente os capoeiristas. Um garoto de cadeiras de rodas, com problemas mentais, entrando e jogando em um batizado.
Não levantava, não chutava, não dava au nem mortal, mas se protegia com a mão no rosto e quase não mexia os pés …
Bem, ele fez muita gente chorar quando disse:

"na capoeira ninguém pode ter preconceito
naquela roda não havia ninguém igual a ele,
mas também não tinha ninguém diferente."

E depois disso tudo que vi e vivi, mais vontade me deu de jogar e de um dia jogar uma "iuna" (roda para graduados). Sei que falta muito para mim, pois tenho 14 anos e estou na corda branca, mas um dia, eu sei, tenho fé em DEUS e em BIMBA, que irei conseguir.
Por favor fale ao menos do garoto, pois isso é verdade e uma lição de vida.

Juliane S. Machado ( da família de Bimba)
Juiz de Fora/ Minas Gerais
Oficina da Capoeira
juebinho@powerline.com.br

Obrigada !!!!!"

demonstra nitidamente a euforia, o estado de felicidade plena que a prática da capoeira provoca em todos nós; a mudança do nível de consciência, o estado modificado de consciência que o ritmo-melodia ijexá provoca e que pode e deve ser usado como terapia.

Menina Juliana,
Deus lhe conserve
O dom de amar ao próximo
A humildade de ver em tudo o dedo do Senhor!
Você já nasceu capoeirista pela lei de Deus!
Um dia será formada pela lei dos Homens
Jogará sua "Iuna" na Roda da Vida
Com o aprumo da Mestra que mora em Você!

Axé Babá!



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COMO POSSO ENCONTRAR A VERDADEIRA CAPOEIRA?

Mensagem Original
De: Juliana
Para: adecan@e-net.com,br
Enviada em: Sábado, 14 de Agosto de 1999, 23:03
Assunto: capoeira
Oi!! Sou estudante e capoeirista, sou apaixonada por esta arte e queria parabenizá-lo por sua página. Gosto muito da tradição da capoeira, o que está sendo muito raro encontrar ultimamente, por isso gostaria de pedir uma sugestão de como posso encontrar a verdadeira capoeira !!
Gostaria de saber sobre o que o Mestre Bimba dizia, e também se ainda é possível encontrar o disco dele.
Desde já agradeço e mais uma vez parabéns por resgatar a verdadeira capoeira ( quase chorei quando vi os manuscritos de Pastinha !).
Um abraço e Salve !
Juliana.

Juliana:
Grato pela msg.

A verdadeira capoeira de cada um de nós e
aquela que mora no corpo de cada qual.
Existem padrões éticos, técnicos
e musicais, porém a capoeira é
a manifestação comportamental
de cada ser
expressão maior da individualidade humana.

Só é capoeirista quem se liberou de todas as amarras culturais e bloqueios psicodinâmicos, inclusive dos mestres e deixa apenas a "capoeira" fluir livre e suavemente pelo próprio corpo, aparecendo nos seus movimentos e estado de espírito.

Os fundamentos estratégicos da capoeira são simples
música, esquiva, parceria e amor.

Sem dúvida alguma, o primado pertence ao amor…
Pela vida, pela capoeira, pela arte, pelo prazer de apenas "jogar" com a pureza e a inocência da eterna criança que existe escondida no coração de cada um de nós.

A postura comportamental de esquiva ao impacto de movimentos, simulados ou não, de ataque ou que envolvam perigo de qualquer natureza trás no bojo a segurança da sua prática, ao lado de reflexos inconscientes de preservação da integridade física e da vida, gerando um sistema de defesa pessoal "sui generais", "instintivo" nas palavras de Mestre Bimba.

A parceria é fundamental.

Sem o parceiro não se pode jogar, nem aprender, a capoeira.

Somente a presença do parceiro permite o desenvolvimento da autoconfianca na capacidade de improvisar os movimentos de esquiva ante a movimentos partidos doutro alguém cuja vontade e intenção não controlamos.
Para conhecermos os pensamentos e movimentos subsequentes de alguém precisamos deste alguém como parceiro-adversário.

A música é a própria essência, a raiz mística da capoeira. Responsável e guia do estado modificado de consciência do capoeirista, comanda a natureza e a dinâmica dos seus movimentos. Controla a agressividade, desfaz os bloqueios psico-dinâmicos e gera o prazer lúdico da sua prática.

A associação destas forças primárias comanda o ritual,
garante o cavalheirismo e esportividade do jogo da capoeira!
O mestre é apenas o maestro,
comanda o balé da vida que chamamos de capoeira!

Existe no mercado um CD "Curso de Capoeira Regional", reprodução digital do disco original de polivil de Bimba, com alguns defeitos técnicos.
Para seu treinamento pessoal recomendo o CD de Moraes "Capoeira Angola de Salvador", que uso para prática individual capoeira como ginástica aeróbica e manutenção da aptidão física.
As palavras de Bimba você encontrará em A HERANÇA DE MESTRE BIMBA
Os nossos comentários de trechos selecionados de Mestre Pastinha encontram-se em A herança de Pastinha.
"Falando em capoeira" encerra minhas observações pessoais, depoimentos, pesquisas, experiências e lições (que recebi de mestres, de capoeiristas e da vida) como médico e como criatura.
Axé!
Decanio.


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O QUE É CONCEIÇÃO?

Pergunta de Jean Paulo:

< o que é conceicao? ouvi dizer que era uma prisao, queri mais informacoes, tudo que tiver muito obrigado jean paulo >

Resposta:
O "Engenho da Conceição" citado na quadra cantada no disco de Bimba era uma prisão denominada de Engenho da Conceição, onde eram recolhidos os desordeiros e condenados outros.
Tradicionalmente um lugar temido pelo povo e portanto, também pelos capoeiristas, que muitas vezes eram injustamente carreados para o seu interior, sem esquecer as tantas outras em a Justiça os encaminhou justa e merecidamente por bebedeiras e brigas.
Quando Bimba reporta

"o Mesti Qui m’insinô…
<tá nu> Ingenho da Cunceiçãum!
Só devu saúdi i obrigaçãum"

está apenas exaltando a valentia do seu mestre… sempre brigando, e de vez em quando freqüentemente?) recolhido no Engenho da Conceição… naturalmente. para esfriar a cabeça. Enquanto na última estrofe a gigantesca dívida dum aluno ao mestre: tudo que possui … "saúde" pela prática do esporte… "obrigação" divida que não se paga senão pela eterna gratidão – pelos ensinamentos orais (sabedoria), pelos movimentos da capoeira, defesa nas horas difíceis, esquiva e proteção ante os perigos, armadilhas e agressões nos caminhos e descaminhos desta vida aventurosa.
Desconheço a origem do nome, que provavelmente indica o local onde foi construído prédio.
Durante minha juventude algumas vezes fui jogar futebol com os presidiários e assim passei a conhecê-la "por dentro". Um prédio muito grande, lembrando um convento com suas celas de monges, cercado por muros muito altos, com uma grande área livre onde se localizava o campo de futebol.
Atualmente é o Manicômio Judiciário.


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AGARRAMENTOS NA REGIONAL

Vanessa, Itabuna
 
seu e-mail
< Parabéns por este texto sobre os agarramentos!!! Vou levar para a academia e colocar no mural.
Acredito que as pessoas que se dizem capoeiristas e usam os agarramentos, na verdade não conhecem a Capoeira e suas técnicas e por esta falta utilizam outros recursos.
Muitos "mestres" dizem estar fazendo uma inovação na Capoeira colocando golpes (imobilizações) do jiu-jitsu e ainda têm a cara de pau de mencionar o nome do Mestre Bimba, dizendo que ele também introduziu golpes de outras lutas.
Na minha opinião, Mestre Bimba não deixou se perder as principais características do capoeira que é a agilidade, a destreza, a malícia… e nenhum destes que se dizem importante chegam aos pés da figura que foi o Mestre Bimba, pelo seu carisma, personalidade e inteligência que deu impulso à Capoeira.
Acredito que devemos manter a tradição e a criatividade pode ser usada dentro da roda, através da própria liberdade de expressão que a Capoeira permite, mas não para descaracterizar esta ARTE.
Axé, camará!
Vanessa Capoeira RAÇA (Itabuna/Ba) >
fez-me voltar 60 anos e lembrar palavras de Bimba a propósito de agarramento:

O verdadeiro capoeirista não se deixa agarrar…
sai de baixo… esquiva… foge… escapa…
Por que
quando solto… o capoeirista salta, desce, sai de au…
quando agarrado fica imóvel… indefeso… inerme…
solto o capoeirista salta… desce e arrasta… sai de au…
preso, imóvel, agarrado poderá ser esfaqueado…
estrangulado… chutado… apedrejado… baleado… estuprado… violentado…
Em resumo
BOBO É QUEM SE DEIXA AGARRAR…
E…
MAIS TOLO AINDA É QUEM AGARRA !


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O CORDÃO DE SÃO FRANCISCO E A CAPOEIRA ANGOLA ?

São Francisco ?
Cordão dos Angoleiros?

A pergunta de Carlos Henrique Pereira, Rondonópolis/MT:

“Caros amigos, antes de mais nada venho parabenizá-los pela home-page sobre capoeira que é uma arte que merece ser exposta ao mundo já que é a cara do brasil. venho através desta procurar ajuda de vossa parte para solucionar uma dúvida oriunda de um encontro de grupos de capoeira que se deu na cidade de rondonópolis-mt, a pouco. comentou-se que houve certa vez, pelos primeiros praticantes de capoeira angola, uma graduação por eles criada, e que se era utilizada cordas franciscanas para representá-la. aguardo ansioso resposta de vossa parte para podermos elucidar de vez esse assunto. agradecendo desde já a atenção recebida, subscrevo-me.
Carlos Henrique Pereira carloshp@zaz.com”
A resposta:
O estilo de capoeira conhecido como “angola” nasceu em 23 de fevereiro de 1941 com a fundação pelo Mestre Pastinha do “Centro Esportivo de Capoeira Angola” como podemos verificar no manuscrito abaixo reproduzido de autoria do próprio Mestre Pastinha.

Image
A. A. Decanio Filho (Organizador) – Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha, Edição CEPAC, Salvador/BA (pg 3b)

Seus fundadores foram:

Image
A. A. Decanio Filho (Organizador) – Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha, Edição CEPAC, Salvador/BA (pg 4a)

Image
A. A. Decanio Filho – A herança de Pastinha, Edição CEPAC, Salvador/BA

Os primeiros capoeiristas se diziam jogadore de capoeira, sem mais pretenções de categorias.
Os que aprendiam, como Totonho de Maré, apreciando as ‘brincadeiras”, “vadiação” ou “jogo” praticado pelos mais destros reunidos em em torno dum mais velho ou mais respeitado pela técnica, musicalidade, sabedoria ou idade, se diziam discípulos do “dono” da roda ou “mestre” (aquele que dirige, governa ou coordena o grupo de trabalho ou de diversão, em nosso linguajar popular).
Aqueles que aprendiam particularmente com alguém, mesmo que este não dirigisse um grupo ou roda, se diziam discípulo do mesmo e o chamavam de “mestre”.
Só existem, portanto, três categorias de praticantes: aprendizes ou alunos, jogadores ou capoeiristas e mestres.
Como o grupamento social era pequeno, todos se conheciam e eram chamados pelo nome ou apelido, sendo desnecesários uso de insígnias ou simbolos.
A capoeira era jogada como diversão em reuniões festivas, de modo semelhante aos sambas e batuques, com as vestimentas de trabalho ou de gala, com a preocupação de não sujar ou estraga-las.
Jamais, a partir do meu despertar para a capoeira, aos 7 anos de idade ou em 1930, ouvi falar em, nem vi, uso de cordões entre os capoeiristas antigos, mesmo depois da criação do estilo angola pelo Mestre Pastinha.
Pelo contrário, os seguidores de Mestre Pastinha, conhecidos como “angoleiros”, abjuram o uso de cordões e insígnias semelhantes.
O uso de fitas para expressar graduação foi proposto pelo Mestre Senna, aluno dissidente do Mestre Bimba, criador da capoeira “estilizada” (cujo verdadeiro significado até hoje desconheço) e de raizes no estilo “regional” de Mestre Bimba, hoje adotado pela maioria dos praticantes de “regional” moderna. Alegava Senna, que os escravos amarravam as calças com cordeis, sustituídos, na capoeira estilizada, pelas fitas de cores da bandeira brasileira, em paralelo ao sistema das artes marciais, às quais pretendeu incorretamente filiar a nossa capoeira da Bahia. Mestre Itapoan (Dr. Raimundo Cesar Alves de Almeida) adotou o cordão em substituição à fita de Senna.
Mestre Bimba, por sugestão nossa, adotou o uso de lenços coloridos para diferenciar as várias categorias de atletas e instrutores instituidas pelo anteprojeto de nossa autoria encaminhando à Confederação Brasileira de Pugilismo para regulamentação da capoeira como desporto na década de sessenta.

Angelo Augusto Decanio Filho, Salvador/BA, 24/12/98


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DESAPARECIMENTO DA CAPOEIRA ANGOLA NA DÉCADA DE 70

Maya, atendendo seu e-mail:

"Ouvi que duranta a decada 1970 a capoeira Angola quaze desapareceu. Voce lembra isso? Pode esplicar para mim porque? Voce acha que eu posso perguntar mestres de capoeira Angola essa pergunta?",

aproveito para divulgar a resposta na Caponline.
Em momento algum observei o desaparecimento do jogo de capoeira da Bahia ou, como costumam dizer atualmente, capoeira angola, que é praticada de modo espontâneo e natural pelo nosso povo, de cuja alma parece brotar em fluxo permanente.
Ocorreram processos simultaneos, o crescimento do espaço ocupado pela regional no noticiário do jornais, a migração, para outros estados e países dos novos mestres e o desaparecimento dos velhos mestres, deixando um vazio, que só tempo voltaria a cobrir. Cumpre realçar o papel destacado dos dois "Joãos de Pastinha’, o "Grande" e o "Pequeno" e dos "capoeiristas de rua", especialmente o "Grupo do Mercado Modelo", colunas mestras de nossas tradições, enquanto as novas gerações de capoeiristas e mestres se reproduziam no anonimato para aflorarem, incontáveis, na década dos 90 e renovarem os valores de nossa arte-e-manha.
Sem esquecer os numerosos mestres mais modestos e humildes, nem por isto de menores méritos e habilidades que enxameavam em rodas espalhadas pela nossa "Soterópolis" e que ainda pontificam em nosso meio, alguns verdadeiramente geniais.
Acredito que os mestres da capoeira angola seriam honrados com sua pergunta em português arrevesado de haifazeana.


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