BIMBA

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BIMBA


Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, foi, sem dúvida alguma, o maior capoeirista de todos os tempos, o libertador da capoeira, o paladino da cultura negra, o criador da luta regional baiana ( cognome sob o qual a capoeira foi liberada, na década de 30, pelo interventor da Bahia, Ten. Juracy Magalhães, da proscrição pelo Código Penal).

Além de “tirar a capoeira de baixo da pata do boi”, como dizia nas suas palavras simples, iniciou em 1946, durante o I Congresso Internacional de Neuropsiquiatria em Salvador, promovido pelos Profs. Edístio Pondé e Carlos Cerqueira (fundador do Sanatório Bahia), na casa do Babalorixá Camilo de Oxossi, na ladeira da Vila América (antiga ladeira do Currupio), as exibições públicas das manifestações culturais áfrico-baianas, que incluíram naquela data o samba de roda, a capoeira (regional naturalmente…) e o candomblé; deixando de incluir o maculelê, que foi recuperado na década de 50 graças a Tiburcinho de Jaguaripe, conduzido até Bimba por Decanio.

Sua importância histórica só encontra paralelo naquela de Mestre Pastinha, que conseguiu unir todos os demais Mestres de sua época em torno de sua figura carismática e conservar o primitivo jogo de capoeira sob o nome de “angola”, fator de primordial valor na evolução evolução histórica desta brincadeira dos mestiços brasileiros.



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BIMBA, DA CAPOEIRA O GRANDE MESTRE

Você sabia que a Capoeira que tanto se vê nas esquinas de Salvador já foi um crime previsto pelo Código penal da República? Pois isso aconteceu entre os anos de 1890 a 1937, quando quaisquer exercícios na rua poderiam ser punidos com até seis meses de prisão. Sendo uma das manifestações culturais dos afro-descendentes, a luta era vista pelas autoridades como uma modalidade para identificar marginais. Nessa época, a solução encontrada pelas escolas de capoeira, que proliferavam principalmente nos subúrbios, foi a clandestinidade. Assim foi até que o baiano Manoel dos Reis Machado, um angoleiro valente conhecido como Mestre Bimba, inventou a nova capoeira. Com muito molejo, ele tirou a palavra proibida do nome da academia que fundou em 1932, em Salvador, o Centro de Cultura Física e Regional. Depois dele a capoeira nunca mais foi a mesma.

Filho de escravos, Bimba tinha a luta no sangue e aos 12 anos aprendeu as artes da capoeira africana com o mestre Bentinho. Era filho de Luis Cândido Machado, um campeão de batuque, uma espécie de luta-livre comum na Bahia do século XIX. No Centro, o mestre afinou técnicas de boxe com as de jiu-jítsu e criou um método de ensino para a primeira escola brasileira. Outras estratégias foram adotadas para fugir de qualquer lembrança da origem da capoeira, como a mudança de alguns movimentos. O capoeirista perdeu um pouco da malícia, passou a ficar mais tempo na postura em pé, tinha que usar um uniforme branco.

Bimba criou um código de ética rígido e a partir daí a capoeira começou a conquistar alunos na classe média branca. Segundo registros, para ser aluno do Centro era exigido ter autorização da família e estar trabalhando ou estudando. Passaram pelas aulas do mestre desembargadores, juizes e médicos. Não só eles: ao dar ares de atléticos ao jogo, o mestre atraiu também as mulheres, até então excluídas das rodas. O estilo foi exportado para o mundo e ficou conhecido, mais tarde, como Capoeira Regional.

De tudo um pouco

Nascido no Engenho Velho de Brotas, em Salvador a 23 de novembro de 1899, o Rei Negro, como também ficou conhecido, viveu até o dia 5 de fevereiro de 1974, quando faleceu em Goiânia, Goiás, onde morou por apenas um ano. Alguns dizem que ele tinha acabado de comandar mais uma roda de capoeira, quando passou mal e teve um infarto fulminante. Outros contam que ele se contrariou e não resistiu. Quase aos 75 anos, Bimba ainda lutava pela valorização de uma prática ligada à história do negro no Brasil. Pai de 12 filhos (registrados, fora outros tantos sem registro), foi de tudo um pouco na vida: carvoeiro, doqueiro em trapiches, carpinteiro. Morreu pobre, como indigente, mas de herança deixou uma lição de valorização das raízes brasileiras e o legado do gingado.

Os restos mortais de Bimba foram transferidos para a Bahia em 1980, por iniciativa de seus discípulos, e estão depositados, desde 1994, no ossuário da Ordem Terceira do Carmo.

Bimba é Bamba

Na década de 50, quando a Bahia foi invadida por um modismo de competições de artes marciais, contam que a imprensa articulava desafios entre Mestre Bimba e os lutadores das variadas lutas recém-chegadas. Ele topava e queria, com isso, fazer a capoeira se sobressair. Durante esses embates surgiu um grito “Bimba é bamba”, que ficou imortalizado como o chamamento do mestre.

Essa coragem é apenas uma das facetas do capoeirista. Um dos discípulos mais antigos, Angelo Augusto Decânio Filho, aos 79 anos, tem muito tem o que lembrar dos 36 anos de convivência com aquele que “foi um exemplo, um pai, um líder, um mestre”. Decânio se matriculou na escola de Mestre Bimba aos 16 anos, escondido da família, e lá foi, já desde o primeiro dia, adotado como filho. “Fui motivado pela notícia de que Bimba tinha tomado sete sabres e um revólver de um esquadrão que tentou uma emboscada contra ele. Li isso no jornal e decidi entrar no grupo”, lembra ele.

Decânio diz que Bimba mudou a vida de todo mundo que teve a oportunidade de entrar em contato com ele. “Era uma pessoa que marcou a ferro e a fogo sua presença no coração da gente”. Além dos golpes de capoeira, o mestre ensinava lições de ética, correção moral, humanidade, singeleza. Para o menino Decânio, que depois se formou em Medicina, uma lição em especial ficou para sempre, na vida e nas escolas onde deu aula depois: “Bimba não ensinava. Ele fazia e mandava a pessoa fazer. E tolerava os defeitos de cada um, dando a cada qual seu valor pessoal”.

Para a Bahia, o Brasil e o mundo, outras lições de Bimba ajudaram a fazer um planeta melhor, livre de preconceitos. “Ensinou que raça, cor, cultura não são valores, o valor é a imagem do homem ético”. O discípulo não hesita em dizer que Bimba, mais do que um exemplo, foi o maior homem que ele conheceu na vida. “Hoje eu tenho quase 80 anos, convivi com gente de toda espécie e importância, mas não tenho ninguém mais para colocar no altar ao lado Mestre Bimba”.

Capoeira Brasileira

A capoeira regional ou luta regional baiana tem origem na fusão da capoeira que hoje é conhecida como de angola, e do batuque, luta africana praticamente extinta, também conhecida como bate-coxa. Na capoeira de Mestre Bimba também estão presentes aspectos de lutas orientais outras e de artes tradicionais do Recôncavo Baiano, como o samba de viola e o maculelê.

Bimba acreditava que a capoeira deveria ser essencialmente uma luta de ataque e defesa e, por isso, via na morosidade da ginga angolana uma desvantagem para o capoeirista. Excluindo na modalidade que inventou tradições mantidas pela capoeira angola, o mestre tentava alcançar mais agilidade e competitividade na luta. Tirou, por exemplo, a moeda no centro da roda enrolada no lenço que o capoeirista pega com a boca. Outros golpes foram acrescentados, como os balões que originaram a “gravata” praticada na regional.

São três as raízes principais da capoeira nascida na Bahia. Dos africanos veio a herança dos movimentos rituais fundamentais do candomblé (dos iorubás veio o ritmo ijexá e rima tonal a cada 3 estrofes e dos bantos vieram o berimbau). Os portugueses entraram com a improvisada dança popular chula, do pandeiro e da viola. Dos nativos brasileiros, a herança foi a nomenclatura dos movimentos, os temas dos cantos, o ritual, os métodos de ensino.

A capoeira baiana é caracterizada pela associação de movimentos executados ao som do ritmo ijexá, que é regido pelo toque do berimbau. Eles simulam intenções de ataque, defesa e esquiva, exigindo do lutador habilidade, força e autoconfiança. O jogo acontece entre duas pessoas, sendo o papel de cada um demonstrar superioridade em relação ao companheiro. A coreografia tem como base o gingado, durante o qual o praticante deve ficar em movimento permanente.

Os vários toques executados, o acompanhamento do coro e compasso de palmas pelo conjunto de jogadores e dos assistentes têm papel primordial no espetáculo. Os regionais, ao contrário dos angoleiros, buscam os toques mais rápidos que acentuam a belicosidade do jogo. Hino, Cavalaria, Santa Maria, São Bento Grande, São Bento Pequeno, Banguela, Idalina, Santa Maria, Amazonas, Banguelinha, Iuna são os principais toques do estilo Regional.

Os herdeiros

Os filhos continuaram a história do pai. Manoel Nascimento Machado, conhecido como Nenel, é o presidente da Fundação Mestre Bimba, criada em 1994 para lutar para preservar a lembrança e os ensinamentos do capoeirista. Ele trabalha junto com o irmão, Demerval dos Santos Machado, o “Formiga”. Os dois se formaram juntos nas rodas de capoeira, em junho de 1967. Pelo trabalho dos herdeiros, o legado de Bimba tem ganhado reconhecimento. O mestre já recebeu o Prêmio Honoris Causa, concedido pela Ufba por serviços prestados à cultura da Bahia, dentre outros títulos.

Lá são desenvolvidos trabalhos sociais, como o Projeto Capoerê, que já deu assistência a mais de dois mil jovens carentes. “Hoje esse número está limitado a uns quarenta meninos trabalhando aqui e mais uns duzentos nas obras assistenciais de Irmã Dulce, mas queremos aumentar isso”, diz Nenel. Os planos são muitos, mas é preciso mais do que vontade para conquistar o sonho, e pelo menos um local mais adequado para as atividades que a fundação pretende desenvolver. “Temos em projeto oficinas de instrumentos musicais, biblioteca, salas de aulas e vídeo, arenas para apresentação, mas o espaço é pequeno para tanto”.

As aulas de capoeira são abertas ao público: crianças a partir dos dois anos, jovens e adultos, a preços populares (de R$15 a R$30), na sede da fundação, que funciona em um casarão antigo, localizado na Rua Gregório de Matos, no 51, Pelourinho. Existem ainda núcleos da entidade em três cidades do interior paulista – São José do Rio Preto, Araçatuba e Limeira, em Goiânia e em Newcastle, na Inglaterra.

 

http://ibahia.globo.com/sosevenabahia/bimba.asp (01/06/2004)

Redação/Formatação/Editoração modificadas por AADF


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